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quinta-feira, 13 de março de 2014

Empatia / Simpatia

Daqui. Um dos meus sites favoritos e este artigo é excelente...

"A verdade é, raramente pode uma resposta tornar algo melhor - o que torna algo melhor é conexão". Como concordo com isto... Fantástico quando conseguimos estar com alguém em silêncio, quando falamos sem ter de falar, quando em vez de julgarmos compreendemos e aceitamos... É como uma ponte entre consciências... E acho que poderia ser um fenómeno um pouco mais presente, se a maior parte das pessoas não preferissem conversas banais a conversas sobre ideias, pensamentos, sentimentos (ou então a explicação advém da tal deprimente construção social de que falar sobre essas coisas é uma demonstração de fraqueza). Na minha experiência, são, quase sempre, essas conversas que possibilitam a tal conexão no silêncio, porque partilhámo-nos com determinado ser humano de antemão.

O vídeo a seguir foca-se na diferença entre simpatia e empatia. Em relação a isso, só queria expressar que considero a simpatia sobrevalorizada. É, muitas vezes, superficial e enganadora. Quantas vezes não passa de uma atitude conforme as regras de etiqueta, de gentilezas, de tentar ocultar defeitos (que num mundo melhor seriam assumidos e exteriorizados) e de passar a ideia que está tudo perfeito... Também já me aconteceu aproximar-me de pessoas altamente simpáticas para vir a perceber que num registo mais íntimo estas são frias, indiferentes e sem qualquer preocupação em não magoar interlocutor x, sem empatia... Com pessoas não exageradamente simpáticas, este problema não se coloca, pois não permitem que se construam expectativas e por tenderem a ser mais honestas (parto da minha experiência).

Na simpatia há apenas um reconhecimento do estado da outra pessoa. Não há disponibilidade para encontrar dentro de nós a emoção, a dor, a alegria dela. Aí há empatia, é um pouco como identificarmo-nos com a personagem de um filme, por exemplo. Claro, a intenção de se ser simpático pode até ser boa (será assim na maior parte dos casos). Só que no fundo revela distanciamento e quando a emoção dessa outra pessoa é negativa, a tendência é apenas para a tentar negar e não para a compreender...

De destacar isto, por último: "A vulnerabilidade não é boa nem má. Não é uma emoção sombria, nem é sempre uma experiência positiva, luminosa. A vulnerabilidade é o núcleo de todas as emoções e sentimentos. Sentir é ser vulnerável. Acreditar que a vulnerabilidade é uma fraqueza é acreditar que sentir é uma fraqueza."


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Baile De Máscaras Atropelado


Baile De Máscaras Atropelado

Começo pelo fim. Se há certeza que os últimos meses instalaram em mim é que a tecnologia é um tema dilemático para quem não pretende existir na penumbra de um véu. Que fichas colocar em jogo? Por que movimento optar? Onde se inaugura o demasiado? Como reagir às necessidades ou pressões sociais? É possível simplificar a questão a um “sim ou não” quando o real e o digital mergulham na mesma água? A minha resposta é uma anarquia interna, mas abraço a busca de um trilho a seguir para um dia domar esse pathos secundário.

Pensando os objectos como portadores de uma natureza evocativa, diria que a procrastinação é a maior armadilha regular. Disfarça-se em generosidade. Tamanha informação é um convite ao oblívio do mundo físico, tendemos a esquecer o que, em primeiro lugar, nos levou a utilizar o dispositivo. Ao mesmo tempo, ele transforma-se nos nossos problemas, pesquisas e desvios. Os aparelhos induzem comportamentos e estes são fundamentais para que eles exerçam as suas funções. Definimo-nos mutuamente e indissociáveis numa relação simbiótica. Somos ambos o sujeito e o objecto. O excesso (impreciso) interrompe a voz da consciência e descorporiza o indivíduo num espaço-tempo congregante e automatizado. Com moderação, os utensílios são uma alavanca para a determinação da nossa própria identidade. Podem ser um espelho construtivo, propiciando uma apreensão das lacunas da nossa realidade.

