quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Lanterna De Papel

Lanterna De Papel

Um dia morre o lento contar dos dias 
Tão rápido que é o ver passar dos anos,
Substituídos por uma nostalgia em pressa.
Pernas velozes que romantizam danos
Cujos de um rigor mortis eu fazia promessa.

O ar do costume torna-se estático demais para respirar
E os fósforos sem fôlego gastos demais para iluminar.
Permanece a luz ao fundo da noite, o passado ao cair da estrada,
Pois um lugar só dura o tempo que no vazio fazes procriar,
Até que a neve escale para cima da tinta e apague qualquer morada.

Juras, que o cenário muda e, com ele, a volúpia de conduzir para trás.
Devotado, crias, inconsciente, uma avenida de mosaicos de antologia.
Claquete, outra vez, paisagem diferente para servir um igual pathos.
Ah, minha válvula de escape de procrastinar o cumprir da cronologia!
Perco-me, eu, marasmo por não deglutir o estigma dos meus actos.
Sou um vaivém que hesita em vir e reverte a ordem da escadaria!

Na sobrelotada cidade do raciocínio, um puxar de cordas no hall de entrada.
Aí, dilema eterno: o vácuo de hoje versus o vácuo de ontem,
Porque o melhor simultâneo dos dois mundos é utopia nublada
E amar-te agora é odiar-te quando eras outro farol.
Então, (declamo que) arrisco, desistir de habitar esta terra de desperdício
E trepo heras até uma torre de marfim hóspede de um bifurcante Sol.
No cume, anseio, eu, arranha-céus que filtra estações e o errante solstício.

Um dia adiar o véu do que já foi é uma ampulheta de areia fixa
E sabes, que somente uma avalanche de desejo dinamita casas antigas
E que a paixão por Junho em Setembro é saída de emergência,
É uma Via Láctea que observas de telescópio estando parte dela em ti,
Um único planeta habitável, de nome Presente, só pedindo convivência.
Acorda alarme! Oscula os segundos no homónimo de estar aqui!

Um dia a distância não o é e sobes para lá de um edifício ambulante.
Tu, o teu próprio lar, nas tuas mãos mais que um abrir e fechar de portas.
És a vela fonte de vida e pronto-socorro do teu peito lanterna de papel!
O feixe luminoso que trava a força de atrito que fatalmente transportas.
Tu, câmara escura que aprisiona o retrovisor nas masmorras tétricas de um túnel,
Na tua batida, a harmonia de apagar incêndios, mantendo o arder da chama
E de travar inundações, garantindo o fluir do rio, tu, dínamo que gere o drama!
Descansa, conformismo, são paredes imaginárias que não destronam o teu anel...

Ouvi dizer, início do capítulo de uma geração e eu a brincar com rastos,
Um milhão de coisas e atributos para ser e, por penitência, tabula rasa!
Mas ficas, omnipotente ritual antagonista de escapismo a que dou claridade!
E ainda que pêndulo e contraditório, sei, as verdades que o instante traz na asa:
-Das mesmas perguntas, mesmas respostas, mesma identidade, mesma realidade;
-Um comboio levar-me-á ao local onde estou, se não alterar o meu curso primeiro;
-Em mim, uma síndrome de Peter Pan reside, um querer ter à inocência imortalidade;
-Em breve, ou o rapaz que abandona as origens ou o idoso que regressa, não inteiro...

“Um dia” é este e cinco dedos de doze meses o anúncio de um jogo irreversível.
Novos amigos, já velhos desconhecidos que permanecem em efeito phi!
Empatias a prazo que persistem no ruído do ruir dos antros da retina!
Fortalezas de outros reinos que fecham os portões do que com elas vivi!
E é o meu turno de escrever em giz preto num quadro negro tudo o que termina.
Escrever, só para acender em despedida o candeeiro de tudo o que jamais esqueci...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Escolhas, escolhas, escolhas...

