sábado, 22 de fevereiro de 2014

Update Pessoal #3

1. A menos que algo forte que motive expressão ocorra, vou entrar em blackout do "eu" (de posts deste tipo) nos próximos tempos. Estou cansado, exausto de mim, dos meus festivais de egocentrismo. Claro que eles acontecem por ter poucas pessoas com que me preocupar e por elas não estarem presentes fisicamente. Nada me daria mais prazer que poder focar-me, atentar em alguém que não eu. Acredito com convicção que tenho algo a oferecer a colegas de espécie. Frustra-me que males invisíveis, obstáculos interiores sejam a minha cruz a suportar, que nunca me faça ver...  

2. O que é que uma rejeição que foi, face aos desenvolvimentos recentes, inesperada significou para além da dor imediata e aguda que acarretou (ainda bem que esqueço estas coisas com facilidade)? Primeiro, a perda da expectativa foi uma artéria perfurada, um maremoto do subconsciente para o consciente de uma hemorragia interna que estava estanque. Essa hemorragia é o meu isolamento opressivo... É fodido. Tento sempre construir-me à volta de outras pessoas e nunca gostei de alguém assim... Neste caso, depois da desilusão inicial, custou mais compreender que ser humano x se está a lixar para mim a todos os níveis... 

Mas houve uma segunda consequência, uma luz. Falta encontrar o túnel que me leva a ela... Sofri uma injecção de niilismo, estou mais solto. Em relações, pior do que me aconteceu é improvável. Também reflecti a fundo sobre todas as vezes em que fui incorrecto ou não me expressei como devia com outros. Estou a fazer certas pessoas saber... Sinto que me tenho tornado melhor nos últimos meses. Mais flexível, empático, tolerante. Isto veio acentuar essa evolução. Noutro plano, se quiser ser positivo, há um número substancial de atitudes/acções/iniciativas tomadas nos últimos tempos (desde Dezembro e ainda mais depois do que aconteceu...) a que sempre fugi no passado. Só receio que aos 20 seja um pouco tarde...

Interlúdio: Isto x1000!!!

"I'm not saying that I'm giving up
I'm just trying not to think as much as I used to
Cause "never" is a lonely little messed up word
Maybe I'll get it right some day
For the first time in a long time I can say
That I want to try
I feel helpless for the most part
But I'm learning to open my eyes
And the sad truth of the matter is
I'll never get over it
But I'm gonna try
To get better and overcome each moment
In my own way"




3. Devia-me ter "vestido de palhaço" em permanência (não só de vez em quando) no início do ano lectivo transacto e devia ter anuído "sim" a mais coisas. Nunca me foi muito difícil actuar e era por aí que ia criar possibilidades. As pessoas simpatizam com quem baixa as defesas, demonstra as imperfeições e é activo, empático, cómico... Deixa de ser um concurso de ocultação de defeitos... Tive as minhas razões (para lá de transtornos psicológicos), mas nem as vou enunciar, pois eram erradas... Infelizmente, segui o meu retrato de adolescência: um tipo só sentado num banco. À espera. À espera de nada como se isso pudesse num tiro de sorte levar a tudo... Agora é complicado. É complicadíssimo fugir a ideias que se cimentam sobre algo ou alguém. E não visualizo nenhuma actividade ou lugar em que me possa recriar. Sempre isto...

4. Um amigo propôs-me uma determinada ideia e não podia concordar mais. Espero, portanto, que o que vou afirmar seja um pouco menos absurdo (para lá da parte de ser uma generalização). Se por um lado a interacção profunda com pessoal somente hedonista, que não tem anseios de instrução, é quase impossível (desde logo porque estes a desprezam), por outro há nos mais academizados, nos intelectuais algo que me é incrivelmente repulsivo: a colocação da razão num pedestal e, em alteridade, o julgamento de que a sensibilidade, a emoção é algo inferior, rasca... Aplaudo sempre esta citação: "O miserável receio de ser sentimental é o mais vil de todos os receios modernos." Eu estou a meio caminho dessas duas generalizações, o que é chato... Quero aprender, mas quero sentir com violência...

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Update Pessoal #2

De volta a uma determinada espécie de post... Mas é bom sinal que desta vez não tenha muito que reportar e que a sensação de fatalismo se tenha desvanecido. Sei que viver implica altos e baixos, só não quero desistir de realizações, de bem-estar emocional, de agarrar com agrado e perspectiva positiva a estrada em que estou. Tenho angústia que chegue (para impelir movimento) quando estou mais ou menos bem. Como agora...

