sábado, 23 de novembro de 2013

(En)Canto Do Cisne Laranja


(En)Canto Do Cisne Laranja

Saída à francesa da dor doce de crescer
Tal como a vivi numa febre contida,
Um preto e branco a que falhei o exterior.
Deixa a Cinderela chegar a este bairro nenhum
E o gume que não amei nega-me em retrovisor.

Sou uma miúda trágica entre plátanos suburbanos
Com olhos a cortar cebola no arrebol secundário.
Algo digno, tudo o é na lava nostálgica dos danos.
Quantos que não conheci, tanto que não senti
No cenário emocional de beber ilusão de onde parti.

Melodrama, ou a melodia que invento na trama
De tempos de sonhos cujo mero sonhar era revigorar.
Já sete palmos de terra sobre sacos de plástico no ar,
Quando todos um procedural e daí cancela na chama.
Anomia, onde vou? Ao ser de ninguém a razão de parar...

Mas vem-me Cinderela e sou porcelana sentimental.
Finco pé no corredor a mitigar o carro desvanecente
Com os sentidos no grande céu tangerina em bandeja
Quando o adeus é uma claque a servir serenamente
O infinito refugiado na despedida aberta que me beija.
 
Quero dançar com os subúrbios neste asfalto que transpira.
Sem memória ou expectativa à baila no instante defronte. 
Posso ser um veado em slow diante de faróis no horizonte,
Posso morrer um vestido vermelho na estrada que expira
Angústia minha à boleia bela de sorrir o frágil estendido.

Faz-me tu Cinderela, numa assim chamada adolescência.  
Sou tão princesa na rua ruiva de regressar quimera a casa
Da escola ao fim da tarde na luz melancólica em cedência.
Um décimo de segundo, a vida do eu no estado que estou,
Tristeza eufórica na empatia tardia de não ter tédio algum.

Rituais de passagem, por que nunca de paragem?
Pudesse ficar envolto nos braços do momento,
Enredar em culs-de-sac seres sempre em viagem,
Não voltar a ser abóbora num fundo cinzento.

Louco mover, se ao deixar ir sou vazio por inteiro.
Falta-me tanto, aprender a permanecer passageiro
Num mundo que se recusa a ficar enquanto é eterno,
Num modo motel de estilhaçar o corpo moderno.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

14



14

Braços-baloiço numa segunda-feira sépia
Em mãos-melisma no São de Novembro.
Assim começa, o sem fôlego de tanto o ter
Por ti, sabor de nada saber, todo o membro  
Ao arrepio no paraíso de querer e desconhecer.

Sala de sempre à socapa e beijo-tiro no escuro.
Em nome do tacto, o meu pescoço a fotografar
Os calafrios de um intervalo desde logo futuro.
Podes durar um búzio, blindada imagem infinita de arfar…
Aproximações como um grandeur metafísico a cada muro.

O teu-meu elástico rosa e o sabor de a tudo saber
Durante conversas de quarto num romance neo-epistolar;
As polaróides fragrantes em folhas de diário sem caducar
No Outono quase estático de ao teu tronco ascender.

Memória rainha na câmara lenta de Dezembro poente,
Aquele parque ao crepúsculo como iluminada balada
No qual me pulsas a gravidade para o chão crescente
Num uno de dígitos em que nascemos a era dourada.  

A tua persistência à minha resistência, comissura
Onde os avanços recuam a línguas estrangeiras.
Não perguntes, não digas, a defesa à mistura,
O meu senso incomum de socializar barreiras.
Mas até aí, souvenir de fundo ao fitar pela costura…

Para lá de ficar a pedra que (as fragilidades) me atiraram,
Mais que segundas chances e remorsos exagerados
Permanece o ar rarefeito e a quintessencial inquietude;
Mais que aulas de anatomia e aniversários decorados
Desaparece o rancor dramático e a demencial atitude.

Se a recordação é esse ser que nos vive em escalas
Posso alegar-lhe o discurso apologético do teu bem,
Fazer de um gramofone o aeroporto para falsas falas,
Um clássico apropriado para sobreviver ao meu desdém
A gratidão distante de te perenizar uma passagem doce:
“Querido motivo maior, vamos sempre ter os catorze.”

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Quimono Circunflexo


Quimono Circunflexo

Podia ver-te na roupa de um álbum preferido,
A estética Inventada antes de te conhecer.
Eras nua e cabelo negro por brotar corrido.
Metade minha, a tua silhueta à flor da porta,
Em vão, quando nasces secundária no eu te querer.
És oriente corpóreo onde o real nem te nota.

