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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

"Quando As Palavras Falham, A Música Fala"

Enquanto as aulas (e o trabalho adjacente), conjugadas com aborrecidas e múltiplas actividades mundanas, me continuarem a entupir o tempo, fica este post. Este post relativo a acontecimentos celestiais cujo título talvez seja erróneo por, na verdade, ser a letra da música a falar sobre mim a falar sobre ti... <3


"I never felt like this with anyone before
You only have to smile and I'm dizzy
You make the world go round
A thousand times an hour
Just touch my head and send me spinning

I never felt like this with anyone before
You show me colors and I'm crying
You hold my eyes in yours
And open up the world
I can't believe all this
I can't believe all this

I want to keep this feeling
Deep inside of me
I want you always in my heart
You are everything
You are everything

I never felt like this with anyone before
You fill my head all full of rainbows
And all the rainbows is
Is every step you take
Is to be with you forever

I want to keep this feeling
Deep inside of me
I want you always in my heart
You are everything
You are everything
You are everything"

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Update Pessoal #2

De volta a uma determinada espécie de post... Mas é bom sinal que desta vez não tenha muito que reportar e que a sensação de fatalismo se tenha desvanecido. Sei que viver implica altos e baixos, só não quero desistir de realizações, de bem-estar emocional, de agarrar com agrado e perspectiva positiva a estrada em que estou. Tenho angústia que chegue (para impelir movimento) quando estou mais ou menos bem. Como agora...

1. Janeiro é me invariavelmente um mês tão opressivo, de desânimo avassalador, como a ressaca de uma antecipação de um clímax que não chega a acontecer e resulta em reset... Sabe bem poder emitir que em 2014 fugi à regra. As notas satisfatórias, por si só, não justificam este twist. O que mudou é que, através de tímidas iniciativas, sinto que estou a criar mecanismos que me permitem ter uma noção de possibilidade exterior (isto foi bué meta). Com isso quero dizer que parece possível desenvolver determinadas relações ou situações com outros seres humanos. Não estou num poço de alienação. Desde o final do secundário que não podia afirmar tal coisa. Tenho estado só sem ficar só, tenho alcançado solitude sem a necessidade de métodos de escapismo ou de entorpecimento como ocorre no Verão. Não posso voltar a isso, por mais que uma reacção anestesiante a que se conhece os cantos seja apetecível pelo conforto.

Interlúdio A: Estou numa fase doentia de The Cure. Adoro estas pancas que me aproximam de determinado artista musical, que me fazem escavar discografias. Já gostava bastante da banda em causa, agora esse gosto está a ascender a algo como um top 10 de todos os tempos, onde figuram bandas com que cresci, em que me moldei, melhores amigos. É ridículo que os The Cure sejam caricaturados como nada mais que uma banda gótica (numa acepção simplória) e melodramática... Disintegration é um dos melhores álbuns que alguma vez experienciei! Uma das canções que mais tenho ouvido (intitular "Untitled" um trabalho sobre incapacidade de expressão é tão inteligente):


 2. O que referi no ponto 1 tem também que ver com o facto de estar a sentir o que estou a sentir por ser humano x. Muito longe de idealismos estúpidos. Passou um milhão de anos desde que passei por um estado semelhante. É possível aliás que nunca tenha passado por isto desta forma. Não com esta certeza e prolongadamente. Quanto mais conheço, menos dúvidas tenho. Tomo-me como uma pessoa melhor ao empatizar com alguém em tamanho grau...

Além disso, não me tenho pautado pelo silêncio. Porque isto é real para mim. Tenho mostrado, tenho dito o que se passa de inúmeras maneiras sem, de verdade, o dizer... Não estou à espera... à espera de nada. Estou a iniciar, a lembrar x que eu existo, a lembrar-lhe que lembro a sua existência. Consequência: de súbito estou mais próximo do que parecia realístico há um mês atrás. As palavras saem tão leves, tão fáceis, sobre os mais diversos assuntos. Essa simples receptividade, sintonia tem me levado a segundos de melancolia transcendente, de êxtase emocional a que por norma só acedo pela arte e num nível mais ténue.

Se pessoa y demonstrasse interesse mais que "amigável" em mim sem que eu o reciprocasse, nunca permitiria qualquer aproximação. Ando a ser tão indirectamente óbvio (acho)... Porém o meu "óbvio" pode não o ser para o interlocutor e posso estar a ser visto como potencial amigo.

Esta ilusão, fundada em factos, faz-me bem, mas convém estar preparado para uma desilusão. É impossível deixar de ter expectativas quando não quero deixar de as ter... Logo se vê. Se for preciso chafurdar na lama, vou agir para que seja algo breve. Vou tentar não me oferecer, não voltar a sobrevalorizar pessoas que se estão a lixar para mim. Estou cansado de me fazerem sentir anedótico, inútil, etc.

Interlúdio B: Se em música tenho estado em mood para The Cure, em cinema tem sido o film noir a empolgar-me. Sempre simpatizei com a fotografia de alto contraste, com os cenários urbanos e nocturnos conjugados com personagens de moral ambígua, com tormentos psicológicos e com diálogo inteligente e cínico. No passado nada me encheu as medidas. Até que esta semana Out Of The Past me arrebatou. Aqui fica um trailer (ranhoso):



3. Metade da minha licenciatura está completa. Felizmente os mínimos que estabeleci no início do meu percurso no ensino superior deixaram de o ser após um único semestre. Aumentaram e mesmo assim tenho margem de manobra de cerca de 1,25 valores. Se acabasse com a média actual seria fantástico, mas não quero incutir em mim um acrescento a uma auto-pressão já exagerada. Num plano prático, para além de estar a adorar, agrada-me a sensação de estar a aprender, a melhorar, a descobrir em áreas que correspondem aos meus grandes interesses. Nomeadamente em cinema sinto-me hoje muito mais capaz de análise e portador de maior conhecimento histórico do que antes de começar o curso. Só continuo anómico face à escolha futura de um mestrado...

Poslúdio: Não acompanho Family Guy. Não sou grande fã, diga-se. De qualquer modo, esta cena é digna de um qualquer hall of fame:

sábado, 21 de dezembro de 2013

Álbuns De 2013: Top 20 De Favoritos























1. The 1975 - The 1975
2. Jimmy Eat World - Damage
3. The National - Trouble Will Find Me
4. Paramore - Paramore
5. Arcade Fire - Reflektor
6. The Wonder Years - The Greatest Generation
7. Phoenix - Bankrupt!
8. Kanye West - Yeezus
9. Vampire Weekend - Modern Vampires Of The City
10. AFI - Burials
11. Tegan And Sara - Heartthrob
12. Daft Punk - Random Access Memories
13. Chvrches - The Bones Of What You Believe
14. Moving Mountains - Moving Mountains
15. Alkaline Trio - My Shame Is True
16. My Bloody Valentine - m b v
17. Haim - Days Are Gone
18. Sky Ferreira - Night Time, My Time
19. Fall Out Boy - Save Rock And Roll
20. John Mayer - Paradise Valley

sábado, 30 de novembro de 2013

10º Aniversário Do Álbum Que Mudou A Minha Vida

Uns fragmentos (com muita contextualização, pouco cuidados, não muito bem escritos) para comemorar o 10º aniversário do álbum homónimo dos blink-182, a obra de arte mais importante da minha existência...




















2006, os primeiros meses do meu 8º ano. Iniciava-se a minha adolescência, começava a entrar nos meandros mais pessoais da internet através do chungoso Hi5 e do saudoso MSN. Até esse ponto, a arte não figurava nos meus interesses, não estava sequer na minha esfera, era um mundo distante. No caso específico da música, podia ter um ouvido mais predisposto ao rock mainstream da viragem do milénio (nu metal) - Linkin Park, Korn, Papa Roach, etc - por influência do meu irmão mais velho (já que o que ele ouvia chegava a mim como se fosse um fumador passivo), mas era somente isso... Tudo superficial. Já conhecia um pouco dos blink-182 a partir desse fumo. Como eu engraçava com "The Rock Show" e o seu hilariante e metalinguístico teledisco enquanto criança...