1. Janeiro é me invariavelmente um mês tão opressivo, de desânimo avassalador, como a ressaca de uma antecipação de um clímax que não chega a acontecer e resulta em reset... Sabe bem poder emitir que em 2014 fugi à regra. As notas satisfatórias, por si só, não justificam este twist. O que mudou é que, através de tímidas iniciativas, sinto que estou a criar mecanismos que me permitem ter uma noção de possibilidade exterior (isto foi bué meta). Com isso quero dizer que parece possível desenvolver determinadas relações ou situações com outros seres humanos. Não estou num poço de alienação. Desde o final do secundário que não podia afirmar tal coisa. Tenho estado só sem ficar só, tenho alcançado solitude sem a necessidade de métodos de escapismo ou de entorpecimento como ocorre no Verão. Não posso voltar a isso, por mais que uma reacção anestesiante a que se conhece os cantos seja apetecível pelo conforto.

Interlúdio A: Estou numa fase doentia de The Cure. Adoro estas pancas que me aproximam de determinado artista musical, que me fazem escavar discografias. Já gostava bastante da banda em causa, agora esse gosto está a ascender a algo como um top 10 de todos os tempos, onde figuram bandas com que cresci, em que me moldei, melhores amigos. É ridículo que os The Cure sejam caricaturados como nada mais que uma banda gótica (numa acepção simplória) e melodramática... Disintegration é um dos melhores álbuns que alguma vez experienciei! Uma das canções que mais tenho ouvido (intitular "Untitled" um trabalho sobre incapacidade de expressão é tão inteligente):


 2. O que referi no ponto 1 tem também que ver com o facto de estar a sentir o que estou a sentir por ser humano x. Muito longe de idealismos estúpidos. Passou um milhão de anos desde que passei por um estado semelhante. É possível aliás que nunca tenha passado por isto desta forma. Não com esta certeza e prolongadamente. Quanto mais conheço, menos dúvidas tenho. Tomo-me como uma pessoa melhor ao empatizar com alguém em tamanho grau...

Além disso, não me tenho pautado pelo silêncio. Porque isto é real para mim. Tenho mostrado, tenho dito o que se passa de inúmeras maneiras sem, de verdade, o dizer... Não estou à espera... à espera de nada. Estou a iniciar, a lembrar x que eu existo, a lembrar-lhe que lembro a sua existência. Consequência: de súbito estou mais próximo do que parecia realístico há um mês atrás. As palavras saem tão leves, tão fáceis, sobre os mais diversos assuntos. Essa simples receptividade, sintonia tem me levado a segundos de melancolia transcendente, de êxtase emocional a que por norma só acedo pela arte e num nível mais ténue.

Se pessoa y demonstrasse interesse mais que "amigável" em mim sem que eu o reciprocasse, nunca permitiria qualquer aproximação. Ando a ser tão indirectamente óbvio (acho)... Porém o meu "óbvio" pode não o ser para o interlocutor e posso estar a ser visto como potencial amigo.

Esta ilusão, fundada em factos, faz-me bem, mas convém estar preparado para uma desilusão. É impossível deixar de ter expectativas quando não quero deixar de as ter... Logo se vê. Se for preciso chafurdar na lama, vou agir para que seja algo breve. Vou tentar não me oferecer, não voltar a sobrevalorizar pessoas que se estão a lixar para mim. Estou cansado de me fazerem sentir anedótico, inútil, etc.

Interlúdio B: Se em música tenho estado em mood para The Cure, em cinema tem sido o film noir a empolgar-me. Sempre simpatizei com a fotografia de alto contraste, com os cenários urbanos e nocturnos conjugados com personagens de moral ambígua, com tormentos psicológicos e com diálogo inteligente e cínico. No passado nada me encheu as medidas. Até que esta semana Out Of The Past me arrebatou. Aqui fica um trailer (ranhoso):



3. Metade da minha licenciatura está completa. Felizmente os mínimos que estabeleci no início do meu percurso no ensino superior deixaram de o ser após um único semestre. Aumentaram e mesmo assim tenho margem de manobra de cerca de 1,25 valores. Se acabasse com a média actual seria fantástico, mas não quero incutir em mim um acrescento a uma auto-pressão já exagerada. Num plano prático, para além de estar a adorar, agrada-me a sensação de estar a aprender, a melhorar, a descobrir em áreas que correspondem aos meus grandes interesses. Nomeadamente em cinema sinto-me hoje muito mais capaz de análise e portador de maior conhecimento histórico do que antes de começar o curso. Só continuo anómico face à escolha futura de um mestrado...