Chapéus fora pela rapariga que esperava
Ela esperava por eles, ela esperava por nós.
Por mim! Em devaneios meus abancados de voz.
Eram chances e innuendos em tudo o que não falava.

“Não ter de lutar por uma força maior
Porquanto ela mesmo lutará por ti.”
Disso lema, e fazer de invectiva o fluxo da cena
No enquanto insustentável de acentuar o pormenor
Conjugo leveza, e acontece se valer a pena.

Um brinde à rapariga que desesperava
Eu desesperava por eles, eu desesperava por mim.
Por ela! Num serão adolescente sem tacto no fim.
Eras multidão a solo que no escuro ateava.

Ao sopro e viciado na emoção mais rente,
Outra pluma lançada num sempiterno retorno.
Sakuras circunstanciais e livre-arbítrio embotado,
Todas enlevos efémeros num homem moderno.
És a doença evidente na absência que curas.

Uma vénia à rapariga que convidava
Ela convidava-os a eles, eu convidava-me a mim.
Por vida! Num torpor conivente que assentia com sim.
Era o anuário de liceu que o auge passional cessava.

Vertigens cruzadas, e "bom dia" em vez de tanto
Por extrair das pernas em escrutínio sentadas.
Eles eram o eco constante a subtrair-me do pranto,
“Nós” era adorno em que te perseguia o semblante.
Fosse tu naqueles fúteis sussurros, sibilar-me-ia:

"Apupos para o rapaz que expectava
Ele expectava por si na expectativa do mundo.
Por medo! Só num banco com o ego no fundo.
Era um estranho com nome que nem atentava:"

"O que é o idealismo senão a pena que perpetuo,
A falta de amor-próprio projectada no próximo...
Objecto criado de uma existência a que excluo
A liberdade de não me ser um peso sinónimo?"

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Update Pessoal

É altura de evacuar outra vez. Ainda que não precise de me dissecar como fiz em Maio (até porque o relatado no post continua actual), tenho de aceder aos pedidos da minha mente. De x em x tempo, o ego sente necessidade de se exteriorizar. Porque reclama (a eventualidade de) atenção e porque precisa de passar a escrito os checkpoints para poder seguir em frente com a vida (ou falta dela...). Em suma, enquanto não escrever este post, a minha consciência vai lançar pedras a qualquer actividade que eu pretenda realizar. E já ando a adiar esta sede de leveza há um mês...

Vou limitar-me a enunciar uma série de pensamentos (com alguns desvios pelo meio).

1. Foi um Verão decente. Muito bom no que explorei a nível de televisão, razoável em termos cinematográficos, de leitura ou de futebol/corrida. Satisfaz pouco para o pouco que escrevi, mas pelo menos editei quase tudo o que tinha a editar de textos/poemas antigos. Estou mais solto para criar, o contratempo é que tenho perdido muito tempo online. A partir da segunda metade de Agosto, o meu vazio existencial trespassou demasiado para a internet. Não tenho disciplina mental para fazer algo que não seja uma obrigação no devido tempo...

Interlúdio A: Uma triste e fria verdade... 













2. Ainda em relação ao período estival, foi bom voltar a sentir-me em casa. As constantes viagens e os tempos em comum limitados a alguns fins-de-semana faziam-me sentir ainda mais estrangeiro do que sempre fui. Por volta de meados de Julho, reenquadrei-me com as pessoas com que sempre vivi. Não no sentido de comunicar. Refiro-me a tomar a sua presença como normal, natural e agradável. De facto, depois de um ano de faculdade tão solitário, descubri o valor de algo tão simples como sentir ruído e vozes amigáveis nas redondezas. É como se me oferecessem um certificado de que estou realmente vivo.

Já estou avisado para uma provável repetição desse fenómeno, o que é bom.

3. Não sei se é um ponto comum com outros seres humanos existir um ano que marca uma fenda na percepção da passagem do tempo. Até aos 15, tudo se movia devagar. Talvez porque essa idade marcou o advento da nostalgia na minha vida, o slow motion findou. Um passado cada vez maior, os dias com cada vez menos peso individual no meu tempo total na Terra, o facto de já não corresponderem a um bombardeamento de novas experiências... Eventuais razões.

Era lento, estático, sempre criança... E agora universidade, 20 anos. É estranho, sinto-me desfasado da realidade e até o meu corpo me chega a ser estranho. 

Dentro de questões temporais, há águas passadas que ainda molham. A escassa intimidade ao longo da minha adolescência é uma mágoa...

Interlúdio B: Anos 90, nostálgicos anos 90. As vantagens de ter acompanhado My So Called Life este Verão... 