É nesse contexto de miúdo a encarar o gigante chamado Internet (para lá de jogos ou sites de jornais desportivos) que começo a traçar um percurso de ouvinte musical (e o meu crescente domínio do inglês é um auxílio a relacionar-me com letra de músicas). Os blink assumem-se desde logo como o meu grupo preferido e para grande desgosto meu eram então uma banda inactiva... Os álbuns Enema Of The State (1999) e Take Off Your Pants And Jacket (2001), exemplos máximos da onda pop-punk estadunidense de 1999 a 2004 preenchiam os meus dias... Em retrospectiva, são trabalhos cuja minha apreciação decorre muito da nostalgia. Pelo âmbito reduzido, estando focados num lado mais superficial do que é ser adolescente em termos de letra e pela extrema simplicidade / convencionalidade sonora. 

blink-182 (2003) é diferente! Ainda que o álbum seja cada vez visto com melhores olhos e tomado como a magnum opus da banda pela crítica e pelos fãs, num espectro geral, infelizmente, não é a sua imagem de marca. A visão sobre os blink-182 é redutora, limitando-se ao humor de casa de banho, à imaturidade, à rebeldia... Esta obra cai no esquecimento como um membro estranho para os menos atentos, mais ainda num país periférico e insignificante no que diz respeito ao impacto dos blink (de Portugal, em sintonia, só tenho a cultura nos pés, o que é frustrante...). A minha opinião (longe de solitária) é que o 5º e auto-intitulado álbum de originais do trio justifica uma reavaliação dessa concepção.

Não é um Kid A, não é visionário, claro. Em relação à sua influência, talvez se possa ligar um pouco à ascendência comercial de uma vaga de artistas "emo-pop" como My Chemical Romance, Panic! At The Disco e Fall Out Boy  em meados dos anos 2000. Somente isso. 



Estranho que mesmo aos 13 considerasse este álbum o meu preferido da banda, muito menos que ao longo dos anos essa posição tenha sido reforçada. Em blink-182, Mark, Tom e Travis exploram o seu lado de fãs de The Cure (também eu sou) e o resultado é um álbum irrepreensível de rock alternativo. Soa ao que é, a uma banda de pop punk a desenvolver-se numa ambiência que mistura o post-punk / new wave dos anos 80 com o post-hardcore do princípio dos anos 90 (por exemplo Quicksand e Fugazi). No fim, há um álbum diverso, mas coesivo. Merecedor de um dos meus clichés preferidos em críticas musicais: é melhor que a soma das suas partes, cria um tom singular. Algo justificado por um processo de gravação minucioso, de experimentação, de laboratório musical. Sem dúvida que é um caso em que a audição por fones é preferível. Vários easter eggs e detalhes que tornam audições repetidas apetecíveis. 

"Feeling This" é o exemplo exímio do que a banda se tornou neste álbum. O uso de flanging adiciona textura, dimensão aquando da introdução com a bateria, esta percorre um percurso irregular (à falta de conhecimento teórico musical, fico-me por aí) e revela mais que nunca o talento e inventividade de Travis Barker, as influências de hip-hop na sonoridade dos blink. Na mesma canção, o potente final harmónico em que as vozes de Mark Hoppus e Tom Delonge "combatem" e que culmina em a cappella é influenciado por Pet Sounds dos The Beach Boys... Para além disso, é interessante o contraste dialogado entre os dois lados do sexo, o romântico e o sensual/concupiscente...

"I Miss You" é uma rara balada acústica - e uma das faixas mais a la The Cure no álbum - em que um detalhe como o piano monótono ao longo do primeiro verso aumenta e muito o poder expressivo. A letra é sombria em sintonia com a música, sendo de destacar o momento belo da referência a The Nightmare Before Christmas com "We can live Jack and Sally if we want (...) And we'll have Halloween on Christmas". De resto, um exemplo de "liricismo" mais metafórico e ornamentado do que era habitual nos blink pré-2003. Basicamente e desde sempre, a minha canção número um.

Em "Violence", o uso atmosférico de sintetizador na ponte  e as vocais faladas/sussurradas de Mark em pano de fundo sublinham o clima de obsessão que a personagem inscrita na canção sente por uma mulher num bar...



"Stockholm Syndrome" é precedido das palavras de saudade e ânsia de uma mulher a enunciar uma carta até explodir na canção mais agressiva da discografia dos blink (após uns segundos de estática)... A urgência, o desespero, a paranóia como temas. Nunca o contraste entre as vocais graves e macias de Mark e as vocais agudas, desesperadas de dor de Tom foi tão efectivo." You're cold with disappointment / While I'm drowning in the next room / The last contagious victim of this plague between us / I'm sick with apprehension / I'm crippled from exhaustion / And I dread the moment when you finally come to kill me..." Estes versos seriam impensáveis na fase pop-punk do grupo.

"Always" é uma ode à New Wave / New Romantic dos anos 80 com o uso proeminente de sintetizador. Mais uma vez destaque à voz de Mark em background, à dimensão que confere...

A transição de "Easy Target" para "All Of This" demonstra a vontade de unificar o álbum. O outro da primeira num ruído que se assemelha a uma qualquer transmissão alienígena transforma-se na frase musical de abertura, no staccato da segunda (há também uma aliança temática; em ambas encontramos a personagem Holly). "All Of This" conta com o próprio Robert Smith dos The Cure como vocalista principal. A percussão "pesada" numa melodia sorumbática aprofunda a angústia da canção.



"I'm Lost Without You" é uma faixa final ("Not Now" foi um bónus na versão UK do álbum) épica, com layers e mais layers. O primeiro minuto e meio com ambiências electrónicas é reminiscente de Pink Floyd ou Radiohead... O uso de um microfone rotativo faz com que a voz de Tom pareça surgir de debaixo de água, acentua a ambiência de transe e melancolia da canção. "Are you afraid of being alone / Cause I am, I'm lost without you / Are you afraid of leaving tonight / Cause I am, I'm lost without you" tornam-se palavras quase hipnóticas... Nos últimos 40 segundos Travis Barker viola a bateria num solo em ritmo reminiscente de marcha (há dois layers porém) e blink-182 fecha de um modo algo circular.

Articulando isso com a minha vida, acho que nunca me teria apaixonado com tamanha intensidade pelo mundo da arte sem este álbum. Foi ele que abriu as portas e, uma vez lá imerso, nunca mais me deixou sair. Ao mesmo tempo que expandia os meus horizontes musicais, era uma constante, a minha conexão com ele solidificava-se, pautando toda a minha adolescência. Por mais que seja fã de quase toda a discografia da banda, é por este trabalho que a vejo como eterna favorita. Se não me tivesse atingido, é dúbio que mais tarde entrasse no universo do cinema, das séries de TV, da literatura... Catalisador de tudo! Define-me, é um marco identitário. De modo distante foi ele que me levou a Lost e ao Lost In Translation (completam o meu pódio artístico, creio...), por exemplo...

blink-182 é um paraíso estético para mim. Dos telediscos, da capa do álbum até à música. A "catchiness" mantém-se como elemento nuclear do trio, a paisagem sonora é ampla como nunca foi. Não é um álbum só para adolescentes, mas sim algo até mais relacionável para alguém nos seus vinte (e poucos ou muitos, tanto faz). Uma ambiência urbana e moderna em que a paixão, a agressividade e a urgência dialogam com a melancolia, a angústia e a desilusão. Sem ele, eu seria outra coisa qualquer. Foi ele que me desobstruiu a sensibilidade artística, foi ele que me causou os primeiros arrepios... É um amigo e enquanto eu respirar e contar com a memória em pleno, esta obra vai sempre estar carimbada no meu interior. Sinto por ele o que gostava de poder sentir por pessoas, não fosse este mundo tão volátil para mim em relacionamentos interpessoais... Esteja deprimido ou eufórico, apaixonado ou alienado é a minha banda sonora, é um caleidoscópio e um amplificador nos sentidos!

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Update Pessoal

É altura de evacuar outra vez. Ainda que não precise de me dissecar como fiz em Maio (até porque o relatado no post continua actual), tenho de aceder aos pedidos da minha mente. De x em x tempo, o ego sente necessidade de se exteriorizar. Porque reclama (a eventualidade de) atenção e porque precisa de passar a escrito os checkpoints para poder seguir em frente com a vida (ou falta dela...). Em suma, enquanto não escrever este post, a minha consciência vai lançar pedras a qualquer actividade que eu pretenda realizar. E já ando a adiar esta sede de leveza há um mês...

Vou limitar-me a enunciar uma série de pensamentos (com alguns desvios pelo meio).

1. Foi um Verão decente. Muito bom no que explorei a nível de televisão, razoável em termos cinematográficos, de leitura ou de futebol/corrida. Satisfaz pouco para o pouco que escrevi, mas pelo menos editei quase tudo o que tinha a editar de textos/poemas antigos. Estou mais solto para criar, o contratempo é que tenho perdido muito tempo online. A partir da segunda metade de Agosto, o meu vazio existencial trespassou demasiado para a internet. Não tenho disciplina mental para fazer algo que não seja uma obrigação no devido tempo...