Poslúdio: Não acompanho Family Guy. Não sou grande fã, diga-se. De qualquer modo, esta cena é digna de um qualquer hall of fame:

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Short Term 12

Longo longo tempo se passou desde que um filme me afectou emocionalmente com tamanha intensidade. Desde já um favorito! Quando se trata de uma pérola indie, sinto-me na responsabilidade de tentar cooperar o pouco que for para a sua divulgação (se um ser humano vir a obra em causa pelo meu post já estou a contribuir para um mundo melhor). 



















Short Term 12 remete para um centro de acolhimento de adolescentes cujo staff é constituído por vários jovens nos seus vinte e tal anos, dois deles namorados (grande actuação de Brie Larson, num registo comedido em que deixa o silêncio e a angústia "falarem" por ela) e também com um passado conturbado. Em termos narrativos, o foco é na sua relação e no seu envolvimento com dois adolescentes em particular (destaque para a excelência do desabafo metafórico através do rap no caso do rapaz e do conto/narrativa no caso da rapariga).

 













Ritmo retraído e extremamente envolvente, câmara irrequieta e intimista. Sabe a poesia... Os acontecimentos dramáticos nunca parecem forçados ou manipuladores. Com o auxílio de um minimalismo sonoro e de performances convincentes, o equilíbrio entre tristeza e humor é pleno, genuíno. O circular final em slow motion é perfeito, capturando o ambiente etéreo proveniente das conexões interpessoais no centro de acolhimento, um lugar onde a dor não é só almofadada. Aí, essa dor aprende a ser adulta, a partilhar-se com os outros, com a dos outros. 

O rato acolhedor pariu uma montanha comovente... Os meus olhos estão em sofrimento. Entre as horas que não durmo nas vésperas de exames e beldades como esta... Conhecendo-me, de 2013 só Her me poderá causar maior impacto. 

sábado, 21 de dezembro de 2013

Álbuns De 2013: Top 20 De Favoritos























1. The 1975 - The 1975
2. Jimmy Eat World - Damage
3. The National - Trouble Will Find Me
4. Paramore - Paramore
5. Arcade Fire - Reflektor
6. The Wonder Years - The Greatest Generation
7. Phoenix - Bankrupt!
8. Kanye West - Yeezus
9. Vampire Weekend - Modern Vampires Of The City
10. AFI - Burials
11. Tegan And Sara - Heartthrob
12. Daft Punk - Random Access Memories
13. Chvrches - The Bones Of What You Believe
14. Moving Mountains - Moving Mountains
15. Alkaline Trio - My Shame Is True
16. My Bloody Valentine - m b v
17. Haim - Days Are Gone
18. Sky Ferreira - Night Time, My Time
19. Fall Out Boy - Save Rock And Roll
20. John Mayer - Paradise Valley

domingo, 1 de dezembro de 2013

Sob O Efeito De Nada

Quando se criam circunstâncias exteriores (sou um fantoche delas, tenho somente a liberdade de as hiperbolizar - e como a vontade se lhe apega após uns tempos em que a sua existência foi de todo a sua ausência...) para eu me sentir melhor, também a sombra delas se aproxima proporcionalmente de mim...

Este semestre estou mais rotinado e menos distante de uma ou outra margem. Já é norma uma ascendência psicológica no meu segundo ano com um determinado grupo de pessoas: 9º > 8º; 11º > 10º. É o que demoro a ser o que os outros são logo num par de meses... Ao mesmo tempo, essas melhorias ligeiras que eu não tomo nunca como fim, mas como um meio para algo maior, um período feliz constante, são sempre anticlimáticas. É como se os meus desejos apagassem as velas e pedissem a falta deles. Nos restos, há só ânsias goradas de um clímax existencial.

Quando - à falta de termo à altura em português - a infatuation entra em jogo (julgava-me já imune), não posso não pensar que tudo se tornou um estúpido círculo vicioso.

Sei bem a razão: a plena falta dela. De existir... Causa o irracional mais lógico... E então olá anagnose. Cada passo maldito, bendito faço (cada dia é tão escasso)... Hey, dor de cabeça! Hey, obsessivo conflito interno como um esterno! Hey, potencial razão de existir!