Uma outra é ter posto os olhos num dos planos mais belos que alguma vez vi... Autêntico orgasmo nos meus sentidos (sublinhado pela "Everybody Hurts" dos R.E.M.)! (Excerto.)
























4. Numa perspectiva positiva, estes anos de vagabundo estão a ser muito importantes para crescer (mesmo que devagar; noto-me mais "livre" em contextos sociais; gosto da independência) num plano mental e a nível prático (que tanto detesto). Ando a dormir melhor (finalmente tenho um horário de aulas não esquizofrénico), a comer melhor (só agora vou começando a cozinhar...) e a praticar exercício físico regular. Estou mais enquadrado com este lugar, esta fase de faculdade e um pouco mais ciente de que esses aspectos são pontos de partida para me sentir bem. Estou a assentar! E como isso é fulcral para mim... A força do hábito confere-me alguma segurança e reduz a alienação com o espaço envolvente.

O mais importante é o curso em si, todavia ter ficado em casa durante este período seria um erro grave no meu desenvolvimento rumo à autonomia...

5. É um bocado óbvio que me sinto mais só quando há milhares de pessoas da mesma idade à minha volta, mas apercebi-me de algo que não compreendia. Quando sou uma ilha, ajuda não estar numa cidade. Uma sintonia entre o que vejo e o que "tenho" apazigua-me o espírito. Não fico tão agarrado a pensamentos fatalistas, porque penso mais em actividades do que em pessoas e relacionamentos. 

Interlúdio C: Tecnologia, amor, solidão. Fotografia polida e cenário urbano voltados para uma estética introspectiva, uma ambiência citadina de quietude na multidão (como idealizo). Bom realizador, cast sólido, trailer perfeito! Quero este filme já!



6. Objectivo "profissional" para este ano? Infelizmente, conseguir resultados acima dos esperados e procurados leva-me a aumentar a exigência. Passar a todas as disciplinas é ainda mais obrigatório e baixar a média mais de dois valores não é permitido. Neste momento, as notas têm, mais que nunca (pelo interesse na maior parte das disciplinas; pela falta de muitas outras coisas com que me preocupar), um poder incrível sobre o meu ego e a minha auto-estima. Só não vou estudar ao longo dos semestres. Enquanto o estudo circuncidado à véspera resultar (é uma bênção dar-se tão bem comigo), vou confinar as aulas no período das próprias aulas...

7. Detesto ser "obrigado" a participar em aulas para questões de nota e com isso conceptualizei onde a minha ansiedade social é mais intensa. Tenho tanto respeito por figuras de autoridade que perco o respeito por mim mesmo. Registos formais matam-me, bloqueiam-me. Quando a isso se acresce a pressão da avaliação... Boom!!!

Só mesmo quando há aquele/a raro/a professor(a) que cria um tom informal e amigável na sala de aula não sinto um peso na hora de soltar palavras. Já era assim no secundário; de qualquer modo, em primeiro lugar, prefiro estar calado, concentrado e confortável - sou introvertido. Se bem que por vezes seja difícil traçar a linha entre o "não falo porque não quero" e o "não falo porque tenho medo". Na mesma senda, estão questões de burocracia...

Já em registos informais, nomeadamente no próprio acto de conversar (desde que isso não implique iniciar conversação com alguém com qual não tenho confiança), estou solto! Sim, há sempre aquela barreira de ser demasiado cuidadoso / de ter medo de ofender... Quando esse obstáculo é superado, liberto-me de constrangimentos.

Interlúdio D: Em alta rotação na estação "Eu". Que beldade. Aposto que esta canção é condizente com o verso "the resolution of all the fruitless searches" quando pessoa x anda à procura de música para dedicar a pessoa y que tanto preza...


8. O que escrevi no último ponto é acentuado pela solidão e consequente hiper-sensibilidade. Quando estás numa etapa em que já te resignas a não conseguir manter relações para lá de 2/3 anos, quando tens 20 anos e começa a desvanecer o deus ex machina mental de acreditar que um dia tudo vai mudar, quando estás na faculdade e nada passa de interacção superficial e casual com alguns colegas... Enfim. É como já afirmei, para lá da família próxima, eu não existo. Neste aspecto, estou mais no fundo (logo agora que tenho maior projecção intelectual e me sinto muito bem fisicamente) do que alguma vez estive no passado. Não quero passar uma existência inteira em que o que sou e o que faço são somente para mim...

Conclusão: sobrevalorizo qualquer pessoa, os seus passos, as conversas, etc. O que para mim é um mundo, para eles é um segundo. Estou numa posição de enorme fragilidade. Qualquer pessoa com que simpatize é automaticamente uma das mais importantes na minha vida (visto que não há mais ninguém nela...) 