Interlúdio A: Uma triste e fria verdade... 













2. Ainda em relação ao período estival, foi bom voltar a sentir-me em casa. As constantes viagens e os tempos em comum limitados a alguns fins-de-semana faziam-me sentir ainda mais estrangeiro do que sempre fui. Por volta de meados de Julho, reenquadrei-me com as pessoas com que sempre vivi. Não no sentido de comunicar. Refiro-me a tomar a sua presença como normal, natural e agradável. De facto, depois de um ano de faculdade tão solitário, descubri o valor de algo tão simples como sentir ruído e vozes amigáveis nas redondezas. É como se me oferecessem um certificado de que estou realmente vivo.

Já estou avisado para uma provável repetição desse fenómeno, o que é bom.

3. Não sei se é um ponto comum com outros seres humanos existir um ano que marca uma fenda na percepção da passagem do tempo. Até aos 15, tudo se movia devagar. Talvez porque essa idade marcou o advento da nostalgia na minha vida, o slow motion findou. Um passado cada vez maior, os dias com cada vez menos peso individual no meu tempo total na Terra, o facto de já não corresponderem a um bombardeamento de novas experiências... Eventuais razões.

Era lento, estático, sempre criança... E agora universidade, 20 anos. É estranho, sinto-me desfasado da realidade e até o meu corpo me chega a ser estranho. 

Dentro de questões temporais, há águas passadas que ainda molham. A escassa intimidade ao longo da minha adolescência é uma mágoa...

Interlúdio B: Anos 90, nostálgicos anos 90. As vantagens de ter acompanhado My So Called Life este Verão... 


Uma outra é ter posto os olhos num dos planos mais belos que alguma vez vi... Autêntico orgasmo nos meus sentidos (sublinhado pela "Everybody Hurts" dos R.E.M.)! (Excerto.)
























4. Numa perspectiva positiva, estes anos de vagabundo estão a ser muito importantes para crescer (mesmo que devagar; noto-me mais "livre" em contextos sociais; gosto da independência) num plano mental e a nível prático (que tanto detesto). Ando a dormir melhor (finalmente tenho um horário de aulas não esquizofrénico), a comer melhor (só agora vou começando a cozinhar...) e a praticar exercício físico regular. Estou mais enquadrado com este lugar, esta fase de faculdade e um pouco mais ciente de que esses aspectos são pontos de partida para me sentir bem. Estou a assentar! E como isso é fulcral para mim... A força do hábito confere-me alguma segurança e reduz a alienação com o espaço envolvente.

O mais importante é o curso em si, todavia ter ficado em casa durante este período seria um erro grave no meu desenvolvimento rumo à autonomia...

5. É um bocado óbvio que me sinto mais só quando há milhares de pessoas da mesma idade à minha volta, mas apercebi-me de algo que não compreendia. Quando sou uma ilha, ajuda não estar numa cidade. Uma sintonia entre o que vejo e o que "tenho" apazigua-me o espírito. Não fico tão agarrado a pensamentos fatalistas, porque penso mais em actividades do que em pessoas e relacionamentos. 

Interlúdio C: Tecnologia, amor, solidão. Fotografia polida e cenário urbano voltados para uma estética introspectiva, uma ambiência citadina de quietude na multidão (como idealizo). Bom realizador, cast sólido, trailer perfeito! Quero este filme já!



6. Objectivo "profissional" para este ano? Infelizmente, conseguir resultados acima dos esperados e procurados leva-me a aumentar a exigência. Passar a todas as disciplinas é ainda mais obrigatório e baixar a média mais de dois valores não é permitido. Neste momento, as notas têm, mais que nunca (pelo interesse na maior parte das disciplinas; pela falta de muitas outras coisas com que me preocupar), um poder incrível sobre o meu ego e a minha auto-estima. Só não vou estudar ao longo dos semestres. Enquanto o estudo circuncidado à véspera resultar (é uma bênção dar-se tão bem comigo), vou confinar as aulas no período das próprias aulas...

7. Detesto ser "obrigado" a participar em aulas para questões de nota e com isso conceptualizei onde a minha ansiedade social é mais intensa. Tenho tanto respeito por figuras de autoridade que perco o respeito por mim mesmo. Registos formais matam-me, bloqueiam-me. Quando a isso se acresce a pressão da avaliação... Boom!!!

Só mesmo quando há aquele/a raro/a professor(a) que cria um tom informal e amigável na sala de aula não sinto um peso na hora de soltar palavras. Já era assim no secundário; de qualquer modo, em primeiro lugar, prefiro estar calado, concentrado e confortável - sou introvertido. Se bem que por vezes seja difícil traçar a linha entre o "não falo porque não quero" e o "não falo porque tenho medo". Na mesma senda, estão questões de burocracia...

Já em registos informais, nomeadamente no próprio acto de conversar (desde que isso não implique iniciar conversação com alguém com qual não tenho confiança), estou solto! Sim, há sempre aquela barreira de ser demasiado cuidadoso / de ter medo de ofender... Quando esse obstáculo é superado, liberto-me de constrangimentos.

Interlúdio D: Em alta rotação na estação "Eu". Que beldade. Aposto que esta canção é condizente com o verso "the resolution of all the fruitless searches" quando pessoa x anda à procura de música para dedicar a pessoa y que tanto preza...


8. O que escrevi no último ponto é acentuado pela solidão e consequente hiper-sensibilidade. Quando estás numa etapa em que já te resignas a não conseguir manter relações para lá de 2/3 anos, quando tens 20 anos e começa a desvanecer o deus ex machina mental de acreditar que um dia tudo vai mudar, quando estás na faculdade e nada passa de interacção superficial e casual com alguns colegas... Enfim. É como já afirmei, para lá da família próxima, eu não existo. Neste aspecto, estou mais no fundo (logo agora que tenho maior projecção intelectual e me sinto muito bem fisicamente) do que alguma vez estive no passado. Não quero passar uma existência inteira em que o que sou e o que faço são somente para mim...

Conclusão: sobrevalorizo qualquer pessoa, os seus passos, as conversas, etc. O que para mim é um mundo, para eles é um segundo. Estou numa posição de enorme fragilidade. Qualquer pessoa com que simpatize é automaticamente uma das mais importantes na minha vida (visto que não há mais ninguém nela...) 

Catch 22: como se precisasse de amigos para fazer amigos... Tenho a protecção de, por norma, demorar muito tempo a gostar de alguém. Quando chego a esse ponto, agarro-me a nível mental (tendo o cuidado de ocultar isso e de dar espaço no mundo prático). Mais cedo ou mais tarde, percebo que estou a dar um papel de protagonista a alguém que me tem como uma personagem secundária. Acabo magoado e a remoer na minha insignificância. A ansiedade social e a hiper-sensibilidade caminham de mão dada, catalisadas pelo total arredio...

Esperava que a universidade tornasse tudo mais fácil, porém ter interesses semelhantes (além de que para uns 50% o curso nem é inseparável da sua identidade) não significa nada quando as pessoas vivem realidades tão distintas e há um oblívio quanto ao passado de cada um (cuja partilha poderia ser um factor de união...). No seguimento disso, não ter ninguém com quem partilhei uma história por perto, um espelho construtor, faz-me sentir um fantasma.

Interlúdio E: Já tinha visto esta obra-prima em Janeiro (na altura a minha opinião sobre o filme foi irresoluta), mas a ressonância foi tanta que a ela regressei. Fixou-se como um favorito. Impressionista, poético! As cores quentes que não me saem da cabeça! O espaço tão só que uma alma ocupa logo onde elas mais abundam...



9. É engraçado que os jantares de curso, uma ou outra saída à noite e o que aí se faz consistam para mim num constante método de me reassegurar que dizer "sim" não melhora a minha situação, que não estou a perder nada (gostava que fosse esse o caso). Para além disso, de seguida, e durante alguns dias, é me mais fácil manter um estado de solitude e abafar a solidão (pois percebo que é improvável conectar-me com alguém nos contextos a que até posso ter acesso).

10. Sempre que converso com alguém, ascende este doce-amargo posterior de que não comuniquei tudo o que devia comunicar. E há uma sensação de que tudo o que profiro é distorcido por uma parede de vidro. Há tanto isolado dentro de mim...
 