Saber se recorremos à tecnologia porque estamos sós ou se a solidão advém do seu uso é uma pergunta primária sem réplica certa. Não obstante, resvalo para a primeira hipótese.

A vida citadina per se, por exemplo, é desde há muito considerada uma experiência crua e de distância emocional. A multidão é imensa e, no entanto, rodeados de possibilidades, muitos sentem-se formigas esmagadas. O meio digital permite inebriar o espírito desses demónios. É um lamento num bar, a garrafa que não largamos até bebermos o vazio. Partimo-la em estilhaços nas redes sociais online. Onde ninguém tem de nos ouvir, onde muitos o poderão fazer. É um diário sob a forma de palco subterrâneo e cativa-nos a eventualidade de uma audiência (tal expectativa origina um efeito placebo).

Mas se as pessoas se encontram alienadas não seria mais lógico procurarem contacto interpessoal físico? Sim e isso ocorre, o que se alcança é que não satisfaz. Quantos são aqueles com quem mantemos uma relação íntima, de partilha de anseios, sonhos ou medos? Uma boa parte retorquirá com uma mão fechada. Por norma, os diálogos do quotidiano assentam em conversa fiada e raras vezes essa fase de fingimento e de vivência de um contexto semelhante se direcciona para algo merecedor da palavra “humano”.

Cremos mais na tecnologia por experiências passadas de má memória, por motivos de personalidade ou por consciência. Sabemos que todos carregamos determinados conflitos nucleares, mas negamo-los porque reconhecemos a irrelevância que eles representam para o interlocutor e em razão de julgarmos que é incorrecto e egocêntrico importuná-lo com eles (como se não bastassem os contratempos desse outro). Cria-se também um obstáculo à afinidade, visto que há um estigma social que envolve temáticas menos usuais (por exemplo, evitar falar da morte, fechando investidas de um dos enunciadores com um redutor e inapropriado “que assunto tão mórbido e deprimente”).

É no decurso dessa escolha condicionada que as pessoas se tornam “solitárias em conjunto” e projectam na máquina as suas emoções. Vulnerável aos dispositivos, o ser humano edifica-se em avatares extasiantes. Somos uma playlist, um top de filmes preferidos, uma fotografia de perfil ou as palavras que divulgamos num blog. Ademais, nessa megalomania de conhecer tudo, de estar ligado a tudo, de seleccionar aqueles com quem queremos comunicar e de inventar identidades, eleva-se uma gratificante fantasia de controlo.

O oximoro é que a desejada conectividade em linha acarreta como pré-condição um sujeito enclausurado numa torre de marfim. O objecto é o único receptor de afecto, uma prótese em que se prolonga o corpo e a sua ausência uma temida e desorientadora dor do membro fantasma.

Depois, no fundo, mostramo-nos um Narciso frágil que fita o lago e desespera por nele constatar outros a observarem-no de volta. Nas palavras de Sherry Turkle: “I share, therefore I am”. Essa reinterpretação do cogito cartesiano ajuda a explicar uma noção de alteridade em que os demais são meras ferramentas ao nosso serviço; a expectativa é que validem um pensamento ou sentimento, sendo também eles um objecto que serve os nossos interesses. Nesse vício de dependência externa e de feedback instantâneo esquivamo-nos ao confronto com a realidade e transcender o vácuo interior rumo a um estado de solitude (catalisador de empatia) revela-se uma miragem.

Escondemos as vontades nas (in)acções. Porta trancada e janela aberta, cruzamento permanente entre o não ser (digital) e o ser (real). Somos salas de espera a aguardar por nós mesmos, por amizade e por amor de um outro a que não legitimamos vida absoluta. Contradição das contradições, revestimo-nos de uma bolha de média mentirosa, de confidências endereçadas à esperança que alguém entrelace os dedos nos nossos. Inseguros, frustrados e conformados; a inércia actua e o corpo recua. Somos um zero dançante ou um airbag constante.