Catch 22: como se precisasse de amigos para fazer amigos... Tenho a protecção de, por norma, demorar muito tempo a gostar de alguém. Quando chego a esse ponto, agarro-me a nível mental (tendo o cuidado de ocultar isso e de dar espaço no mundo prático). Mais cedo ou mais tarde, percebo que estou a dar um papel de protagonista a alguém que me tem como uma personagem secundária. Acabo magoado e a remoer na minha insignificância. A ansiedade social e a hiper-sensibilidade caminham de mão dada, catalisadas pelo total arredio...

Esperava que a universidade tornasse tudo mais fácil, porém ter interesses semelhantes (além de que para uns 50% o curso nem é inseparável da sua identidade) não significa nada quando as pessoas vivem realidades tão distintas e há um oblívio quanto ao passado de cada um (cuja partilha poderia ser um factor de união...). No seguimento disso, não ter ninguém com quem partilhei uma história por perto, um espelho construtor, faz-me sentir um fantasma.

Interlúdio E: Já tinha visto esta obra-prima em Janeiro (na altura a minha opinião sobre o filme foi irresoluta), mas a ressonância foi tanta que a ela regressei. Fixou-se como um favorito. Impressionista, poético! As cores quentes que não me saem da cabeça! O espaço tão só que uma alma ocupa logo onde elas mais abundam...



9. É engraçado que os jantares de curso, uma ou outra saída à noite e o que aí se faz consistam para mim num constante método de me reassegurar que dizer "sim" não melhora a minha situação, que não estou a perder nada (gostava que fosse esse o caso). Para além disso, de seguida, e durante alguns dias, é me mais fácil manter um estado de solitude e abafar a solidão (pois percebo que é improvável conectar-me com alguém nos contextos a que até posso ter acesso).

10. Sempre que converso com alguém, ascende este doce-amargo posterior de que não comuniquei tudo o que devia comunicar. E há uma sensação de que tudo o que profiro é distorcido por uma parede de vidro. Há tanto isolado dentro de mim...
 
11. Ter consciência (até excessiva) dos meus defeitos é inútil no que toca a ultrapassá-los. É tudo sistémico, anos e anos a raciocinar de uma determinada forma. Está imbuído em mim. Suponho que terapia ajudaria em alguns aspectos, o pior é que nesta altura (tardia) o mundo exterior já é uma fonte de espinhos equiparável. Não tenho por onde começar, porque não tenho nada a que me possa agarrar...  

Interlúdio F: Soberba faixa de abertura do novo álbum de Jimmy Eat World. Aguardo pelo dia em que "there's something I feel that I haven't felt since I was a kid" se materializa para que a minha relação com a letra desta música seja ainda mais vincada.  



12. Não estou numa posição para tomar certas escolhas. Quando apaguei o Facebook em Dezembro de 2012 guiei-me em grande parte por esta lógica: se o próprio espaço cibernético tem o poder de regular a minha teia de contactos, se ele é maior que as próprias relações, se é ele o souvenir da minha existência para pessoa x, a relação é com ele e os verdadeiros mediadores são as pessoas. Isto quando há muitos outros meios de comunicação à distância e sem custos, seja pela internet ou por telemóvel... Estou a ser um fantoche e isto é uma mentira.

A decisão fez todo o sentido na altura, deu-me uma saudável perspectiva experior (cresci com as redes sociais a terem uma forte presença no meu caminho - uma constante entre os 13 e os 19 anos). No entanto, fez me reavaliar o ponto de vista sobre esta dúvida.

A verdade é que priorizar valores morais neste assunto é um luxo para alguém como eu. Há mentiras que tenho de aceitar, há jogos que tenho de jogar, pelo bem-estar que originam, pelo ego frágil que reforçam. Entram numa lista de mil e uma pequenas coisas que em conjunto criam condições para eu ser mais produtivo.

Estar alheio a todas as pessoas conhecidas foi um choque nas primeiras 2 semanas. Depois habituei-me, mas o meu mundo afunilou-se, eu encolhi. Insecto total! Acabei por voltar em Maio para aceder a apontamentos/informações para o meu estudo. Como não gosto de adicionar (por minha iniciativa; foi raríssimo fazê-lo no passado) pessoas, é possível que permaneça sozinho e no meu canto.

De qualquer modo, só tenho de assimilar que o Facebook com "amigos" é uma ferramenta para melhorar o meu estado mental, um aroma de mundo exterior... Ah, e que não vale a pena escrever certas coisas! 

Interlúdio G:  "I'm scared to get close and I hate being alone / I long for that feeling to not feel at all / The higher I get, the lower I'll sink / I can't drown my demons, they know how to swim". É a letra citada que me cola a esta canção, mas não posso deixar de referir o crescimento musical da banda. Bem longe do metalcore genérico e aborrecido com a infusão certeira de elementos electrónicos e de música ambiente.