Há uns tempos dei por mim a pensar que estamos condenados a fazer escolhas. Uma bênção para alguns, um autêntico pesadelo para outros (eu). Pensava deixar tudo nas mãos da sorte, num mero jogo de cara ou coroa. Entretanto apercebi-me que já estava a fazer uma escolha, não só ao entregar o futuro à sorte, mas também ao associar diferentes resultados às duas faces da moeda. Mesmo que aprofundasse o jogo, iniciando a estupidez por um outro que decidisse a associação dos resultados A ou B para cara ou coroa, teria de escolher. Entrava numa interminável espiral de decisões. E no fim, no princípio, no meio, escolhia. Escolhia sempre. Escolhia as escolhas. Escolhia as escolhas que levavam a outras escolhas. Então, descartei totalmente essa hipótese e DECIDI-ME por uma outra: ir pelo risco, não seguir atalhos, ir pelo caminho mais difícil. Não é isso que nos ensinam mil e um contos que nos lêem / lemos quando somos crianças?
 

sábado, 9 de junho de 2012

Adeus, Tempos De Escola



Que semana mais estranha, em particular o último dia... É tão difícil expressar a balbúrdia de emoções que anda a deambular dentro de mim. Custa a acreditar que 13 anos de escola já são somente passado, mais ainda como voaram os últimos três e o que implicaram. Estou incrivelmente nostálgico, avassaladoramente vulnerável a nível emocional. Apetece-me chorar um oceano (de agradecimento, não de tristeza) e limitar-me a sentir este estado que nem compreendo, sem ter que pensar, como uma simples criança. Nada é mais belo que sentir, só sentir, ser o alvo mais fácil e ter o caos do universo no coração.


Engraçado como tudo começa num infinito de possibilidades e termina num capítulo fechado e irreversível. Os sonhos morrem, são adiados ou substituídos. Fica a saudade de os ter, a memória de tanto os querer... Mas tudo fica bem quando rolam os créditos finais. Acabamos por aceitar o que foi e esquecer o que nunca foi. Apenas a intermitência mental da realidade "se" causa alguma dor... 


Há três anos, estava no fundo, num estado miserável, perdido no tempo, no espaço e nos constantes sismos do meu ego de cristal. Viciado num hábito de auto-destruição, num estado inconsciente de convidar a depressão. O percurso foi sinuoso, com muitos passos em falso. Agora, estou melhor que nunca. Tudo feito e dito e concretizei aquilo que para mim é o propósito global do secundário: descobri-me! É apropriado o facto de só depois de chegar a essa meta, no 3º período do 12º ano, perceber que era esse o derradeiro sentido e que muito do resto era acessório... Hoje, sei quem sou, sei o que pretendo e o que não pretendo. Finalmente, sou "EU" e no futuro serei bem mais, cada vez melhor, acredito. Dos 16 aos 18, a minha personagem teve um desenvolvimento incrível. Nos dias que correm, encaixo nela e é simples interpretar a sua complexidade.


Em retrospectiva, estou grato acima de tudo. Grato pelo que vivi, com quem vivi, pelos momentos sérios, pelos momento estúpidos, pelos amigos que fiz (escassos, mas amigos na verdadeira acepção do termo), pelos meros conhecidos (que persistindo a lógica do meu passado, nada serão no meu futuro - salvo algumas excepções), pelos professores marcantes... Não consigo sequer dar relevância ao negativo. Felizmente, esmorece na força envolvente do positivo.


O que detesto é ter de dizer adeus. Não suporto despedidas e o seu carácter repentino! Gostava de poder seguir em frente sem deixar nada, ninguém para trás. Sim, carregamos as recordações, mas elas têm sempre um sabor doce amargo, uma eterna dualidade: a felicidade de as ter vivido num gládio incessante com a melancolia de não as poder viver outra vez. A saudade é o sentimento que coroa a palavra "frustração". Não há nada pior que perder pessoas importantes para qualquer uma das três grandes distâncias do cosmos: temporal, espacial e dimensional.


E no fim, o cliché é sempre o mesmo, é sempre o único que está condenado a fazer sentido: "A vida continua..." E a saudade também, corrijo eu... Mais ainda quando a nostalgia lhe concede o seu poder ilusório. Aí, vem a saudade do que nunca vivemos, das pessoas que nunca conhecemos, dos sentimentos que nunca sentimos...


domingo, 20 de maio de 2012

UDB: 2005-2012


E acabou. Desta vez, não foi só mais uma época... Todo o meu percurso nas camadas jovens, sete anos na UDB (o que corresponde a mais de um terço da minha vida, coisa pouca) passam a conjugar-se no passado, começam a encher-se de pó e a transformar-se em nostalgia e recordações em forma de fragmentos.