Rebenta a bolha do limbo e somente na tragédia nos fixamos no lado físico e presencial da fronteira. A verdade é eterna e a distracção efémera, diz o acidente. Quando passámos uma existência a comportarmo-nos como o resultado de um…


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Aura Umbilical



No seu ensaio, The Work Of Art In The Age Of Mechanical Reproduction (1935), o filósofo alemão Walter Benjamin define aura como o capital simbólico da obra de arte. Formam-no as marcas de autenticidade e singularidade que advêm do rasto deixado pela sua origem e contexto histórico. O anúncio da perda desse capital simbólico é associado à emergência da reprodução mecânica/técnica e respectiva queda da reprodução manual. A primeira (por exemplo através da fotografia a partir do século XIX) destaca-se por ser mais veloz que a segunda (o bronze é uma das hipóteses), o que permite uma intensificação do processo. Com o cinema sonoro passa a ser possível fixar as imagens em simultâneo com as palavras do actor e aumenta o grau de presença.

O que Walter Benjamin argumenta é que “o aqui e agora do original encerra a sua autenticidade” e a isto está alheia a qualidade da reprodução da obra de arte. Por mais perfeita que seja, é desprovida de existência singular num só lugar, tempo e contexto. É no original (único) que está a vida, um percurso de alterações na estrutura física (quase inevitável pelo desgaste que a passagem do tempo significa) ou eventuais mudanças de proprietário.

A obra de arte parece, em certa medida, metaforizar a condição do ser humano – enclausurado no aqui e agora. Cabe à reprodução técnica divinizar o artefacto por intermédio da omnipotência que lhe imputa. Torna-se mais independente e livre a inserir-se em cenários e situações inviáveis ao original. No entanto, a mesma reprodução leva a obra de arte à queda do pedestal em que reinava como objecto sacralizado, ícone religioso. Nessa senda, ocorre uma massificação da arte e da cultura.

Encaminhando o texto para um pendor mais subjectivo, creio que é erróneo vincular o termo “massas” a um sentido pejorativo. A democratização e a acessibilidade generalizada do artefacto – enquanto representante da condição humana – propiciam um aumento de consciência à escala global. Os universos estéticos que em nós penetram são um método exímio de educação. A cultura e a arte são o pão e água da mente, um abissal contacto inter-humano que ascende a sobrevivência a vivência.

Ainda que a presença real perante o original seja de particular relevância quando lidamos com pintura, escultura e arquitectura (visto que o conteúdo único e central é, demarcadamente, o próprio material) ou teatro (a relação entre actor e público é uma premissa fundamental), a cópia tem o seu emprego, seja complemento ou substituto (um bem menor quando é impossível aceder à fonte).

Num outro espectro, não penso que o problema da reprodução esteja no desvincular do contexto histórico. Pelo contrário, por via dela, há uma libertação da obra, o que alarga a nossa área de interpretação. Algo que, em princípio, só será negativo para um historiador de arte… De qualquer modo, um artefacto, para os nossos sentidos, acarreta sempre um significado duplo: o da criação e o do período da reapreciação (relacionamos os dois de imediato e de forma inconsciente). A ideia da sua origem dependerá mais do nosso conhecimento histórico do que da sua experiência ao vivo.

A aura? Desvanece? Opino que é reprodutível, contudo uso o termo numa acepção diferente. Considero que o original concebe auras descendentes e que a proximidade maternal é determinada pela qualidade da cópia. Todavia, a semelhança não é uma necessidade para manter no artefacto um espírito. Em detrimento de um fac-símile, existe a chance de paródia ou de recombinação, por exemplo. Mais ou menos distante da sua genealogia, haverá uma aura envolvente. Mais ou menos evidente, nela pairará um traço umbilical - analógico com a lei de Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. 