Mas por fim, de novo, sem escuro idealista (estou cego pela essência da luz que vejo). Que morra essa merda!!! Desta vez o objecto sou eu, só eu, da falta...

Iniciar processo de inferiorização a tudo aquilo de que não sou nada digno, iniciar processo de divinização do nada que é tudo! Hiperbolizar auto-destruição pelo irracional tomado racional em cada sinal... Teu sinal meu. Raios, na mesma a objectificar!

De qualquer modo, honestamente, o rés-do-chão é o verdadeiro subterrâneo. Prefiro forçar o gume possível: tristeza. Prefiro um futuro em que o presente me habita vivo. Porque cada vidro que me corte hoje é uma tela de cinema amanhã... 

sábado, 30 de novembro de 2013

10º Aniversário Do Álbum Que Mudou A Minha Vida

Uns fragmentos (com muita contextualização, pouco cuidados, não muito bem escritos) para comemorar o 10º aniversário do álbum homónimo dos blink-182, a obra de arte mais importante da minha existência...




















2006, os primeiros meses do meu 8º ano. Iniciava-se a minha adolescência, começava a entrar nos meandros mais pessoais da internet através do chungoso Hi5 e do saudoso MSN. Até esse ponto, a arte não figurava nos meus interesses, não estava sequer na minha esfera, era um mundo distante. No caso específico da música, podia ter um ouvido mais predisposto ao rock mainstream da viragem do milénio (nu metal) - Linkin Park, Korn, Papa Roach, etc - por influência do meu irmão mais velho (já que o que ele ouvia chegava a mim como se fosse um fumador passivo), mas era somente isso... Tudo superficial. Já conhecia um pouco dos blink-182 a partir desse fumo. Como eu engraçava com "The Rock Show" e o seu hilariante e metalinguístico teledisco enquanto criança...



É nesse contexto de miúdo a encarar o gigante chamado Internet (para lá de jogos ou sites de jornais desportivos) que começo a traçar um percurso de ouvinte musical (e o meu crescente domínio do inglês é um auxílio a relacionar-me com letra de músicas). Os blink assumem-se desde logo como o meu grupo preferido e para grande desgosto meu eram então uma banda inactiva... Os álbuns Enema Of The State (1999) e Take Off Your Pants And Jacket (2001), exemplos máximos da onda pop-punk estadunidense de 1999 a 2004 preenchiam os meus dias... Em retrospectiva, são trabalhos cuja minha apreciação decorre muito da nostalgia. Pelo âmbito reduzido, estando focados num lado mais superficial do que é ser adolescente em termos de letra e pela extrema simplicidade / convencionalidade sonora. 

blink-182 (2003) é diferente! Ainda que o álbum seja cada vez visto com melhores olhos e tomado como a magnum opus da banda pela crítica e pelos fãs, num espectro geral, infelizmente, não é a sua imagem de marca. A visão sobre os blink-182 é redutora, limitando-se ao humor de casa de banho, à imaturidade, à rebeldia... Esta obra cai no esquecimento como um membro estranho para os menos atentos, mais ainda num país periférico e insignificante no que diz respeito ao impacto dos blink (de Portugal, em sintonia, só tenho a cultura nos pés, o que é frustrante...). A minha opinião (longe de solitária) é que o 5º e auto-intitulado álbum de originais do trio justifica uma reavaliação dessa concepção.

Não é um Kid A, não é visionário, claro. Em relação à sua influência, talvez se possa ligar um pouco à ascendência comercial de uma vaga de artistas "emo-pop" como My Chemical Romance, Panic! At The Disco e Fall Out Boy  em meados dos anos 2000. Somente isso. 



Estranho que mesmo aos 13 considerasse este álbum o meu preferido da banda, muito menos que ao longo dos anos essa posição tenha sido reforçada. Em blink-182, Mark, Tom e Travis exploram o seu lado de fãs de The Cure (também eu sou) e o resultado é um álbum irrepreensível de rock alternativo. Soa ao que é, a uma banda de pop punk a desenvolver-se numa ambiência que mistura o post-punk / new wave dos anos 80 com o post-hardcore do princípio dos anos 90 (por exemplo Quicksand e Fugazi). No fim, há um álbum diverso, mas coesivo. Merecedor de um dos meus clichés preferidos em críticas musicais: é melhor que a soma das suas partes, cria um tom singular. Algo justificado por um processo de gravação minucioso, de experimentação, de laboratório musical. Sem dúvida que é um caso em que a audição por fones é preferível. Vários easter eggs e detalhes que tornam audições repetidas apetecíveis. 