Num plano geral, é mais que óbvio dizer que foi uma jornada incrível. Jogar futebol é a minha grande paixão de infância e foi neste clube que tive oportunidade de o fazer um pouco mais a sério. Ter objectivos tangíveis durantes semanas a fio e contribuir para algo maior do que eu (um colectivo)... Dos 12 aos 18, de criança quase adolescente a adolescente quase adulto... Tantas voltas à volta da minha existência, tantas mudanças e o futebol, a UDB como constante! Fez sempre parte! Desde o típico (se bem que, no meu caso, frágil e efémero) sonho de mais um miúdo que ambiciona fazer disso vida, até hoje em que o futebol é, talvez, acima de tudo uma tentativa de agarrar a infância que resta em mim. Quando me sinto bem em campo, consigo mergulhar na pouca água que ainda faz esse rio fluir.

Só tenho pena de não ter conquistado algo relevante... Principalmente, esta temporada. Estava mesmo empenhado em fechar com chave de ouro. Ainda assim, foi uma época positiva. A nível individual, também correu bem. Nunca tinha sido tão regular em termos de boas exibições. A grande mágoa é ter falhado no jogo mais importante... De qualquer modo, adorei a ambiência em redor de 2011/2012. Foram, destas sete temporadas, os meses em que mais gozo me deu treinar e jogar. Passaram a voar...

Em relação ao que aí vem, não sei muito... Sei que apenas voltarei a comprometer-me com um clube se e quando tiver oportunidade de ser primeira opção, bastando para isso treinar e aplicar-me. Não vou ser hipócrita... Só me interessa e só tenho motivação para estar onde faço falta. O contrário implica não me sentir bem. Como será dificílimo conseguir o que pretendo, pelo menos num futuro próximo, é provável que desapareça do mapa... A transição para o futebol sénior é frustrante.

O dia de ontem é um daqueles dias cujo significado só vou realmente perceber à medida que o tempo dele se afasta. É, por certo, bem maior do que aquilo que as suas 24 horas de duração indicam. Apesar de estar empolgado em relação à entrada no ensino superior, à introdução a um mundo mais amplo, diverso (e menos superficial, espero), 2012 é um ano assustador. É estranho e perturbador que tantos anos sejam mortos num único, por um único... Daqui a três semanas, são 13 reduzidos a cinzas...

Para todos os efeitos, porque fui e sou obcecado por estatística, aqui fica (guardado para lá do meu cérebro) o meu registo ioiô de golos marcados (partidas oficiais apenas, claro). Sendo jogador de posições avançadas e um ser humano altamente egocêntrico, constituiu sempre um modo de objectivar/quantificar o meu rendimento. Claro que é inflaccionado por golos a equipas fraquíssimas, mas felizmente apareci muitas vezes também em jogos grandes... A minha alternância de ano bom para ano mau é que, de facto, foi algo estranho...

2º ano de Infantil - 2005/2006: 22 golos
1º ano de Iniciado - 2006/2007: 12 golos
2º ano de Iniciado - 2007/2008: 27 golos
1º ano de Juvenil - 2008/2009: 7 golos
2º ano de Juvenil - 2009/2010: 28 golos
1º ano de Junior - 2010/2011: 6 golos
2º ano de Junior - 2011/2012: 20 golos
Total: 122 golos (o número de jogos deve ter rondado os 175). 

domingo, 6 de maio de 2012

Palavra Puxa Silêncio

Palavra Puxa Silêncio
 
Novamente uma outra vez e repete-se o costume.
Esgoto-me em mais mil linhas de conversa fiada
Em enxames de tépidas borboletas sociais tecidas,
Intoxicando frases gastas através de perfume,
Fingindo carácter na mais previsível charada,
Calando vozes de resistência com pesticidas.

São tantas as multidões em que me pontuo com ausência,
Em que me fecho à mesma chave que de imediato engulo
Enquanto observo o instinto animal carente de complacência
E analiso de sílaba em sílaba insectos que sem asas voam,
Que numa fé cega e surda pregam o fanatismo do seu casulo,
Ocultando numa recusa muda a frustração com que me magoam.

Bem, lamento privar-me dessa procissão de sucção de almas,
Por julgar o espelho e concluir sinfonias de pessoas de plástico
(Para afastar a infestação de ideias clonadas que viram armas),
Nele procurando a assimetria dos poucos timbres de discórdia,
Lavando o meu cérebro de lobotomias num desdém sarcástico,
À medida que deambulo nas bocas sem saída que rugem concórdia.