A chave para o éter está na experiência individual, na exequibilidade de extrair da obra uma emoção estética. Um vai conhecê-la no quarto, outro numa viagem de automóvel, alguém num parque. Todos vão gerar um artefacto distinto, porém essa inevitabilidade é não só inerente a uma (inarredável) consciência exclusiva, mas também à ambiência do local em que se encontram ou inclusive ao período do dia. Inventamos miríades de contextos, exploramos diferentes ângulos mentais, trocamos e somamos ideias acerca de certa pintura.

Na sua faceta negativa, os museus encarceram a obra de arte num espaço, numa conjuntura, numa dada iluminação e em horários. Assim, até eles a retiram do seu âmbito de criação, fazem dela uma peça constituinte de um catálogo. São um vidro invisível de mediação.

No panorama da reprodução digital prevalecente na actualidade, o maior risco será a sobrecarga informativa e subsequente baixo limiar de atenção (passagem de objecto em objecto sem o devido devotamento). Contraponho com o jogo de escala praticável (podemos contemplar detalhes) e, acima de tudo, com a exposição contínua ao artefacto. Para mim, pelo menos, anos de relacionamento com um holograma superam um só e isolado momento presencial. Crescer com a obra, com a sua dimensão universal e multifacetada é conhecê-la melhor e, pelo seu eco, a nós próprios e ao mundo.

segunda-feira, 18 de março de 2013

O Som Como Retrovisor Mental E Emocional



Uma porta abre outras mil. O fonógrafo, instrumento introduzido em 1877 por Thomas Edison, veio permitir a gravação e reprodução de som, o que por sua vez viria a despoletar um caleidoscópio de modificações sociais. À semelhança de outros dispositivos de registo e inscrição automática seus contemporâneos, representou o encontro com uma estrada que lográmos abordar por estarem reunidos certos pré-requisitos de conhecimento. Nela a humanidade conduz com os faróis ligados perante um pano de fundo de nevoeiro e somente assim o horizonte, as possibilidades aumentam, instigadas pelo deslocamento na incerteza, na curiosidade e sede de progresso. Nesses parâmetros, podemos pensar a era digital, o “agora” como a simples consequência de uma viagem iniciada, uma nova via que construímos em movimento e para onde pudemos cortar.

Em termos de reacção inicial à invenção do fonógrafo (a uma voz desprovida de corpo), é de crer que tenha sido pautada pela surpresa, tendo em conta a relativa lentidão do século XIX, onde (deduzo) o desenvolvimento tecnológico seria considerado um acontecimento mais do que uma inevitabilidade trivial.

É possível que ninguém/poucos se tenha(m) apercebido do seu imenso potencial de versatilidade e dos modos em que poderia incidir na psique humana, aquando do seu surgimento. Enquanto mecanismo duplo (gravação e audição) alcançou uma dimensão de humanização e criou uma ideia personificada de interactividade. Viabilizámos a estranheza de ouvir a nossa voz fora de nós mesmos, conforme um emissor forasteiro. O registo sonoro desvinculou-se das noções de tempo e espaço e até a morte se tornou passível de transgressão. Etnograficamente, alguns costumes e idiossincrasias de povos isolados sobreviveram devido ao seu registo, havendo então um contributo não só para o multiculturalismo, mas também para mesclas, assimilações e conexão das diferenças e particularidades (salad bowl).

A utilização do fonógrafo, por ser um poderoso meio de comunicação, incluiu ainda fins políticos, publicitários, profissionais, educativos, informativos ou de entretenimento. Desempenhou o seu papel parcelar no erguer de uma sociedade de consumo e movida pelo pagamento a crédito. Pense-se inclusive na obsolescência do dispositivo, pois de forma constante surgiram outros, descendentes, em que a fidelidade do som era superior e a portabilidade acentuada.

A música foi alvo de uma autêntica revolução, ganhando tracção uma ideia de indústria. Tal como o fonógrafo se assumiu uma ferramenta de presença quotidiana, o mesmo se passou a verificar com essa prática artística. Deixou de se resumir a uma experiência in loco de salas de concerto ou cerimónias religiosas, democratizou-se o acesso. No conforto da habitação, no local de trabalho ou num meio de transporte, estar à disposição converte-se numa escolha. Já não era em exclusivo um hábito social, possibilita-se a audição solitária. Desvanece a ditadura corporal do aqui e agora.