11. Ter consciência (até excessiva) dos meus defeitos é inútil no que toca a ultrapassá-los. É tudo sistémico, anos e anos a raciocinar de uma determinada forma. Está imbuído em mim. Suponho que terapia ajudaria em alguns aspectos, o pior é que nesta altura (tardia) o mundo exterior já é uma fonte de espinhos equiparável. Não tenho por onde começar, porque não tenho nada a que me possa agarrar...  

Interlúdio F: Soberba faixa de abertura do novo álbum de Jimmy Eat World. Aguardo pelo dia em que "there's something I feel that I haven't felt since I was a kid" se materializa para que a minha relação com a letra desta música seja ainda mais vincada.  



12. Não estou numa posição para tomar certas escolhas. Quando apaguei o Facebook em Dezembro de 2012 guiei-me em grande parte por esta lógica: se o próprio espaço cibernético tem o poder de regular a minha teia de contactos, se ele é maior que as próprias relações, se é ele o souvenir da minha existência para pessoa x, a relação é com ele e os verdadeiros mediadores são as pessoas. Isto quando há muitos outros meios de comunicação à distância e sem custos, seja pela internet ou por telemóvel... Estou a ser um fantoche e isto é uma mentira.

A decisão fez todo o sentido na altura, deu-me uma saudável perspectiva experior (cresci com as redes sociais a terem uma forte presença no meu caminho - uma constante entre os 13 e os 19 anos). No entanto, fez me reavaliar o ponto de vista sobre esta dúvida.

A verdade é que priorizar valores morais neste assunto é um luxo para alguém como eu. Há mentiras que tenho de aceitar, há jogos que tenho de jogar, pelo bem-estar que originam, pelo ego frágil que reforçam. Entram numa lista de mil e uma pequenas coisas que em conjunto criam condições para eu ser mais produtivo.

Estar alheio a todas as pessoas conhecidas foi um choque nas primeiras 2 semanas. Depois habituei-me, mas o meu mundo afunilou-se, eu encolhi. Insecto total! Acabei por voltar em Maio para aceder a apontamentos/informações para o meu estudo. Como não gosto de adicionar (por minha iniciativa; foi raríssimo fazê-lo no passado) pessoas, é possível que permaneça sozinho e no meu canto.

De qualquer modo, só tenho de assimilar que o Facebook com "amigos" é uma ferramenta para melhorar o meu estado mental, um aroma de mundo exterior... Ah, e que não vale a pena escrever certas coisas! 

Interlúdio G:  "I'm scared to get close and I hate being alone / I long for that feeling to not feel at all / The higher I get, the lower I'll sink / I can't drown my demons, they know how to swim". É a letra citada que me cola a esta canção, mas não posso deixar de referir o crescimento musical da banda. Bem longe do metalcore genérico e aborrecido com a infusão certeira de elementos electrónicos e de música ambiente.



13. Preciso e muito de actividades extracurriculares. Num mundo perfeito era futebol de competição e algo de escrita (num projecto em conjunto e sobre arte). O físico e o mental. Os dois! Não me sinto valorizado como ser humano (não vale a pena culpar os outros, até porque o elo em comum nos relacionamentos falhados sou eu). Se algo que eu fizesse recebesse atenção positiva (acho que sempre fui viciado nessa necessidade), estaria melhor face ao que sou. Só que há pouco que eu possa fazer, quando limito o que quero fazer ao pouco que sei fazer...

14. Em retrospectiva, identifico os dois momentos-chave em que "perdi" a carruagem. Ganhei um trauma a "dramas sociais" nos meus 14/15 anos. Enclausurei-me em mim, em remorsos exagerados e em odiar o mundo. Foi nessa fase que os demais começaram a ser incompreensíveis, uma língua estrangeira para mim (talvez pelo isolamento - induziu a proximidade com uma voz interior de decibéis crescentes - ou pelas meras especificidades dessa idade caótica).

Quando tive uma segunda oportunidade, já pelos 17 e acreditava que ia ser um de tantos casos felizes de "entrar no secundário como larva/casulo e sair como borboleta", os últimos meses do 12º trouxeram um twist. 

A progressiva tomada de consciência que era um tipo qualquer para pessoas que (lenta e fundamentadamente) se tornaram importantes reactivou mágoas passadas. De início, um plano "fake it till you make it" de me fazer crer que tinha, por fim, uma grande auto-estima (passar a gostar de mim não implica estar satisfeito comigo, apenas me acerca de uma figura auto-paternal) ocultou um pouco esse reaparecimento (que por sua vez intensificou de novo a minha apatia e inércia). Até o exterior, o meu círculo social se voltarem tão inexistentes, ao longo do meu 1º ano de faculdade, que ser narcisista só mesmo num qualquer acto teatral.

De momento, já não desejo tanto a eternidade dos relacionamentos como desejo a sua simples ocorrência e intensidade. Intimidade, nem que por segundos... 

Interlúdio H: Sendo um fã de Lynch há uns 3 anos era inconcebível que ainda não tivesse visto Eraserhead. Clama mesmo por excelentes meios audiovisuais e um horário nocturno para intensificar uma experiência imersiva. Para mim é difícil ficar indiferente, aborrecido perante algo que opera segundo a lógica dos sonhos e a obra de Lynch tem a particularidade de associar isso a narrativas claustrofóbicas, misteriosas, sombrias e íntimas. Vai muito de acordo com as minhas sensibilidades. Por este filme só, seria sempre um génio!



15. Por agora não importa, mas como convém ir pensando nisso... Já estive bem mais direccionado para o mestrado em Jornalismo. O meu "desacordo" é que o que se encontra por aí são apenas jornais regionais. Ou seja, mesmo quando há espaço para a cultura é quase sempre para ser abordada em termos de meros acontecimentos num dado local. Há demasiado provincianismo. O que me agrada é um formato mais visível em revistas (para o meu mal não há muitas), a pender para o global (e para as ideias em detrimento de eventos).

Certo é que mestrado em Estudos Artísticos não faz qualquer sentido para mim (diz o eu actual). Estou a gostar muito do curso, da educação cultural que me está a oferecer, da variedade... Só que o 2º ciclo não traz nada para além de um aprofundamento em cinema, música ou teatro...

Seguindo de facto Jornalismo (não visualizo alternativas, infelizmente), é provável que seja na UBI (sobretudo se quando chegar a altura de optar não tiver ligações com seres humanos destes lados)...

16. Às vezes sinto que devia estar mais (e sempre) preocupado, frustrado com grande parte do que escrevi aqui, que não tenho o direito de estar feliz em fogachos de tempo... É uma lógica perigosa e masoquista...

Poslúdio: O título. Será que algum dia não?

sábado, 5 de outubro de 2013

The 1975 - The 1975

É preciso voltar a 2008 para encontrar um artista musical relativamente novo em termos criativos que do nada se assume como um favorito... Setembro de 2013? O auto-intitulado álbum de estreia dos The 1975! Arte, sentidos e memória! É um daqueles casos cada vez mais raros (talvez porque a adolescência é o pico das descobertas, das paixões) de um álbum que pauta um período de tempo da minha vida, que tem o poder de criar a ambiência de tudo o resto, de alterar o meu humor. É um sentimento da mesma família do amor passional...


Focando-me na sua sonoridade, o que é oferecido é uma banda sonora para os anos formativos num rock/synthpop voltado para os anos 80. Há muito de Michael Jackson, de Simple Minds ("Girls" encaixaria em algum filme de John Hughes), de Peter Gabriel, da era Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me dos The Cure... Talvez sejam comparáveis a M83, porém aqui as guitarras prevalecem sobre elementos puramente electrónicos.















De início poderá parecer longo e a quantidade de interlúdios exagerada. Assim que se entra no tom do que se ouve, flui na perfeição e os tais intervalos para isso são fulcrais. Há também uma boa convivência entre números mais straightforward - "Heart Out", "Chocolate", "She Way Out"... - e outros mais experimentais, - "Menswear" num registo de R&B ou a jazzy "Pressure"- próximos do material dos 4 EPs antes lançados. Estas duas faixas, juntam-se a "Is There Somebody Who Can Watch You" num final alongado e anticlimático (considerando a energia que caracteriza o álbum). O piano subtil e a voz cansada acabam por funcionar bem, como se simbolizassem uma ida contemplativa para a cama, um final para todos os anos de adolescência. 

É que em termos de letra, o amor, o sexo, as drogas e as aventuras daí emanadas são os grandes temas. Talvez neste sector deixe um pouco a desejar, mas refrães como o de "The City" - "Yeah you wanna find love then you know where the city is" - ou versos como "But you're losing your words / We're speaking in bodies / Avoiding me and talking 'bout you..." em "Settle Down" são exemplos de "liricismo" belo e simples (a meu ver o mais adequado para este tipo de música).