Déjà vu e segundos de palavras puxam eternidades de silêncio.
Porque escapo a teias de aranha que de veneno são prenúncio
E ao custo orgulhoso do falar barato que se afunda no cimo do copo,
Perante estranhos em que o ruído do álcool me deturpa misantropo.

Personalidades indissolúveis: água e óleo, eu e os outros.
Uma incessante quebra de corrente que pauta a minha sina,
Génese de uma alienação auto-infligida predestinada a ser rotina,
Ciclo interminável que virgulo em reticências num ombro amigo.
Fui, sou e serei: férias de um ocaso que cara a cara aceita abrigo.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Anos De Chocolate

Anos De Chocolate

Tempos da linha de partida do horizonte,
Candura dos aniversários de uma só letra.
Recordam-me a certeza de ter tudo defronte
E contagiam-me a beleza de aí ler incerteza.

Foi como um Éden sem Adão e Eva
Mas pequei em provar algo para além de ti
Porque o que o fruto de crescer traz, cedo leva
E essa curiosidade é hoje uma árvore sem raiz
Num jardim em que só floresce saudade do que perdi.
Maldita sejas, queda do paraíso que nem deixou cicatriz!

Oh, única poesia que jamais será poema!
Diário apaixonado em que tropeço para cair!
Coisas simples como tu que só posso sentir!
Inconsciência permitida e sem qualquer dilema!
Inocência inefável que sempre se limita a fluir!
Nuvem pintada de azul que me tenta invadir!
Textura empírica de Natal que laureio lema!

Convidas-me a abraçar o teu espectro na mente,
A captar a nostalgia fresca da qual te alimentas,
Na idade da razão embrionária e efervescente,
Talvez tentando sepultar-me labirintos em frente,
Ocultando a essência adversa à ciência que acalentas,
Só para estares longe, numa desejada solitude ausente.

Oh, altura em que o mundo era todo mais alto!
Adrenalina gritante de saltar para o sobressalto!
Chafariz de sorrisos preciosos que ninguém explica!
Ponto de encontro com o máximo sincero existir!
Energia incessante que matéria negra clarifica!
Perguntas triviais que se respondem com o agir!
Hipóteses de escolha que não têm de se decidir!

Agora percebo a parábola por detrás de cada fábula
E que o "era uma vez" é uma estrada que passa e nem vês!
A infância é assim, uma passadeira sem bilhete de despedida!
É a única distância que torna um laço mais apertado!
São milhões de futuros dispersos no trânsito do passado
E herdas o rumo que nunca soubeste ser para toda a vida!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Última Noite Na Ponte Dos Sonhos

Última Noite Na Ponte Dos Sonhos
 
Ontem, lamentos de bar sem ver a luz do norte
Âncoras presas do mar ao sabor do contravento
Vontades atlantes obcecadas no escuro da morte
Dúbios mártires ondulados por esse não-argumento.

Hoje à noite, segurando o instante no momento
Silhuetas transparentes para o poder ver de dentro
Danças circulares vestidas de mera estética
Vil arte mascarada desprovida de ética.

Só por umas horas, tão baile do desencanto
Cisnes brancos e pretos num disfarce cinzento
Lágrimas maquilhadas e corações de cimento
Pálpebras camufladas no viver do enquanto.

Só por uns segundos, órfãos de um passado
Reféns de um presente de sentimento encenado
Arquitecturas perfeitas em teatros de cortesia
Adolescências desfeitas em salões sem fantasia.

Amanhã, somente miragens da ponte de um sonho
Cerimónias de destruição do que nunca existiu
Nostalgia imaginada que afogada decomponho
Para sempre, um lago por baixo do que já (se) partiu...

quinta-feira, 8 de março de 2012

Manifesto Depurista

Manifesto Depurista
  
Uma noite de Dezembro em vésperas de um novo recomeço. Tão próximos e tão distantes de um final glorioso. Numa mão, uma sensação megalómana que nos dá asas para voar neste sonho. Na outra, uma bomba-relógio denominada senso comum que logo nos dispara para o chão. É como um círculo vicioso, porém, nunca desistimos de arder nesta vontade de mudança e, por isso, erguemo-nos de novo. Sentados no mesmo banco, somos duas cabeças viradas para uma ambição que colide no fatalismo da sociedade. Somos duas luzes à procura de claridade no silêncio frio e nocturno do parque.