13. Preciso e muito de actividades extracurriculares. Num mundo perfeito era futebol de competição e algo de escrita (num projecto em conjunto e sobre arte). O físico e o mental. Os dois! Não me sinto valorizado como ser humano (não vale a pena culpar os outros, até porque o elo em comum nos relacionamentos falhados sou eu). Se algo que eu fizesse recebesse atenção positiva (acho que sempre fui viciado nessa necessidade), estaria melhor face ao que sou. Só que há pouco que eu possa fazer, quando limito o que quero fazer ao pouco que sei fazer...

14. Em retrospectiva, identifico os dois momentos-chave em que "perdi" a carruagem. Ganhei um trauma a "dramas sociais" nos meus 14/15 anos. Enclausurei-me em mim, em remorsos exagerados e em odiar o mundo. Foi nessa fase que os demais começaram a ser incompreensíveis, uma língua estrangeira para mim (talvez pelo isolamento - induziu a proximidade com uma voz interior de decibéis crescentes - ou pelas meras especificidades dessa idade caótica).

Quando tive uma segunda oportunidade, já pelos 17 e acreditava que ia ser um de tantos casos felizes de "entrar no secundário como larva/casulo e sair como borboleta", os últimos meses do 12º trouxeram um twist. 

A progressiva tomada de consciência que era um tipo qualquer para pessoas que (lenta e fundamentadamente) se tornaram importantes reactivou mágoas passadas. De início, um plano "fake it till you make it" de me fazer crer que tinha, por fim, uma grande auto-estima (passar a gostar de mim não implica estar satisfeito comigo, apenas me acerca de uma figura auto-paternal) ocultou um pouco esse reaparecimento (que por sua vez intensificou de novo a minha apatia e inércia). Até o exterior, o meu círculo social se voltarem tão inexistentes, ao longo do meu 1º ano de faculdade, que ser narcisista só mesmo num qualquer acto teatral.

De momento, já não desejo tanto a eternidade dos relacionamentos como desejo a sua simples ocorrência e intensidade. Intimidade, nem que por segundos... 

Interlúdio H: Sendo um fã de Lynch há uns 3 anos era inconcebível que ainda não tivesse visto Eraserhead. Clama mesmo por excelentes meios audiovisuais e um horário nocturno para intensificar uma experiência imersiva. Para mim é difícil ficar indiferente, aborrecido perante algo que opera segundo a lógica dos sonhos e a obra de Lynch tem a particularidade de associar isso a narrativas claustrofóbicas, misteriosas, sombrias e íntimas. Vai muito de acordo com as minhas sensibilidades. Por este filme só, seria sempre um génio!



15. Por agora não importa, mas como convém ir pensando nisso... Já estive bem mais direccionado para o mestrado em Jornalismo. O meu "desacordo" é que o que se encontra por aí são apenas jornais regionais. Ou seja, mesmo quando há espaço para a cultura é quase sempre para ser abordada em termos de meros acontecimentos num dado local. Há demasiado provincianismo. O que me agrada é um formato mais visível em revistas (para o meu mal não há muitas), a pender para o global (e para as ideias em detrimento de eventos).

Certo é que mestrado em Estudos Artísticos não faz qualquer sentido para mim (diz o eu actual). Estou a gostar muito do curso, da educação cultural que me está a oferecer, da variedade... Só que o 2º ciclo não traz nada para além de um aprofundamento em cinema, música ou teatro...

Seguindo de facto Jornalismo (não visualizo alternativas, infelizmente), é provável que seja na UBI (sobretudo se quando chegar a altura de optar não tiver ligações com seres humanos destes lados)...

16. Às vezes sinto que devia estar mais (e sempre) preocupado, frustrado com grande parte do que escrevi aqui, que não tenho o direito de estar feliz em fogachos de tempo... É uma lógica perigosa e masoquista...

Poslúdio: O título. Será que algum dia não?

sábado, 5 de outubro de 2013

The 1975 - The 1975

É preciso voltar a 2008 para encontrar um artista musical relativamente novo em termos criativos que do nada se assume como um favorito... Setembro de 2013? O auto-intitulado álbum de estreia dos The 1975! Arte, sentidos e memória! É um daqueles casos cada vez mais raros (talvez porque a adolescência é o pico das descobertas, das paixões) de um álbum que pauta um período de tempo da minha vida, que tem o poder de criar a ambiência de tudo o resto, de alterar o meu humor. É um sentimento da mesma família do amor passional...