"Feeling This" é o exemplo exímio do que a banda se tornou neste álbum. O uso de flanging adiciona textura, dimensão aquando da introdução com a bateria, esta percorre um percurso irregular (à falta de conhecimento teórico musical, fico-me por aí) e revela mais que nunca o talento e inventividade de Travis Barker, as influências de hip-hop na sonoridade dos blink. Na mesma canção, o potente final harmónico em que as vozes de Mark Hoppus e Tom Delonge "combatem" e que culmina em a cappella é influenciado por Pet Sounds dos The Beach Boys... Para além disso, é interessante o contraste dialogado entre os dois lados do sexo, o romântico e o sensual/concupiscente...

"I Miss You" é uma rara balada acústica - e uma das faixas mais a la The Cure no álbum - em que um detalhe como o piano monótono ao longo do primeiro verso aumenta e muito o poder expressivo. A letra é sombria em sintonia com a música, sendo de destacar o momento belo da referência a The Nightmare Before Christmas com "We can live Jack and Sally if we want (...) And we'll have Halloween on Christmas". De resto, um exemplo de "liricismo" mais metafórico e ornamentado do que era habitual nos blink pré-2003. Basicamente e desde sempre, a minha canção número um.

Em "Violence", o uso atmosférico de sintetizador na ponte  e as vocais faladas/sussurradas de Mark em pano de fundo sublinham o clima de obsessão que a personagem inscrita na canção sente por uma mulher num bar...



"Stockholm Syndrome" é precedido das palavras de saudade e ânsia de uma mulher a enunciar uma carta até explodir na canção mais agressiva da discografia dos blink (após uns segundos de estática)... A urgência, o desespero, a paranóia como temas. Nunca o contraste entre as vocais graves e macias de Mark e as vocais agudas, desesperadas de dor de Tom foi tão efectivo." You're cold with disappointment / While I'm drowning in the next room / The last contagious victim of this plague between us / I'm sick with apprehension / I'm crippled from exhaustion / And I dread the moment when you finally come to kill me..." Estes versos seriam impensáveis na fase pop-punk do grupo.

"Always" é uma ode à New Wave / New Romantic dos anos 80 com o uso proeminente de sintetizador. Mais uma vez destaque à voz de Mark em background, à dimensão que confere...

A transição de "Easy Target" para "All Of This" demonstra a vontade de unificar o álbum. O outro da primeira num ruído que se assemelha a uma qualquer transmissão alienígena transforma-se na frase musical de abertura, no staccato da segunda (há também uma aliança temática; em ambas encontramos a personagem Holly). "All Of This" conta com o próprio Robert Smith dos The Cure como vocalista principal. A percussão "pesada" numa melodia sorumbática aprofunda a angústia da canção.



"I'm Lost Without You" é uma faixa final ("Not Now" foi um bónus na versão UK do álbum) épica, com layers e mais layers. O primeiro minuto e meio com ambiências electrónicas é reminiscente de Pink Floyd ou Radiohead... O uso de um microfone rotativo faz com que a voz de Tom pareça surgir de debaixo de água, acentua a ambiência de transe e melancolia da canção. "Are you afraid of being alone / Cause I am, I'm lost without you / Are you afraid of leaving tonight / Cause I am, I'm lost without you" tornam-se palavras quase hipnóticas... Nos últimos 40 segundos Travis Barker viola a bateria num solo em ritmo reminiscente de marcha (há dois layers porém) e blink-182 fecha de um modo algo circular.