Na nossa visita ao álcool, encontramos a face permanente do Homem: um ser, raras vezes humano, que opta pelo caminho mais fácil, aquele que lhe permite andar em círculos pela casa de partida. Dissolvido na mesma visão vazia e opaca, submete-se a pensamentos e sentimentos que não lhe pertencem e desaparece num entediante buraco negro colectivo. Devastados por esta angústia de viver num mundo de um só espelho, por sinal partido, prometemos a nós próprios lutar por algo mais. Insurgimo-nos, no aglomerado de letras transpostas neste papel, contra a comunhão de fanáticos que teima em sobreviver como um pássaro preso numa gaiola.

Gritamos, porque para além de uma singular fachada ignorante de estereótipos e de preconceitos existe um caleidoscópio de bastidores que nos oferece verdade. Seja doce ou seja amarga, é real. É o calor que necessitamos para a alma, o oxigénio do conhecimento interior que nos acerca do aperfeiçoamento espiritual e que nos afasta dos anseios de corrupção, falsidade e consumismo exacerbado. Combatemos, visto que só através desta fonte de introspecção se confere um propósito ao conhecimento exterior. Surge com a descoberta da nossa identidade e da capacidade para reflectir perante o que nos é impingido. Assim que humanos, deixamos de ser objecto de um só sujeito e passamos a ser sujeito de todos os objectos.

Não somos os peões de um governo de multidões que exclama o nosso delírio, mas profetas malogrados e atemporais que insistem em afirmar o depurar do seu ser. Desejamos ser a ponte entre a inconsciência e a consciência, os mensageiros das quimeras de todas as poucas lâmpadas geniais que habitaram este planeta. Reclamamos a adesão em massa à fuga das trevas e um novo fulgor para uma dimensão que temos o poder de criar. Queremos fazer deste ramo uma árvore, dessa árvore uma floresta e dessa floresta a liberdade resplandecente de cada folha.

1. Iludiremos a ignorância e o incompreensível deleite por tal maleita geracional, que tanto fustiga o Homem desde os primórdios e que o torna a ele próprio menos Homem.

2. Atiçaremos a consciencialização de uma boa análise racional e do uso da lógica como instrumentos de clarividência no processo de evolução.

3. Eximiremos da face da Terra todo e qualquer tipo de crença e preconceito fruto, não de pura convicção autónoma – aceitável no nosso juízo -, mas de tradições seculares.

4. Renunciaremos à mentira, à crueldade, à inveja, à soberba, à traição, ao escárnio, ao maldizer e a todo o tipo de luxos terrenos, do dinheiro ao poder.

5. Evocaremos as peripécias desta vida e a sua dualidade de emoções, tão profundamente repudiada, mas tão indispensável. Tal como o bem nada é sem o mal e o mal sem o bem, igualmente a felicidade nada é sem a dor, nem a dor sem a felicidade.

6. Promoveremos o debate e a troca de ideias e experiências de vida.

7. Exaltaremos a ambição e a aventura humanas na sua completa desmedida.

8. Louvaremos os tão mal amados momentos de retiro e solidão, únicos e preciosos como tempos de análise de vivências e sensações passadas e de aperfeiçoamento.

9. Ergueremos um ser envolto num casulo de espiritualidade, conhecedor do papel da meditação como meio de domar a mente e investir por mundos ocultos.

10. Incitaremos todo e qualquer tipo de expressão artística e recreativa incutida num projecto de auto-descobrimento: da escrita à pintura, da música à dança, da fotografia à representação.