Nesse contexto de ”escrita do som”, emerge um aspecto muito específico e relevante da música: o crescente carácter intimista. Imortal, transcendente ao momento e estando à disposição para reproduções repetidas, infiltra-se dentro de nós. Talvez por ser tão abstracta, tem a capacidade de nos afectar com intensidade, já que estimula a imaginação dos sentidos e a reconhecemos no inconsciente como criação humana, representante da nossa condição. Seguindo essa lógica, aquela canção algo adormecida (quanto mais estiver, maior será o efeito) que tantas vezes escutámos na infância, na adolescência ou num período concreto delas, ao ser reanimada na memória por nova audição, irá catalisar o contacto com filmes mentais de memórias autobiográficas e da ambiência envolvente. Por experiência própria, a hipótese que coloco é que apenas uma fragrância é comparável no que diz respeito a implicações nostálgicas com tamanho peso.

Quase todos estamos condenados a uma existência funcional, fatigante e de rotinas, das nove às cinco, dia após dia, ano após ano, vida após vida… Escasseia o tempo (e a energia) para processar os episódios. Perpetuada, a música oferece um contraponto: a constituição de bandas sonoras pessoais. Em reminiscência, associamos canções com seres humanos, lugares e sentimentos de outrora e fazemo-lo num grau expansivo. Distanciados e com este impulsionador analéptico, somos convidados a interpretações múltiplas e omnipotentes de ocorrências passadas, a compreender o porquê de as termos percepcionado de determinado ângulo em detrimento de um distinto. Do topo da montanha sofremos, num estado de calafrios, os terramotos existenciais numa magnitude mais elevada.

Se é verdade que o facto de sentirmos com violência vale intrinsecamente, também o é que a reprodutibilidade ínfima da música tem por encadeamento uma catarse de escala universal. Sendo seres de esconderijos internos e só partilhando os recônditos com uma exclusividade de indivíduos, a música, a expressão do outro é um telescópio para a sua essência e, em reflexo, para a do eu, para a da humanidade.

Qual o valor do (suposto) saber histórico (e qual a sua verosimilhança) se não for além de um mero conjunto de dados e fecharmos a razão à chave num edifício gélido (o mundo exterior da sociedade) ao qual não é permitido o ingresso do seu único descodificador, a emoção? Como equiparar os erros a um método de aprendizagem se cometemos de antemão e em insistência o equívoco primário de querer resumir o indivíduo à racionalidade? Não será, aliás, a memória emocional o máximo recurso incendiário de nos lembrarmos de não esquecer os lapsos?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Um Singular Autómato Colectivo


Um Singular Autómato Colectivo

Discorrer sobre a mediação digital será sempre reflectir sobre uma dualidade yin-yang. Creio que o lado sombrio predomina quando consideramos as relações humanas como mais que um meio para um fim ou uma mera ferramenta utilitária. Essa sombra alonga-se à medida que perdemos o controlo e distancia-nos de nós próprios.

Com a intensificação decursiva desde há vinte anos para cá, corremos o risco de nos metamorfosearmos no apêndice que transportamos, de adoptar o papel de objecto. O sujeito é o dispositivo que encarna a nossa ausência.

Nesse contexto há que ter em conta um conceito de literacia digital que peca por se limitar ao domínio da linguagem informática. O lapso reside no desvalorizar da consciência. Por conseguinte, usamos muitas vezes o universo virtual como um mecanismo de escapismo, de obstrução dos sentidos, visando desligar o interruptor crítico do espírito. Num mundo moderno acelerado pela tecnologia, a visão turva e a atitude de reflexo é fugir a um exacerbado temor da solidão. Assim, cada um ludibria a fachada do "eu" face a esse tormento. Na verdade, estamos somente a fomentar o seu âmago. Não só o medo é procrastinado, mas também uma conduta activa e de manejo das rédeas da vida perante questões maiores. Evitar o elefante no quarto é uma forma alternativa de carpe diem e evadimo-nos tanto diante do presente como do futuro.