 

A voz de Matt Healy alterna entre o "choroso" de "Sex" (aí é quase reminiscente de Jim Adkins - Jimmy Eat World) e o melancólico na já falada última faixa. O seu timbre bastante distinguível ajuda a conferir carisma à banda.

Atenção especial para a balada "Robbers" que cria um imaginário de romance a la Bonnie and Clyde (para ser mais preciso a inspiração é o filme True Romance). Em crescendo, sombria, é nesta canção que as vocais de Matt, ensopadas de emoção, se soltam e mais brilham.

 

Por último, a produção é perfeita para o projecto artístico! Polida, acolhedora e todos os instrumentos / vocais / arranjos no lugar e com relevância adequada... Como eu gosto de viver numa época de revivalismo da música pop / rock dos anos 80!

The 1975 vai rivalizar com Damage (Jimmy Eat World) e Trouble Will Find Me (The National) para o meu álbum preferido do ano. Tem a seu favor uma lua-de-mel que acredito ser para durar...

Desejo mesmo muito que expludam a nível comercial. Canções orelhudas, acessíveis, ritmos de fazer bater o pé... Porque não? Ter um álbum de estreia no número 1 das tabelas de vendas do Reino Unido é um bom começo a esse nível...

Envolto por este pano de fundo auditivo, em menor escala e de modo intermitente, tenho sentido aquele fogo doce palpitante, aqueles êxtases existenciais que a adolescência saudosamente me revelou. :') 

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Tudo: Eu (Ou Seja, Nada)

Um dos últimos posts do blog tem como título parcial "Desabafo Que Nem Precisava De Desabafar". O que estou prestes a postar sai de mim na condição contrária e é o resultado de um primeiro ano de ensino superior que está em vias de encerrar, das conclusões brotantes desde Dezembro de 2012. Preciso muito de me extrair de mim, dominante que está esta sensação que me subtraio de tudo e todos. Vejo-me preso ao que sou e nas muitas vezes em que reverto o relógio, compreendo cada vez mais a imutabilidade do "eu", como tudo, desde sempre, me tem encaminhado numa só direcção: uma solidão estrangeira em todo o lado. Como uma droga, esgoto-me no amor pelas suas premissas. Quero a fatalidade deste romantismo, partir dela para a quebrar mais tarde num final cinematográfico.

À diária corda na garganta de ser um fantasma, de só eu perceber a minha consciência, de só importar para o espelho, entro no quarto, escrevo as opressões e lanço-as por esta janela. Quando a única solução que sabes não resultar é a mesma em que insistes em círculos... História da minha vida! Então, tento pela liberdade da palavra ser algo mais belo e não o solo gélido que me percorre dos pés à cabeça. Colocar o ego no centro e fitar o lago é a minha fórmula única de comemorar a existência. Não sou sequer o apêndice de outra alma e só nas letras tenho este palco subterrâneo e silencioso de fazer soar um som. Distante da superfície, mas com uma despensa de esperança de um reflexo exterior me ouvir. Vivo na mesma página-questionário: poderá o meu eco entrelaçar-se ao grito de outro sem interesses corruptos, sem contextos facilitadores, sem tempos efémeros (como se não bastasse o pouco que temos)?

Vou tentar resumir os conflitos internos e coisas do momento por temas, ainda que todos se toquem e se unam no que sou, ou melhor, na minha ideia do que sou, no estado em que estou. De qualquer modo, sou a repressão disfarçada de pessoa. Há tanto para ser expulso e partilhado...

1. Música

Falando em formato sintético de música que me tem violado os sentidos... Uma banda sonora para o próprio post...

Beck - "Lost Cause". Sea Change é um álbum excepcional na discografia de Beck. Menos irónico e humorístico, mais sincero e carregado de tristeza do que é norma. Perfeito se estás miserável pelo fim de algum relacionamento (ou pelo acumular de absurdos, que é o meu caso), por exemplo. Esta música atinge-me tanto.

 

Paramore - "Ain't It Fun". Canção presente no novo álbum (incrivelmente eclético) da banda. Um olhar mordaz, sarcástico sobre o "rebentar da bolha" que é a vida adulta num registo energético de funk e com o uso de um coro gospel mais para o final. A letra é simples. Não obstante, mais importante é a paixão com que é vocalizada (a Hayley Williams é de longe a artista musical do sexo feminino que mais aprecio): "Ain't it fun / Living in the real world / Ain't it good / Being all alone / Ain't it good to be on your own / Ain't it fun you can't count on no one..." Também me questiono sobre o que fazer agora que "o mundo deixou de orbitar à minha volta"... Uma eventual razão para me mover é tão obscura...



Big Star - "Thirteen". Um sereno clássico dos anos 70 que captura a inocência perfeita do que é ser um adolescente apaixonado. Intrinsecamente nostálgica, não é um requerimento ter memórias associadas à sua audição. Os Big Star mereciam mais sucesso do que tiveram... A melhor canção apropriada para Freaks and Geeks que nunca marcou presença em Freaks and Geeks, já agora...

 

The National - "All The Wine". Os The National são a banda mais importante dos meus últimos 9 meses, uma paixão tardia que não resultou há anos atrás. Cresci e compreendo melhor a estética melancólica da banda. Matt Berninger é um "liricista" fantástico. Letras complexas, sombrias e todavia, de fácil relação para um jovem. A solidão citadina, a desilusão da idade adulta, ansiedade social, estados depressivos... Esta música ( do álbum Alligator) é invulgar já que é positiva, quase uma proclamação de poder megalómana ("I'm a festival, I'm a parade") e tem uma ambiência de rock de estádio reminiscente dos U2. Sair à rua com ela nos ouvidos corresponde a uma sensação de grandeza indescritível. O novo álbum (Trouble Will Find Me) arrisca-se a ser o meu favorito do ano.



Daft Punk - "Something About Us". O facto de esta canção me atingir fundamenta-se em dois grandes motivos: o crescente interesse por música electrónica (numa invasão liderada por M83) e a associação ao Lost In Translation (começo a dar por certo que é o filme da minha vida, inigualável). Minimalista na letra e no som, podia de facto integrar-na banda sonora sem dificuldade. Preciso de ouvir o novo álbum...

 

Goo Goo Dolls - "Slide". Não sou grande fã da banda para lá de Dizzy Up The Girl, um dos melhores álbuns de pop rock do final dos anos 90 (para mim um oceano de memórias de infância). "Slide" é tudo o que mais gosto encapsulado em 3m e 30s. Um som polido, energético e gritante de emoção. "What you feel is what you are / And what you are is beautiful" são versos que me causam arrepios. Tanta exaltação e entusiasmo... Apelam ao meu lado melhor de adolescente vivo e dinâmico.



Dream Theater - "Solitary Shell". Não estou muito familiarizado com os Dream Theater nem com música progressiva no geral. Sei que se destacam pelo virtuosismo técnico e pela criatividade, à semelhança do género no geral... Ficam para explorar no Verão... Dito isso, a "Solitary Shell" faz parte de um álbum conceptual (Six Degrees Of Inner Turbulence) que lida com vários tipos de contenda humana. O segundo disco resume-se a uma canção de 42 minutos sobre transtornos mentais dividida em várias partes. Esta é uma delas... É a letra que me atrai, podia ser sobre mim. Acompanha a vida de uma pessoa isolada e alienada da infância à idade adulta: "As a boy he was considered somewhat odd / Kept to himself most of the time / He would daydream in and out of his own world / But in every other way he was fine"; "As a man he was a danger to himself / Fearful and sad most of the time / He was drifting in and out of sanity / But in every other way he was fine".

 


2. Inutilidade / Amizade
Os meus pais não concordarão, só eles. Nem devia ser de outra forma. Uma excepção por ligação familiar, a única pela qual nem se precisa de fazer nada. Haverá quem nem nisso se pode sustentar, o que é ainda pior, claro. No entanto, não há qualquer contacto interior, nem me perturba que não haja, pois não tem de ser uma relação de amizade. Não advém de conexão, de partilha de intimidade, problemas, anseios, felicidades, sonhos, gostos, etc. Também são os únicos cujo mal me afecta emocionalmente (uma preocupação que pela vivência em dimensões diferentes não é regular nem explícita). Funciono muito numa onda de me preocupar com quem dá sinais fortes de se preocupar comigo... Nesta fase, prefiro um ambiente de total independência, contudo. Estou melhor longe de casa e de uma localidade pequena, desprovida de oportunidades e movimento.
 
