quinta-feira, 19 de março de 2026

O Melhor Amigo

Era Verão e sentíamos os pêlos eriçarem-se sem motivo algum sob a luz pulsante. Finalmente, o OVNI que rondou a noite inteira aterrou no campo; a rampa abriu como um hálito ultravioleta da nave. 

Estranhos, felpudos bípedes saíram de lá e disseram que vinham em paz. Ficámos aliviados - até que todos os nossos cães se aproximaram deles para os lamber. Ganiram. Deram à cauda. Eles... eles riram-se (entre descuidos de uivos).

Quando os cães se voltaram para nós e começaram a rosnar-nos, soubemos: nunca tinham estado a falar para nós.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Minto De Sísifo

É preciso é
encarnar uma mosca
na parede do empregador
na rede do coordenador 
na sede do legislador
e imaginar como os três,
secularíssima trindade,
mandaram construir a geometria
de uma montanha contra a manha
e pelo bem-comum 
deles à porta fechada
enquanto lhes empurramos
a biologia fundida em geologia
só para depois descerem
no escorrega do parque 
de manobras de diversões.

É preciso é
imaginar os três
com outros três de uma
empresa, universidade, país
quaisquer a imaginarem
(massajados à mesa) 
problemas que não existem
para soluções que consistem
nos ombros deles. 

Não imaginar o mito, mas
a mentira que o sustenta do
sistema menos mau dos até hoje
atentados.
Tampouco paginar uma
narrativa em que acabo 
eu e não outro
massajado à mesa. 

É preciso imaginar 
aqueles que imaginam Sísifo feliz
felizes a convencerem-nos
disso e perguntar:
Porque não temos escolha?
(senão a de novas e simpáticas, grandes
pedras cujo peso agradecemos...)

É impreciso é
imaginar que temos de
mirar para o lado
pela vidraça
dum metro
a paisagem néon
só para suportar
o absurdo à frente.

Então, quando o bocejo
embacia a trégua vira 
náusea a vista para dentro
e aí talvez pudéssemos... 
britar a falta de propósito
em pequenas pedras 
que não precisassem de cimo
até restar a calçada que só 
pisasse as moscas
já sem termos de as encarnar.
Porque
É preciso agir,
infelizes logo revolta,
que podemos
viver e morrer na horizontal.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Abramacabra

Ele prometeu que mudaria, seria mais calmo.
Ela abateu outro hematoma, e rezou outro salmo.

Ele estapeou-a amanhã "porque o decote", 
Ela fechou a blusa e prometeu-lhe o dote.

Ele chegou a casa e pediu uma sanduíche.
Ela vira na internet como fazer pastiche.

Ele na banheira: "abre essas pernas, cabra."
Ela bem rameira sulfurizou-o em sabra...

Ele ia chapinhando em grumos, que classe!  
Ela esperou que o vinho, já leite secasse. 

Ele arrastado de ser o senhor juiz cutâneo 
Ela sentou-lhe aquele sorriso fixo de crânio

Ele desaparecido há seis meses na televisão
Ela toda nua ao lado, pondo-o a ver a razão...

"Ele? Jamais! Um homem tão bem inserido".
Ela terna: "Hoje estás tão pálido, querido".

Bela prepara a cena, liga o temporizador.
Corre pra tela sépia do grande equalizador:  

Eles os dois no sofá bordô com estofos de capitonê
Molduras de madeira entalhada sem ele perguntar porquê.

Ele nada, marfim vigiado por olhos de engalanada.
Ela tudo, serena, reclinada, cabeça inclinada!

Disposta em caracol, hematoma nenhum defeito  
Com um joelho ao peito, num ângulo de sol. 

(Ele nada.)

A outra perna macia sob o peso fácil do corpo oleado.
E entre eles este hiato pela crista do encosto coroado.

Nem reis, nem rainhas, logo alguém teve de antecipar
Um dístico de carne e osso até que o tédio os separe.

... ou ela vender-lhe o esqueleto para exemplo escolar.