Em oposição ao que apregoam, as redes sociais online, por exemplo, desconectam indivíduos. Plataformas como o Facebook fabricam uma determinada representação de uma pessoa e, como ente único, esta é coagida a adaptar-se. Contribuem também para uma progressiva banalização e deturpação do termo “amizade”, de tal modo que é precisamente o espaço cibernético quem mais se aproxima da sua acepção fidedigna: por lhe concedermos o título de prioridade, pela permanência ao longo do tempo e pela não dependência de um contexto semelhante para sobreviver (devido à sua ubiquidade). Se permitirmos que os média digitais regulem a nossa teia de contactos, se forem eles o souvenir da existência de pessoa x, o que seremos senão um espelho partido?

Daí irrompem duas alienações de aparência paradoxal: a ilusória das excepções que recusam a subjugação por teclados e uma outra, real, que afecta massivamente a sociedade e se disfarça pelo facto de ser partilhada por multidões. Na mesma senda de concebermos necessidades que não o são através da mecanização, é comum os primeiros acreditarem que a sua minoria é sinónimo de estarem errados e, então, resvalam num avassalador buraco negro. No fim, ninguém é ninguém e essa insanidade encara-se com normalidade.

As relações à distância não devem tomar o trono das presenciais. Tal será entrar numa espiral de erros comunicativos e cair no poço superficial da despersonalização. O tacto, os gestos, a permuta de palavras e a troca de olhares sem paredes são sustentáculos a que tendemos a renunciar no ponto final da infância. É da conectividade mental motivada pelo acto físico que se desenvolve a qualidade etérea das ligações interpessoais.

Claro, a era digital, inclusive no íntimo, não é um vilão absoluto. Somos nós a escrever o guião! Cabe à humanidade despertar, aprender a retorquir “não” à pressão social, resistir aos (enérgicos, porém breves) sintomas de privação e restringir o carácter anestesiante da tecnologia. Ela possui o potencial imenso de divulgar, integrar e até criar novas práticas artísticas. Pode ser arte! Inquietar e expandir horizontes! Originar introspecção e autoconhecimento! Um aperfeiçoamento individual como linha de partida para uma melhoria global cuja amplificação estará, em parte, a cargo dos novos média.

Lâmpada: é o pólo positivo do mal que leva à génese de uma antagonista ideia de bem. Se queremos voar mais alto, apenas temos de cavar mais fundo!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Manifesto Depurista

Manifesto Depurista
  
Uma noite de Dezembro em vésperas de um novo recomeço. Tão próximos e tão distantes de um final glorioso. Numa mão, uma sensação megalómana que nos dá asas para voar neste sonho. Na outra, uma bomba-relógio denominada senso comum que logo nos dispara para o chão. É como um círculo vicioso, porém, nunca desistimos de arder nesta vontade de mudança e, por isso, erguemo-nos de novo. Sentados no mesmo banco, somos duas cabeças viradas para uma ambição que colide no fatalismo da sociedade. Somos duas luzes à procura de claridade no silêncio frio e nocturno do parque.

Na nossa visita ao álcool, encontramos a face permanente do Homem: um ser, raras vezes humano, que opta pelo caminho mais fácil, aquele que lhe permite andar em círculos pela casa de partida. Dissolvido na mesma visão vazia e opaca, submete-se a pensamentos e sentimentos que não lhe pertencem e desaparece num entediante buraco negro colectivo. Devastados por esta angústia de viver num mundo de um só espelho, por sinal partido, prometemos a nós próprios lutar por algo mais. Insurgimo-nos, no aglomerado de letras transpostas neste papel, contra a comunhão de fanáticos que teima em sobreviver como um pássaro preso numa gaiola.