Focando-me na sua sonoridade, o que é oferecido é uma banda sonora para os anos formativos num rock/synthpop voltado para os anos 80. Há muito de Michael Jackson, de Simple Minds ("Girls" encaixaria em algum filme de John Hughes), de Peter Gabriel, da era Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me dos The Cure... Talvez sejam comparáveis a M83, porém aqui as guitarras prevalecem sobre elementos puramente electrónicos.















De início poderá parecer longo e a quantidade de interlúdios exagerada. Assim que se entra no tom do que se ouve, flui na perfeição e os tais intervalos para isso são fulcrais. Há também uma boa convivência entre números mais straightforward - "Heart Out", "Chocolate", "She Way Out"... - e outros mais experimentais, - "Menswear" num registo de R&B ou a jazzy "Pressure"- próximos do material dos 4 EPs antes lançados. Estas duas faixas, juntam-se a "Is There Somebody Who Can Watch You" num final alongado e anticlimático (considerando a energia que caracteriza o álbum). O piano subtil e a voz cansada acabam por funcionar bem, como se simbolizassem uma ida contemplativa para a cama, um final para todos os anos de adolescência. 

É que em termos de letra, o amor, o sexo, as drogas e as aventuras daí emanadas são os grandes temas. Talvez neste sector deixe um pouco a desejar, mas refrães como o de "The City" - "Yeah you wanna find love then you know where the city is" - ou versos como "But you're losing your words / We're speaking in bodies / Avoiding me and talking 'bout you..." em "Settle Down" são exemplos de "liricismo" belo e simples (a meu ver o mais adequado para este tipo de música).

 

A voz de Matt Healy alterna entre o "choroso" de "Sex" (aí é quase reminiscente de Jim Adkins - Jimmy Eat World) e o melancólico na já falada última faixa. O seu timbre bastante distinguível ajuda a conferir carisma à banda.

Atenção especial para a balada "Robbers" que cria um imaginário de romance a la Bonnie and Clyde (para ser mais preciso a inspiração é o filme True Romance). Em crescendo, sombria, é nesta canção que as vocais de Matt, ensopadas de emoção, se soltam e mais brilham.

 

Por último, a produção é perfeita para o projecto artístico! Polida, acolhedora e todos os instrumentos / vocais / arranjos no lugar e com relevância adequada... Como eu gosto de viver numa época de revivalismo da música pop / rock dos anos 80!

The 1975 vai rivalizar com Damage (Jimmy Eat World) e Trouble Will Find Me (The National) para o meu álbum preferido do ano. Tem a seu favor uma lua-de-mel que acredito ser para durar...

Desejo mesmo muito que expludam a nível comercial. Canções orelhudas, acessíveis, ritmos de fazer bater o pé... Porque não? Ter um álbum de estreia no número 1 das tabelas de vendas do Reino Unido é um bom começo a esse nível...

Envolto por este pano de fundo auditivo, em menor escala e de modo intermitente, tenho sentido aquele fogo doce palpitante, aqueles êxtases existenciais que a adolescência saudosamente me revelou. :') 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Baile De Máscaras Atropelado


Baile De Máscaras Atropelado

Começo pelo fim. Se há certeza que os últimos meses instalaram em mim é que a tecnologia é um tema dilemático para quem não pretende existir na penumbra de um véu. Que fichas colocar em jogo? Por que movimento optar? Onde se inaugura o demasiado? Como reagir às necessidades ou pressões sociais? É possível simplificar a questão a um “sim ou não” quando o real e o digital mergulham na mesma água? A minha resposta é uma anarquia interna, mas abraço a busca de um trilho a seguir para um dia domar esse pathos secundário.

Pensando os objectos como portadores de uma natureza evocativa, diria que a procrastinação é a maior armadilha regular. Disfarça-se em generosidade. Tamanha informação é um convite ao oblívio do mundo físico, tendemos a esquecer o que, em primeiro lugar, nos levou a utilizar o dispositivo. Ao mesmo tempo, ele transforma-se nos nossos problemas, pesquisas e desvios. Os aparelhos induzem comportamentos e estes são fundamentais para que eles exerçam as suas funções. Definimo-nos mutuamente e indissociáveis numa relação simbiótica. Somos ambos o sujeito e o objecto. O excesso (impreciso) interrompe a voz da consciência e descorporiza o indivíduo num espaço-tempo congregante e automatizado. Com moderação, os utensílios são uma alavanca para a determinação da nossa própria identidade. Podem ser um espelho construtivo, propiciando uma apreensão das lacunas da nossa realidade.

Saber se recorremos à tecnologia porque estamos sós ou se a solidão advém do seu uso é uma pergunta primária sem réplica certa. Não obstante, resvalo para a primeira hipótese.

