T., a raiz soluçada dos dias
À porta da sala errada,
quando toda a gente sabia que não era ali,
como se
o chão tivesse dado um passo de lado
para onde vive a infinitude
Só para os deixar tropeçar
num instante que já sabia o nome deles, quando
Começaram a falar,
Primeiro do tempo,
(e havia nisso uma previsão)
Depois dos contratempos...
(dele.)
E continuaram...
a cair pelos corredores da universidade de pedra,
estatuados, tateados até
saírem para a noite de velas derretendo na água
e ele oferecer um peluche, panda à beira-rio
Porque esse foi justamente o momento em que ela
Soube que ninguém mais ia chegar -
Com olhos extáticos, flutuantes, reflexos
Debaixo de liquidâmbares enquanto
Caminhavam o feitiço para casa.
Só que era uma vez, demasiadas
Um rapaz que dizia que lhe doía onde existia
“Aqui”...
cada chá, mimo, chocolate quente
Desfeito sobre mim mim mim
E foi aí que tiveste a ideia de me contar
que tinhas estudado magia por simpatia,
especialidade em xaropologia, eu só
precisava de um pouco de
crença em suspensão da descrença,
tu só precisavas de
uma caneta, quando estávamos no quarto
e pegaste no panda a pintar com as patas dele
um círculo na parede – abriste um portal!
Preto no branco teimoso como se por
Aliteração (a tua mão trémula...),
abrisses os cortinados
para a doce aparição de um quarto copiado
mas sem o som da tranca nas portas,
sem o atraso, sem o medo do depois.
Porque esse foi justamente o momento em que eu
Soube que ninguém mais ia chegar...
... aos teus pés, não hesitaste em atravessar
aquele batente com brilho à fogo-fátuo
Onde a realidade não podia entrar e
Entrelaçaste-me com dois dedos (suados...)
para perto, para longe: ali
sentíamo-nos incríveis, aorta da ala certa.
Como se invadíssemos:
parques, cinemas, hipermercados
Pontes praias florestas montanhas,
Centros comerciais bibliotecas restaurantes -
tudo o que me davas para o jantar.
Mas dias, uns poucos, e eu já me queixava:
da minha mão a arder sem motivo
que tu sem demora
curaste com o penso lento das tuas palavras -
enquanto beijavas a testa do panda
para as boas-noites no sofá onde ele vivia (e
tossiste...).
E logo seguíamos, refluíamos,
Como se assaltássemos a cidade pela janela
Entre beijos e harpejos,
Dizíamos “para sempre” num guardanapo
De papel-avião, porque tu tu tu defenestravas
Cada fresta de horário errado
Pra barricar a fantasia pra que fosse ela a realidade
(enquanto tremias mais um pouco da garganta, as
mãos...) minhas que nunca chegavam pra te abarcar
Porque tudo o que fazias era salvar-me a vida
Todas as vezes em que eu começava cada vez mais
A falar:
Dos textos obcecados a que não conseguia dar corpo;
Tu tocavas-me com nuvens de palavras de algodão. (trocavas-te amiúde)
Da coluna que curvava as horas sobre mim;
Tu levantavas cada vértebra de uma cama de bambu. (caía-te cabelo...)
Do estômago que ardia labirintos sem saída;
Tu cozinhavas gomas de (c)urso, prescrição perfeita. (perdias o apetite...)
E algures na minha estupidez absorta, eu meio
intuía que anos depois algo, a tua sombra diferente,
difusa, minguada:
“olha, as orelhas, pareces um lulu da pomerânia”.
Gracejaste “tonto” com a ternura de quem sabia...
bem o que refazer, sempre que lá estava eu a fal(h)ar:
Dos cargos que pesavam mais que pessoas;
Tu inventavas cantorias ridículas em clave de leveza. (adormecias demais...)
Dos corredores onde cada passo tinha dono;
Tu regavas o mapa para fora da planta. (caminhavas lentificada...)
Do (des)emprego que drenava mais do que dava;
Tu enchias-me de mantas e mantras no sofá. (mal dormias...)
Do mundo que por natureza me excluía;
Tu curavas este portal onde só cabíamos nós. (sorrias em esforço...)
e...
Durante 9 anos, foi assim:
a rotina, sacarina, cada lugar teu,
a felicidade (im)possível entre intervalos crescentes
de eu ficar em pedaços e me costurares.
Do alto da tua clarividência,
estendias-te, distendias-te aérea,
desmultiplicada em esforços e reforços de vitamina T.