11. Unificaremos o Homem com a Natureza através dos incríveis poderes da contemplação e da purificação espiritual.

12. Pelejaremos insistente e incansavelmente pelo amor, construído no idealismo e na correlação espiritual.

13. Consagraremos a liberdade e a independência humanas, nos limites em que se encontram definidas.

No dilúculo de um Mundo novo, o esplendor resplandecente e deslumbrante dos artifícios solares iluminará o mais inóspito esconderijo terrestre e trará consigo a boa nova de um puro e renascido ser, de génese e plenitude não mais dignas de anteriores definições. No carácter, bondade e modéstia, no espírito, agudez e sagacidade. Um céptico de origem, devoto contudo do convencimento pela inegável sensação, que combinará num só corpo o auge da liberdade e a derradeira dependência. Livre pois de materialismos, da erradicada superficialidade e dos movimentos mecânicos pela casa de partida, mas cegamente dependente de uma quête por si mesmo e pelo amor nos recantos do mundo. Outro ser por conseguinte, aqui sonho… um dia realidade.    
                                                                                                                                                                                                                                                   A Vera Norte e Rita Mello
                                                                                                                                                                                                                       

(Fran Silveira e João Fazendeiro)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Reacção À Química

Reacção À Química

Sol nos olhos e a ironia de te encontrar onde me perdi
Eu, este banco e a incandescência do lugar onde te conheci.
Venero o dos teus longos ventosos cabelos loiros império
E a suavidade com que removes da face todo o mistério.

Aurora nos sentidos e sonho que sonho contigo
Eu, estas feromonas e a mais pura alegria de estar viva.
Admiro a tua plataforma sentimental de assaltar o perigo
E o gelo derretido em que combustas o frio da minha saliva.

Sol nos olhos e ela é o refrão com que beijo os meus versos,
O fim radiante que justifica a distante órbita dos meus meios.
Achamo-nos na ponte da canção em que dançamos imersos
E revelamo-nos turistas gravitantes no som de magnificentes anseios.
                                     
Aurora nos sentidos e ele é a melodia supersónica a ranger nos meus ossos,
A estrela do caos que ilumina a urgência do meu "agora" inconstante.
Conversamos de dentro para fora os segredos oceânicos que já são nossos
E giramos por turnos o suplicado furacão ao qual nos ajoelhamos diante.

Sol nos olhos e é meia-noite nos corredores dos subúrbios.
Aurora nos sentidos e na sombra da lua um eclipse eclode.
És uma borboleta coalescente a chorar-me nas veias chuvas de distúrbios.
És um eco da saudade a silenciar o adeus da única alma que ter me pode.

Sol nos sentidos, Aurora nos olhos e chegamos a vias de facto.
Entrelaçamos dedos existencialistas no combate do nosso tacto,
Formamos exércitos à volta de um romance que tomamos como intacto 
E matamos na mentira do último acto um amor na verdade putrefacto.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Enfado-me Deste Fado / Epopeia Do Fracasso

Enfado-me Deste Fado / Epopeia Do Fracasso
 
Estar cansado, estar enfadado...
Desço as escadas com a sina deste fado.
Pouco é pior que o meu triste fiel enleio,
Muito dado com o meu eclipsado desenfreio,
Quiçá dormente no pânico do Chiado.

Por cá, arrasto-me nas teias do tédio
Tal como Sísifo em correntes irrevogáveis.
Subo o elevador para a dupla fachada de um prédio,
Caio para debaixo do chão de joelhos inconsoláveis.

Acordo com náuseas que do isolamento respirei,
Entro no nojo da reiteração de um outro mesmo dia
E pergunto-me a multiplicidade mendiga de mediania
Ou quantas salas de aula análogas contei
E quantas luas de epifania ávida aí delirei.

Hoje são infinitas as folhas de caderno rasgadas
Como o são as palavras dos só meus papéis com asas
E as distantes quimeras que no "serei" deixo legadas,
Em que escrevo e vomito ares de repulsa à mediocridade,
Farto da homogeneidade com que me deparo nesta cidade,
Assolado pela blasfémia unida de afastar um quarto de identidade.

Dos seis e dezasseis da fragilidade emocional
Aos dezoito da consciência acidental,
Falham-me ainda os grandes pequenos horrores
(Essas balas rosas num sobejo que ainda duvida).
De mim se alimentam, cínicos, constantes inibidores
Tal como a morte a foder com a vida,
Uma morgue a ascender numa ferida.

Do tão antecipado primeiro dia de escola
Ao tão desolador último funeral nas suas grades,
Dentro do crime crónico de exagerar a própria dor,
Louvo a imensa ignorância e os sonhos de bola,
Lamento os apagados candeeiros de intimidades.

Não fosse a porta de saída a mesma pela qual entrei...
Tivessem as janelas a fuga de inércia que desesperei...
Existisse uma dimensão em que com o "se" dialoguei...