A vida citadina per se, por exemplo, é desde há muito considerada uma experiência crua e de distância emocional. A multidão é imensa e, no entanto, rodeados de possibilidades, muitos sentem-se formigas esmagadas. O meio digital permite inebriar o espírito desses demónios. É um lamento num bar, a garrafa que não largamos até bebermos o vazio. Partimo-la em estilhaços nas redes sociais online. Onde ninguém tem de nos ouvir, onde muitos o poderão fazer. É um diário sob a forma de palco subterrâneo e cativa-nos a eventualidade de uma audiência (tal expectativa origina um efeito placebo).

Mas se as pessoas se encontram alienadas não seria mais lógico procurarem contacto interpessoal físico? Sim e isso ocorre, o que se alcança é que não satisfaz. Quantos são aqueles com quem mantemos uma relação íntima, de partilha de anseios, sonhos ou medos? Uma boa parte retorquirá com uma mão fechada. Por norma, os diálogos do quotidiano assentam em conversa fiada e raras vezes essa fase de fingimento e de vivência de um contexto semelhante se direcciona para algo merecedor da palavra “humano”.

Cremos mais na tecnologia por experiências passadas de má memória, por motivos de personalidade ou por consciência. Sabemos que todos carregamos determinados conflitos nucleares, mas negamo-los porque reconhecemos a irrelevância que eles representam para o interlocutor e em razão de julgarmos que é incorrecto e egocêntrico importuná-lo com eles (como se não bastassem os contratempos desse outro). Cria-se também um obstáculo à afinidade, visto que há um estigma social que envolve temáticas menos usuais (por exemplo, evitar falar da morte, fechando investidas de um dos enunciadores com um redutor e inapropriado “que assunto tão mórbido e deprimente”).

É no decurso dessa escolha condicionada que as pessoas se tornam “solitárias em conjunto” e projectam na máquina as suas emoções. Vulnerável aos dispositivos, o ser humano edifica-se em avatares extasiantes. Somos uma playlist, um top de filmes preferidos, uma fotografia de perfil ou as palavras que divulgamos num blog. Ademais, nessa megalomania de conhecer tudo, de estar ligado a tudo, de seleccionar aqueles com quem queremos comunicar e de inventar identidades, eleva-se uma gratificante fantasia de controlo.

O oximoro é que a desejada conectividade em linha acarreta como pré-condição um sujeito enclausurado numa torre de marfim. O objecto é o único receptor de afecto, uma prótese em que se prolonga o corpo e a sua ausência uma temida e desorientadora dor do membro fantasma.

Depois, no fundo, mostramo-nos um Narciso frágil que fita o lago e desespera por nele constatar outros a observarem-no de volta. Nas palavras de Sherry Turkle: “I share, therefore I am”. Essa reinterpretação do cogito cartesiano ajuda a explicar uma noção de alteridade em que os demais são meras ferramentas ao nosso serviço; a expectativa é que validem um pensamento ou sentimento, sendo também eles um objecto que serve os nossos interesses. Nesse vício de dependência externa e de feedback instantâneo esquivamo-nos ao confronto com a realidade e transcender o vácuo interior rumo a um estado de solitude (catalisador de empatia) revela-se uma miragem.

Escondemos as vontades nas (in)acções. Porta trancada e janela aberta, cruzamento permanente entre o não ser (digital) e o ser (real). Somos salas de espera a aguardar por nós mesmos, por amizade e por amor de um outro a que não legitimamos vida absoluta. Contradição das contradições, revestimo-nos de uma bolha de média mentirosa, de confidências endereçadas à esperança que alguém entrelace os dedos nos nossos. Inseguros, frustrados e conformados; a inércia actua e o corpo recua. Somos um zero dançante ou um airbag constante.

Rebenta a bolha do limbo e somente na tragédia nos fixamos no lado físico e presencial da fronteira. A verdade é eterna e a distracção efémera, diz o acidente. Quando passámos uma existência a comportarmo-nos como o resultado de um…


Alba Atroz / Panda Crónico

Alba Atroz / Panda Crónico

Voltar a casa com dinossauros na vidraça
Pingos velocistas a escoarem o que se (des)fez
Avalanche imagética no som que me abraça
Desintegro-me locomotivo num Sonho Siamês.

Querida transparência, grisalha profetisa da desgraça
Porquanto conjuro idos videntes de outro Dezembro transiente.
Mas mudam-se as mudanças, mais fixas, flocos indeléveis,
Os ecrãs prateados, estáticos, canções de embalo agora férteis
E devaneio-me - elíptico - evangelho de um Natal descendente...