Gritamos, porque para além de uma singular fachada ignorante de estereótipos e de preconceitos existe um caleidoscópio de bastidores que nos oferece verdade. Seja doce ou seja amarga, é real. É o calor que necessitamos para a alma, o oxigénio do conhecimento interior que nos acerca do aperfeiçoamento espiritual e que nos afasta dos anseios de corrupção, falsidade e consumismo exacerbado. Combatemos, visto que só através desta fonte de introspecção se confere um propósito ao conhecimento exterior. Surge com a descoberta da nossa identidade e da capacidade para reflectir perante o que nos é impingido. Assim que humanos, deixamos de ser objecto de um só sujeito e passamos a ser sujeito de todos os objectos.

Não somos os peões de um governo de multidões que exclama o nosso delírio, mas profetas malogrados e atemporais que insistem em afirmar o depurar do seu ser. Desejamos ser a ponte entre a inconsciência e a consciência, os mensageiros das quimeras de todas as poucas lâmpadas geniais que habitaram este planeta. Reclamamos a adesão em massa à fuga das trevas e um novo fulgor para uma dimensão que temos o poder de criar. Queremos fazer deste ramo uma árvore, dessa árvore uma floresta e dessa floresta a liberdade resplandecente de cada folha.

1. Iludiremos a ignorância e o incompreensível deleite por tal maleita geracional, que tanto fustiga o Homem desde os primórdios e que o torna a ele próprio menos Homem.

2. Atiçaremos a consciencialização de uma boa análise racional e do uso da lógica como instrumentos de clarividência no processo de evolução.

3. Eximiremos da face da Terra todo e qualquer tipo de crença e preconceito fruto, não de pura convicção autónoma – aceitável no nosso juízo -, mas de tradições seculares.

4. Renunciaremos à mentira, à crueldade, à inveja, à soberba, à traição, ao escárnio, ao maldizer e a todo o tipo de luxos terrenos, do dinheiro ao poder.

5. Evocaremos as peripécias desta vida e a sua dualidade de emoções, tão profundamente repudiada, mas tão indispensável. Tal como o bem nada é sem o mal e o mal sem o bem, igualmente a felicidade nada é sem a dor, nem a dor sem a felicidade.

6. Promoveremos o debate e a troca de ideias e experiências de vida.

7. Exaltaremos a ambição e a aventura humanas na sua completa desmedida.

8. Louvaremos os tão mal amados momentos de retiro e solidão, únicos e preciosos como tempos de análise de vivências e sensações passadas e de aperfeiçoamento.

9. Ergueremos um ser envolto num casulo de espiritualidade, conhecedor do papel da meditação como meio de domar a mente e investir por mundos ocultos.

10. Incitaremos todo e qualquer tipo de expressão artística e recreativa incutida num projecto de auto-descobrimento: da escrita à pintura, da música à dança, da fotografia à representação.

11. Unificaremos o Homem com a Natureza através dos incríveis poderes da contemplação e da purificação espiritual.

12. Pelejaremos insistente e incansavelmente pelo amor, construído no idealismo e na correlação espiritual.

13. Consagraremos a liberdade e a independência humanas, nos limites em que se encontram definidas.

No dilúculo de um Mundo novo, o esplendor resplandecente e deslumbrante dos artifícios solares iluminará o mais inóspito esconderijo terrestre e trará consigo a boa nova de um puro e renascido ser, de génese e plenitude não mais dignas de anteriores definições. No carácter, bondade e modéstia, no espírito, agudez e sagacidade. Um céptico de origem, devoto contudo do convencimento pela inegável sensação, que combinará num só corpo o auge da liberdade e a derradeira dependência. Livre pois de materialismos, da erradicada superficialidade e dos movimentos mecânicos pela casa de partida, mas cegamente dependente de uma quête por si mesmo e pelo amor nos recantos do mundo. Outro ser por conseguinte, aqui sonho… um dia realidade.    
                                                                                                                                                                                                                                                   A Vera Norte e Rita Mello
                                                                                                                                                                                                                       

(Fran Silveira e João Fazendeiro)