É um combate diário este sentimento de não servir para nada. Há quem tenha a sorte de não precisar de outros para conferir sentido à vida, não é o meu caso (eu por mim sou uma beata). É frustrante porque este pathos está a tornar-se no tamanho do meu tempo. Posso escapar quando me envolvo em algo, quando me empolgo com ideias que me vêm à cabeça... Somente isso. Todos os dias acabo por remoer o assunto. Todos os meus maiores sonhos envolvem contacto profundo, honesto e permanente com outras pessoas. Seja pelo relacionamento (algo que devia ser atingível e comigo nunca é) ou por uma segunda via (um plano B que advém do flutuar que são as relações na minha experiência): a escrita, ou seja, mais pelo que crio do que por mim intrinsecamente. Se estou condenado a ser um deserto, a única coisa que me pode revigorar é a criação de algo que não o seja. A afirmação do "eu" por via indirecta. De resto, quase todo o tipo de acção se resume à (f)utilidade, a trabalho de formiga (por mais importante que seja), de servir os interesses de privados ou da sociedade. Não num nível de intimidade, que é tudo o que me diz alguma coisa... Sou alérgico à negação da primeira pessoa do singular.

Por breves momentos no 12º (1º período) acreditei que tinha encontrado pessoas que me tomavam como uma parte do seu universo. Havia motivos para o pensar, tendo em conta que estavam mais comigo do que com outros ou que os encontros passavam por vezes do contexto comum chamado escola. Aos poucos tudo foi ruindo. Pensava eu, ingénuo, ser alguma prioridade, ainda para mais quando num caso o relacionamento ia ao âmago do ser... Até foi excepcional no sentido de perdurar até há pouco tempo, mas quando uma pessoa é capaz de te convidar para uma conversa e nela mesma afirma precisamente que se está a lixar para ti... Meu Deus! Expliquem-me o ser humano! 

Hoje sinto repulsa (e só pretendo distância) dos poucos a que pude chamar "amigos" em 19 anos de vida. Estiveram sempre entre aspas. No sentido contrário, tenho em boa nota muitos daqueles com que me fui cruzando, sem grande proximidade, ao longo dos anos. Colegas de turma, professores, pessoas que conheci no futebol...
Para mim, amizade ou é eterna ou o termo nunca foi o adequado. Nem sou "agarrado", no sentido que passo bastante tempo sozinho e aprecio a solitude. Só espero que exista sinceridade, prioridade recíproca, comunicação que não se resuma a conversa fiada (como eu a detesto!)... Um contacto constante que surge por naturalidade. Não vejo como é que pessoas que não comunicam durante várias semanas podem ser amigas... A não ser pelo contentamento que parece existir por vulgarizações...

É muito por isto que estou cansado da humanidade. Não espero perfeição, não peço mais do que aquilo que referi. Se, com frequência, passo tempo com alguém é porque gosto da pessoa, se gosto dela só lhe peço o que escrevi... Quero ser um dos protagonistas de alguém, tal como quero fazer de alguém meu protagonista. Antes de se chegar a esse ponto, percebo a fase do conhecimento, do contexto (e adoro conversar, pode ser algo tão enriquecedor). Se nunca passa disso e se dá motivos para pensar o oposto, é uma relação podre, feia. Pelo menos eu não tenho por hábito ser presença habitual na vida de alguém que me é indiferente por dentro. Mas há quem consiga ser "monstro" o suficiente para estar com outros de forma constante só para evitar a companhia a solo da própria consciência...

Para baixo da amizade, só retiro lógica do relacionamento assente na troca de ideias. Impressões sobre a condição humana, política, arte, aulas ou mesmo algo menos importante... Sempre odiei rumores, o bater na mesma tecla da bebedeira de ontem à noite (epítome da conversa fiada)...

Este tema é um clássico aqui no blog, mas também não tenho a ilusão de ser o único que quer algo sincero e se sente incompreendido. A diferença é que a maior parte das pessoas aceita os problemas que assinalei e prefere ter uma sombra de amizade, a mim esses obstáculos repugnam-me e acabo por me isolar. Prefiro a dormência do nada à frustração do mais ou menos.

Exausto e preso a uma réstia de esperança indissociável ao ser humano. Não acredito que isto se vá resolver e, em concomitância, uma parte de mim, no canto de um quarto vazio, contradiz-me. Dói estar agarrado a um fio tão ténue. Acomodava-me não ter qualquer expectativa (ou talvez não e isso tornasse a vida um desespero entediante), porém não é assim...

A realidade é que estou "fodido", morto! Já estou na faculdade e até ao dia de hoje, os meus momentos com outros não passaram de fogachos. Grande parte das pessoas já têm uma base de relacionamentos importantes fixa, outros começaram a construi-la no início do ensino superior. É óbvio que esses indivíduos, mesmo estando abertos a novidades, pouco se importam com desconhecidos (e é impossível dedicar tempo a muitos, se queres tratar os mais importantes como merecem). Depois, ainda pior, as pessoas com que, por norma, me enquadro e identifico, mais introvertidas, são invisíveis (tal como eu).

Posso queixar-me da realidade envolvente e é um facto que poucas vezes foi a ideal para mim. Pouco importa, o problema é meu. Uma adolescência inteira de insignificância e a culpa é minha, o fatalismo de ser quem sou, de reagir mal aos contratempos, de não me conseguir expandir.

Que saudade atemporal de estar conectado a um número reduzido de seres humanos em que mais importante do que o predicado em conjunto, é o simples facto de estar com eles... Num plano mais realístico, os momentos de humor que antes caracterizavam o meu quotidiano são agora exíguos.

Há um buraco tão grande entre o que sinto/penso/sou e o que faço. Há tanta paixão (ainda que agora desvanecente pela falta de estímulos exteriores) por detrás desta apatia. Pelo menos gosto de acreditar que sou mais do que a inércia avassaladora, esta aparência de quem se está a cagar para tudo e todos...

Porque é que uma pessoa como eu tem o presente tão gratificante de ter vida (começo a pensar que so é de facto um presente quando bem sucedida), de poder estudar, de ter boas ideias, de até ter pessoas que se vão preocupando consigo se é incapaz de tomar partido disso? Qualquer um no meu lugar faria melhor do que eu.
Gosto de mim, juro que gosto e durante bastante tempo não o pude afirmar. Aprecio as premissas, como referi antes. Sinto-me um acidente de viação ou o resultado de um, porém. Não estar vivo não mudava nada...

E já nem avisto isso num olhar melodramático. Sou sensível, não da mesma maneira que era no secundário. Estou a ficar seco, a perder a melancolia, o contentamento suave de estar triste. Em 2013, aliás, tem-me preocupado a falta de preocupação mais do que a preocupação per se.
Só para terminar, eu bem gostava de me preocupar com as contrariedades dos outros, não conhecer e não ter laços de empatia com esses outros é que não ajuda em nada...








 













3. Amor / Paixão

Este tópico tem menos que se lhe diga à semelhança dos que seguem. É, em particular, estapafúrdio, visto que se a amizade está a uma ponte queimada de distância, o amor está a duas. Só tem algum fundamento porque também vou falar de paixão... Coloco a diferença fundamental entre os dois termos no facto de amor ser eterno (mesmo que um eventual relacionamento dessa natureza tenha um fim) e a paixão ser um fogo a prazo se não se metamorfosear no primeiro conceito...

Tenho tido sonhos recorrentes com uma pessoa, é sobretudo presença regular no subconsciente e vivo com outra, consciente, na cabeça. Ambas do secundário... Ora o que isto demonstra é o estado miserável em que me encontro desde há muito, já que a comunicação com as duas foi quase inexistente. É RIDÍCULO oferecer o trono dos sentimentos a alguém que mal deu pela minha presença. Serei um flash nessas vidas e elas, em oposição, são um mundo na minha. Um mundo que nunca escolhi...

Ainda para mais quando a rainha subconsciente, cuja paixão me leva de volta a Março/Abril de 2011, é o ideal feminino que transponho num pedestal (inconsciente) em termos de escrita. Edifica-se na melancolia, na minha versão feminina pré-faculdade. A verdade é que essa pessoa nem sequer é nada disso pelo que conheço (superficialmente dela). Projectei no escuro a minha avidez, vi num corpo o portador de um sonho. Insisto em associá-lo a uma mentira. Talvez por ser o sentimento mais poderoso que alguma vez senti por alguém, o meu subconsciente catalogou-a como símbolo do meu maior desejo: conexão. Temo que esta ilusão seja tudo aquilo a que posso almejar. E magoa relembrar tantos instantes exactos de paixão fantasma e solitária.