Mesmo ao súbito relance que aparta o tacto e a plataforma
Sem sapatos na neve, quarentenado num mundo de mim tingido,
Descalço para me afundar no pranto que me toma a forma.
Como se açúcar pela gémea signa entre fantasma e solo
Mentira branca para escutar murmúrios de querubins caídos.
Em passos lassos, sou um vulto que se derrete por todo o lado
Um Midas que se repete homem gelo em cada fitar alvejado.


Retrocede o filho pródigo, berço aleatório a bater à porta de entrada,
No alpendre ecotonal, precipitação nostálgica que lhes colora a cabeça.
Verdade dita, sou só despojos que se desmantelam de pára-quedas.
Desde logo uma barreira invisível com as bocas residentes da fortaleza
E já no seio, véus feitos peitos recíprocos de pedestais falidos.
Sou a dor do membro espectral nestes quatro glaciares disjuntivos.
São-me as batas brancas alheias ao indizível Inverno dos sentidos.


Olá letargia e vejo-me a entrar de costas no quarto.
Um cupido reminiscente de fantasiar nesta incubadora,
Caixotes com brinquedos quebrados e memórias de parto,
Uma década mal empacotada nesta preguiça sonhadora.
Adeus Alice (nunca disse) e fico a brincar com as sombras dos destroços
Permanece a decorrer, mais forte, um passado de que guardei os ossos.


Desabo de bruços numa tarde de cobertores animados.
Cedo, as paredes claras a expirarem tulpas de outrora
E este lugar uma maternidade de mitos retornados,          
Com monstros a pensarem fora da caixa a despeito da hora,
Os não domados a migrarem do âmago para debaixo da cama.


Confesso, ainda durmo com escuridão de presença.
Repentinos pigmeus imediatos gigantes entram pelo rodapé
Todas as criaturas a trote do elefante no quarto…
Minguante num medo cheio que me varre ao pontapé!


Pega-se o claustro à fobia da pelúcia rapsódico-delirante
E culmino um canto deuteragonista a encarar Himalaias,
Quando temo o suficiente para não amar bastante
E deixo estalagmites hibernarem o coração de praias.
Até acordar noctívago no meu lado da trama
Um cachecol desabitado sem pescoço para ofegar.


Aconteceram estações a viajar-me o pueril para um novo espaço.
Tezes sem conta, um expresso almofadado a refutar o alvo asfáltico,
Sem ousar pisar o centro, um dormitório em tudo o que faço
Sublime na arte de ser o pó cataléptico que mobila o ático.


Para o alpendre e tento rever(ter)-me no que desejo.
Luzes cintilantes como estrelas e peço-me cadente:
Não quero ser um final frio a languescer no pólo do último beijo!
Não posso ser um trenó a deslizar desde as traseiras da mente!
Por muito que os meus botões me mesmerizem as chegadas
Não vou significar na ambiguidade de últimas palavras!

domingo, 9 de junho de 2013

Un Homme Qui Dort

Perdi o hábito de postar sobre filmes, por falta de tempo e porque tenho de me desprender de certas coisas para que não se tornem obsessões na minha mente (até porque sendo perfeccionista teria de rever e alterar ostensivamente muitas coisas obsoletas que ia escrevendo há uns anos). Se não conseguir estar ligado à escrita sobre cinema em termos profissionais (ou pelo menos colectivos), talvez seja uma área para que me volte mais para a frente na minha vida, com o intuito de ser mais uma pessoa a homenagear e a singularizar as obras que mais me tocaram... 

De qualquer modo, hoje abro uma excepção rápida (e falsa por ber baseada em links e excertos) pelo facto de o filme que dá título ao post ser desvalorizado e muito pouco conhecido. A minha pretensão é divulgá-lo um pouco mais. 



Sendo que Un Homme Qui Dort é uma adaptação de um livro, tentei saber da sua disponibilidade em Portugal. Foi editado por cá nos anos 90, mas infelizmente já não anda pelas livrarias. 

FNAC (sinopse): "Perec descreve, através da sua escrita inteligente e perturbadora, o percurso de um jovem estudante que a dado momento decide suspender o curso da sua vida, encerrando-se na mansarda em que habita. Aí refugiado, alheia-se de tudo; adormecendo, o mundo torna-se-lhe indiferente. Mas neste jogo doloroso, povoado de fantasmas, o jovem estudante é derrotado. O mundo, com todas as suas exigências, não o esqueceu, obrigando-o a acordar..."

Trecho (que sintetiza a conclusão, diga-se): 












 
Filme completo (Legendas em Inglês):



(Filme completo - legendas em português, menor qualidade de vídeo)