Tu. T de tudo enquanto eu já percebia
o que estava a (des)fazer...
Sim, eu era o grande hipócrita,
especialista em crer querer suspender a descrença
Todas as vezes em que achava estranho –
os teus sintomas, a história progressivamente mais incrível
de uma rapariga que já jurava
“voar, imune a bombas, à prova de bala” –
E tinha a decência mínima de me preocupar...
contigo, como quem te perguntava se estava mesmo
tudo bem e acreditava quando dizias que estava “tudo bem”
só para me assegurar também que podia continuar a
pôr (a dor do teu céu transfuso entre parênteses)
Sim, eu sou o semi-monstro de estimação da minha própria
cegueira, egocêntrico retrospectivo,
o cliché autocomiserativo mendicante de empatia literária,
fingindo não se duplicar em ego: assim.
Voragem com pernas, fazia as questões para as quais
sabia não ir ouvir outra coisa, senão
a tua disposição automática
para me sarares no teu peito
enquanto negavas que adoecias
por isso.
Mas mesmo ao continuar a inocular-me do que
realmente aconteceu,
eu amava-te da minha pequena maneira fodida
e depois, lembro-me.
De como enchias os dias de pequenas revoluções,
e encenavas maneiras de recusarmos seguir as regras da moda
com palavras que saíam pela diagonal na ponta da língua
para (in)gente de tronos invisíveis
sempre que o claustro daquela universidade de merda
nos ia alastrando o vazio.
A tua doce anarquia triste em que outro mundo era possível,
só distante.
Ainda hoje eu...
Porque ensinaste-me a amar, nunca a desa(r)mar.
E depois, relembro-me dos meses finais,
o modo como te chamava os olhos vagos
e demoravas horizontes a voltar a ti,
como se acordasses doutro corpo.
Desfocada, envelhecida, amorfa na mitologia em que te pus,
sem vida própria,
sentada num sofá a preto-e-branco, tossindo compulsiva:
flocos de espuma, fibra de poliéster.
Um cansaço demais para te carregares sozinha à beira-rio e
todos os “não te preocupes”, alívios cómicos ou dias difíceis
por fim assumidos “eu não estou bem”.
A incapacidade de o levar a sério até ao
acto de ver de vez que já não eras tu
só porquanto já não cuidavas de mim.
E então, só então, o meu cuidar desesperado
de querer crescer braços mais mas o que faço com eles?!
Para ir fechar as fendas celestes, na tua senda.
(A morrer por dentro), proteger o portal a todo o custo,
sem nada em troca senão
o risco de a tua cura ser a minha doença,
todo este tempo, contudo eu não passava de um
panfleto contrafeito, mascote imitativa da tua entrega genuína a
Ajoelhar-me, tranquilizar-te (pálido)
com nadas "que um chá não cure", tratamentos
certos & seguros, mentiras, mitos e xaropes,
enquanto pioravas a olhos não vistos,
porquê?! Porquê?! Porquê?!
Desaparecias encurralada adentro de uma moldura
de fogo fátuo extinto. Rumo à irrealidade das coisas,
a tua voz frágil a fantasmar-se pelo ar
com as respostas que nunca vou ter, sem ser:
“Porque fui feliz assim”.
Porque esse foi justamente o memento em que eu
soube que nunca mais ias chegar -
de comboio, avião ou asas –
à casa onde costumávamos viver.
***
Às vezes, quando cambaleio por aí,
consigo ver-te, copa solucionada das noites,
à porta da sala certa, com o sorriso automático da inocência,
acolhedora, macia aos 21.
Ninguém sabia que era ali, aqui, em todo o lado,
o teu abraço de peluche gigante, Ursa Melhor,
a filtrar o que me fere em colheres de luar
com que toma(va)s as minhas dores.
Contraluz azul brilhante, querida constante, és a minha;
passado, presente, futuro. Morro de vontade de
fazer tudo outra vez, e ouves-me - a campainha!
Obrigado & abrigados, saímos ambos sob o teu casaco polar,
vamos jantar hoje a 11 anos atrás, dizes numa boa:
“Anda, anda! Ciranda pelo meu crónico sim!”
Até que o nosso halo se dissolve branda lagoa
Na montra do restaurante psicológico onde existo,
a tua chuva põe legendas no vidro, e escreve FIM:
A tinta apagada, o céu fica à toa
Mas se hoje a vida de zoológico magoa
O xarope que fomos ainda fabula assim
Contigo alapada, panda sobre mim.
domingo, 16 de novembro de 2025
Xaropologia
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