Pior: se estiver a falar de algo consumado a nível amoroso tenho que viajar no tempo até a um período em que era imaturo, cego interior, sem uma gota de auto-estima, a uma altura em que o meu carácter estava em formação embrionária. Só a partir dos 17 anos me passei a sentir em definitivo como "eu". Será neste enquadramento que se explica o facto de pensar nas hipóteses de relacionamento sempre que me sinto atraído por uma rapariga (ocorre mais quando não tenho mais nada com que me preocupar) ou de ficar deprimido quando provocam em mim tal reacção. Carência e julgar que nunca estive mesmo com alguém, já que quando estive nem sequer era eu... Desperdício. Mais uma vez, história da minha vida!

Estando neste ponto, frustrado, poderei sentir algo genuíno? Se, eventualmente, alguém que considerasse atraente nutrisse algo por mim... (realidade irreal, sou invisível...) Imagine-se que eu correspondia. Como poderia saber se sentia mesmo uma verdade ou se estava a reagir com base na falta de atenção que habita o meu ego? É que perdi a capacidade de iniciativa sentimental. Necessito de fortes sinais de zelo do interlocutor. Já não surge aquela paixão ilusória e arrasadora. As semanas, os segundos em que sentimentos dessa espécie se propagaram em mim são tão sublimes e incomparáveis... Já nem o devaneio ocorre!

4. Faculdade

Em alguns dos meus posts transparecerá um certo descontentamento com o ensino em relação à questão da avaliação e de ser tratado como uma fábrica de trabalhadores por alguns. Reconheço que a minha visão do que devia ser é utópica, eu agarro-me muito no sonho. Quer dizer, acho estúpido classificarem-se alunos, ainda para mais quando o que está em causa não é mais do que a capacidade de expressão escrita e oral, de memorização ou realização de trabalhos com pouca liberdade... Óbvio que compreendo os motivos, tem de haver organização, provas de que se adquiriu conhecimento, etc.

Só queria começar por aí para explicitar que, apesar disso, a faculdade é uma bênção. Escolhi o curso que pretendia e tem me agradado, foi a decisão certa. Só aponto dois inconvenientes: um por interesse pessoal que consiste na escassez de literatura e filosofia e outro que penso ser uma falha do curso. Creio que não há nos 3 anos qualquer cadeira musical baseada na música da segunda metade do século XX / princípios do século XXI que não seja a dita erudita. Penso que seria muito conveniente compreender as ondas musicais que mais estão no nosso quotidiano. O fenómeno do psicadelismo dos anos 60, o surgimento do hip hop na década de 70, o new wave / post-punk dos anos 80, etc., etc., etc.

De resto, tenho apreciado muito as cadeiras de cinema e música. A cadeira sobre novos média tem sido excelente (a minha preferida pelas implicações psicológicas/sociológicas no presente)... Até em teatro há temáticas interessantes e eu pouco interesse tenho na área. Uma das maiores qualidades do curso é mesmo a variedade.

Mais para a frente, gostarei ainda mais, acredito, pois agora adquire-se o conhecimento exterior para depois nós mesmos fazermos uso dele. Aguardo com expectativas a cadeira de crítica cinematográfica, por exemplo...

Noutra vertente, as aulas são fundamentais para disciplinar a mente. A organização de conhecimento está feita e a informação contextualizada, só tenho de a captar e interpretá-la para mim.

Indo em contradição com o que disse acima, é o preciso facto de existir avaliação que me faz aguentar o barco. Mesmo que não devesse ser assim, tendo notas razoáveis/boas sinto que estou a fazer algo certo na minha vida. É um placebo para o ego... Espero não fazer asneira neste 2º semestre. Os meus hábitos de estudo são horríveis e doentios. Pouco faço ao longo dos meses e depois mergulho na véspera...

5. Obstáculos Interiores

Para além do que escrevi antes, que aspectos explicam a minha alienação?

-A mistura de um complexo de superioridade com um complexo de inferioridade cria uma dissonância estranha. Sinto-me mais consciente e evoluído a nível mental do que a maior parte do pessoal da minha idade; sinto-me um idiota completo em termos de sociedade, de convenções, de burocracias. Tanto por ansiedade perante a novidade como por desprezo e discordância. Não suporto multidões. Tenho a sensação que a partir de certo número, um ser humano a mais significa um aumento proporcional da estupidez e perda completa de individualidade. De qualquer modo, o que há a retirar é que sou um inepto social.

-Sou obcecado por conferir eternidade a algo. Sei que estamos condenados a morrer, embora não pense que isso signifique por certo o fim de tudo (deambulo entre o deísmo - quando estou maravilhado com a beleza do mundo e o ateísmo agnóstico - quando estou em baixo). Na minha infância tive dificuldades em lidar com isso e de anos em anos tive crises existenciais, mas não passo o quotidiano perturbado com a efemeridade (só no sentido de pensar que tenho de agir agora, porque isto não dura para sempre). Sem dar por isso, na adolescência, redireccionei essa eternidade até aos relacionamentos, porque aí não há irreversibilidade. No ano de 2013, estando vivas, saudáveis e em liberdade só por escolha as pessoas colocam numa relação um ponto final ou reticências duradouras. Daí que essa decisão me entristeça, rejeito-a. Tratam-se os ditos "amigos" como objectos descartáveis, ferramentas para alcançar um fim pessoal e egoísta, seja material ou emocional...

-Tive várias experiências novas desde o 11º/12º, no entanto continuo a ficar enclausurado nas areias movediças do medo. Sou um "pussy", é uma palavra estúpida e adequada. Forço quando é um medo calculado. Quando se trata de um desconhecido integral (e pode tratar-se de algo simples), bloqueio, fico ansioso, autoconsciente até ao fundo e adio o confronto. Custa-me deslocar-me até algum lugar para tratar de burocracia e custa-me iniciar conversações com alguém que não falou comigo primeiro (não é vergonha, é uma espécie de regra mental de não querer perturbar, de não querer que me mandem para um certo sítio, de não querer ganhar um motivo para me massacrar - pois fui eu que iniciei tudo - caso venha a ter uma relação com essa pessoa e ela acabe, tal como todas as outras até hoje). Além disso, qualquer actividade para a qual não pense ter capacidade, conhecimento, qualidade resulta em fuga. Isso é sinónimo de me limitar à escrita e ao futebol. Só aí me sinto competente e só aí tenho alguma auto-estima ligada ao mundo exterior. Rejeito as minhas fraquezas com o uso do zero...

6. Escrita / Leitura

Aqui não há grandes novidades, mas visto que é o meu foco existencial neste momento... Continuo a ser atingido por ideias nas aulas, em casa, na rua. É uma sensação muito boa, das poucas que vai animando os meus dias.
Estou mais organizado do que no passado. Depois cometo o erro de me viciar na organização e procrastinar o uso das ideias... Este Verão será importante. Se mal o aproveitar vou pedir a alguém que me dê um enxerto de porrada.

Tenho lido bastante para os meus padrões habituais. As minhas poupanças vão tendo como destino a compra de livros. Tenho mais ou menos definido o que quero ler nos próximos anos. É excelente voltar o foco para uma outra prática artística para além de cinema, TV e música, visto que a literatura tem tudo que ver comigo, há universos inteiros que podem entrar de mim e isso é fundamental para melhorar o que eu quero criar (perceber tons, mecanismos, truques, erros, opções, etc). Não pretendo ficar-me pela leitura de ficção. Áreas como a psicologia, cinema ou música estão no topo dos gostos também... Pena que em termos de poesia esteja a ser complicado descobrir uma "vibe" ideal, uma estética que me penetre, para lá dos nomes mais célebres.

Do que li este ano tenho de destacar três obras:

-Looking For Alaska (John Green): Um hino à adolescência, às novas experiências, ao crescimento junto de outros, mas não uma abordagem superficial e lamechas como muitas são. Vários momentos de reflexão sobre a incerteza, a morte, a religião...

-Noites Brancas (Fiódor Dostoiévski): Obra de estética romântica sobre um sonhador que exaspera por amor na solidão de São Petersburgo. Adoro o modo como o cenário é tão psicológico, tão conectado aos sentimentos do protagonista. Ler este livro foi ler-me a mim no futuro e nas palavras de um génio, de um mestre. Grande expectativa para ler Crime e Castigo este Verão, consciente que será totalmente diferente de Noites Brancas, claro.

 -A Morte De Ivan Illitch (Lev Tolstoi): Uma morte progressiva na primeira pessoa, uma vida a prazo, a dor de saber que os outros, mesmo tendo compaixão, têm em si o desejo de nos ver partir pelo sofrimento e confronto com o fim que neles causamos. As consequências de uma existência centrada no materialismo e sem grandes paixões. Esta citação de Nabokov é perfeita: "Ivan viveu uma vida má e como uma vida má não é mais do que a morte da alma, Ivan viveu uma morte viva; e como depois da morte está a luz viva de Deus, Ivan morreu numa nova vida - a Vida com V maiúsculo." Negro ao ponto de deixar um nó na garganta...

É uma pena ter saltado a leitura na adolescência. Eu que na infância tive tanto contacto com livros, fui educado para ler... Há uma nostalgia gritante ao rever livros desses tempos, como se as ilustrações tivessem ficado fixas nas traseiras da memória todo este tempo.

7. Futebol / Benfica

A partir de Fevereiro/Março comecei a sentir uma saudade imensa do futebol de competição. Não era de esperar, andava até um pouco exausto. Sendo mais explícito, vontade de poder ter mais 4 bons anos (os restantes, sempre que fui de 1º ano de dada camada, são para esquecer), de sentir que podia contribuir tanto para um bem maior do que eu: uma equipa. Dizer que jogar futebol é das coisas mais importantes que fiz na minha vida é um dado óbvio. Pouco bate a simples sensação de me julgar capaz em campo ou do esforço transcendente em momentos de adversidade colectiva. Tudo perfeito quando as coisas eram assim e em 4 épocas foi assim muitas vezes. Quem me dera que não tivesse de terminar tão cedo... É secundário que tenha sido uma jornada em ioiô...

Estou-me a aperceber da relevância de ter uma actividade que passe pelo corpo, pelo exercício físico. Não jogar só salienta a minha difusão entre mente e corpo, retira valor e motivação face ao mundo exterior. Era algo que todas as semanas me oferecia um lugar para agir e objectivos palpáveis.

Mudei da infância até agora em termos de gosto por seguir o mundo do futebol (um aparte: é interessante que seja a única actividade em que me identifico com a cultura portuguesa). Sou honesto, hoje tenho pouco interesse em acompanhar qualquer equipa que não seja o Benfica (é um caso à parte; talvez o meu único interesse irracional). Fascina-me quase em exclusivo o mundo da arte. No que diz respeito ao acto de jogar, aí nada mudou. Sou uma criança feliz quando precisam de mim e quando acredito em mim. 

Neste encadeamento de nostalgia, espero que no Verão continue a contar com as noites no polidesportivo. É um hábito de há tantos períodos estivais. Não quero mesmo perdê-lo. Enfim, é o valor inefável dos grandes pequenos momentos...

Na senda de exercício físico, tenho corrido com alguma regularidade e nada, mas nada do que faço durante as semanas se compara à satisfação soberba que correr provoca em mim. Sentir vida, esforço, ar puro e o relaxamento posterior. É nesses instantes seguintes que a paz invade e tudo está bem, a beleza é tudo. É ainda um auxílio na regularização do horário de sono que eu tenho por hábito desregular e que, dá-me a entender, está associado a um estado de mau-humor com o mundo. O jejum de futebol também leva à falta de ritmo nas outras tarefas diárias. O preenchimento do horário semanal era um auxílio a uma maior rapidez de trabalho. Produzo mais sob pressão.

Umas palavras acerca da temporada do Benfica. Uma desilusão em última análise, mas penso que Jorge Jesus, por muitos defeitos que tenha, acabou por provar que tem vindo a disfarçar os problemas da estrutura ao longo destes anos. Inventou um onze e soluções para o banco depois da destruição do meio-campo em Agosto de 2012.

A qualificação para a final de uma competição europeia foi a realização de um sonho de criança. Há 10 anos não acreditaria se me dissessem que iria ocorrer tão cedo. Foi o momento mais emocionante da minha vida enquanto benfiquista. Uma pena a final perdida.

Não me vou debater muito quanto ao campeonato, só referir que o Benfica pode muito bem ter caído num estado de stress pós-traumático. Uma eventual saída de Jorge Jesus (não tenho opinião definida; só não continuará se não quiser) tem de ser colmatada com alguém de créditos firmados. É uma fase delicada, não podem haver retrocessos para os tempos de Quique, Fernando Santos ou Koeman. Treinadores portugueses que dão garantias? Mourinho e Villas-Boas. Alvos irrealistas. Terá de ser um nome com palmarés e devidamente acompanhado de adjuntos que o informem do futebol português.

E pronto, vençam a Taça de Portugal. Saberá a pouco, tendo o céu estado tão perto. Este twist ending está ser trágico de mais para não ser ficção. Pudesse eu desligar-me do Benfica. É impossível...


8. Planos / Futuro

Não queria que se resumisse a mais um afastamento do mundo exterior. O meu Verão vai ser isso pela enésima vez. Crescimento mental induzido pelo isolamento e pela experienciação de arte.

Defini uma lista (sou meio obcecado em numerizar, fazer rankings...) de filmes, documentários, séries que preciso de ver no sentido de explorar o subconsciente e a memoria/amnésia, sobretudo. Basta juntar a leitura, a escrita, o futebol e corridas. Nada mais. Tudo o que farei é a repetição do passado. Espero que a solitude sufoque a solidão. Certo é que sairei das férias demasiado como eu e mais estranho face ao mundo, o habitual.

Há 12 meses, o futuro era incerto. Atraía-me essa ideia de não fazer a mínima ideia do que iria suceder e a entrada no ensino superior era mais que um quarto escuro, era um armazém. Entretanto ligaram-se as luzes e percebi que estou confinado a um cubículo.

Engraçado que agora vou tomando consciência que desde criança me direccionei em linha quase recta para o nada. A maior parte das minhas memórias mais saudosas são digitais: envolvem televisão, videojogos filmes, música... Ou então apenas ambiências, tons sem vidas. Nada de mal com isso, não fossem as memórias com outras pessoas tão raras. Com uma ou outra excepção, fui sempre um grão de areia perdido. Não é de estranhar que enquanto criança brincasse sozinho e com a minha imaginação.

Começo a visualizar o futuro em visão de túnel e o que tenho no horizonte não é nada agradável. Consigo ver-me daqui a 10 anos (se estiver a respirar). Um tipo com algum conhecimento teórico, "book smart" e só, como sempre. No outro espectro, as pessoas com quem cresci a viajarem, a casarem-se, a terem filhos, coisas do género (não que eu tenha os dois últimos exemplos como grandes sonhos). Enquadrados no mundo, capazes de coisas como planeamento financeiro ou tratamento de funerais. Eu até em "funcionar" num emprego (caso consiga ter um) terei dificuldades.

Serei uma formiga esmagada. Vou ser os meus sonhos de adolescente, vou ser os meus 18 anos destruídos pelo tempo, por mim, pelas minhas fraquezas, por nunca ter retirado o melhor proveito do meu potencial, por me ter afastado de tudo e todos. Vou ser os lamentos num bar, mas não os vais ver. Estão dentro. Está sempre tudo dentro. Vivo duas dimensões inconciliáveis. Vou ser o casulo a reverter em larva e a refugiar-se no passado: o meu novo futuro. O não-presente repleto de apartamentos numa rua que se estende. Com cada edifício cada vez mais longe, na senda da amplitude crescente entre o nada que sou e os momentos em que pude ser tudo. Sim, vou ser o que quis ser. Sempre. Já pressinto as pernas sentadas no banque do parque,  à espera que morra a vida que resta. Encontraremo-nos por lá, onde a árvore conhece o prédio... Quando o insecto exturque as asas do ser aspirante a humano. Também vais ser comércio.

9. Tópico Número Nove

No tópico número nove vou focar-me no que o título do tópico indica e o que o título do tópico indica não é nada, portanto não me vou focar em nada. 

Só quero dizer que se o meu fatalismo é a solidão e a insignificância, que possa ao menos num futuro próximo envolver-me em alguma actividade estimulante. Isso tornava tudo mais aceitável, desde que seja algo em que o meu contributo faça alguma diferença.

É um alívio expulsar estes monstros de dentro de mim. Repito o que escrevi no Lado Distorcido há dois anos: é como preparar a cama para um longo e descansado período de sono. A internet é uma almofada reconfortante. Agora posso calar as letras modo desabafo durante semanas!

P.S. Para todos os efeitos é relevante apontar que este ano, apesar do odor a vácuo, consegue ser bem melhor do que o meu 10º ano - primeiros tempos de secundário. Lá está, pelo motivo de me compreender, gostar de mim, etc.