Articulando isso com a minha vida, acho que nunca me teria apaixonado com tamanha intensidade pelo mundo da arte sem este álbum. Foi ele que abriu as portas e, uma vez lá imerso, nunca mais me deixou sair. Ao mesmo tempo que expandia os meus horizontes musicais, era uma constante, a minha conexão com ele solidificava-se, pautando toda a minha adolescência. Por mais que seja fã de quase toda a discografia da banda, é por este trabalho que a vejo como eterna favorita. Se não me tivesse atingido, é dúbio que mais tarde entrasse no universo do cinema, das séries de TV, da literatura... Catalisador de tudo! Define-me, é um marco identitário. De modo distante foi ele que me levou a Lost e ao Lost In Translation (completam o meu pódio artístico, creio...), por exemplo...

blink-182 é um paraíso estético para mim. Dos telediscos, da capa do álbum até à música. A "catchiness" mantém-se como elemento nuclear do trio, a paisagem sonora é ampla como nunca foi. Não é um álbum só para adolescentes, mas sim algo até mais relacionável para alguém nos seus vinte (e poucos ou muitos, tanto faz). Uma ambiência urbana e moderna em que a paixão, a agressividade e a urgência dialogam com a melancolia, a angústia e a desilusão. Sem ele, eu seria outra coisa qualquer. Foi ele que me desobstruiu a sensibilidade artística, foi ele que me causou os primeiros arrepios... É um amigo e enquanto eu respirar e contar com a memória em pleno, esta obra vai sempre estar carimbada no meu interior. Sinto por ele o que gostava de poder sentir por pessoas, não fosse este mundo tão volátil para mim em relacionamentos interpessoais... Esteja deprimido ou eufórico, apaixonado ou alienado é a minha banda sonora, é um caleidoscópio e um amplificador nos sentidos!

sábado, 23 de novembro de 2013

(En)Canto Do Cisne Laranja


(En)Canto Do Cisne Laranja

Saída à francesa da dor doce de crescer
Tal como a vivi numa febre contida,
Um preto e branco a que falhei o exterior.
Deixa a Cinderela chegar a este bairro nenhum
E o gume que não amei nega-me em retrovisor.

Sou uma miúda trágica entre plátanos suburbanos
Com olhos a cortar cebola no arrebol secundário.
Algo digno, tudo o é na lava nostálgica dos danos.
Quantos que não conheci, tanto que não senti
No cenário emocional de beber ilusão de onde parti.

Melodrama, ou a melodia que invento na trama
De tempos de sonhos cujo mero sonhar era revigorar.
Já sete palmos de terra sobre sacos de plástico no ar,
Quando todos um procedural e daí cancela na chama.
Anomia, onde vou? Ao ser de ninguém a razão de parar...

Mas vem-me Cinderela e sou porcelana sentimental.
Finco pé no corredor a mitigar o carro desvanecente
Com os sentidos no grande céu tangerina em bandeja
Quando o adeus é uma claque a servir serenamente
O infinito refugiado na despedida aberta que me beija.
 
Quero dançar com os subúrbios neste asfalto que transpira.
Sem memória ou expectativa à baila no instante defronte. 
Posso ser um veado em slow diante de faróis no horizonte,
Posso morrer um vestido vermelho na estrada que expira
Angústia minha à boleia bela de sorrir o frágil estendido.

Faz-me tu Cinderela, numa assim chamada adolescência.  
Sou tão princesa na rua ruiva de regressar quimera a casa
Da escola ao fim da tarde na luz melancólica em cedência.
Um décimo de segundo, a vida do eu no estado que estou,
Tristeza eufórica na empatia tardia de não ter tédio algum.

Rituais de passagem, por que nunca de paragem?
Pudesse ficar envolto nos braços do momento,
Enredar em culs-de-sac seres sempre em viagem,
Não voltar a ser abóbora num fundo cinzento.

Louco mover, se ao deixar ir sou vazio por inteiro.
Falta-me tanto, aprender a permanecer passageiro
Num mundo que se recusa a ficar enquanto é eterno,
Num modo motel de estilhaçar o corpo moderno.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

14



14

Braços-baloiço numa segunda-feira sépia
Em mãos-melisma no São de Novembro.
Assim começa, o sem fôlego de tanto o ter
Por ti, sabor de nada saber, todo o membro  
Ao arrepio no paraíso de querer e desconhecer.

Sala de sempre à socapa e beijo-tiro no escuro.
Em nome do tacto, o meu pescoço a fotografar
Os calafrios de um intervalo desde logo futuro.
Podes durar um búzio, blindada imagem infinita de arfar…
Aproximações como um grandeur metafísico a cada muro.

O teu-meu elástico rosa e o sabor de a tudo saber
Durante conversas de quarto num romance neo-epistolar;
As polaróides fragrantes em folhas de diário sem caducar
No Outono quase estático de ao teu tronco ascender.

Memória rainha na câmara lenta de Dezembro poente,
Aquele parque ao crepúsculo como iluminada balada
No qual me pulsas a gravidade para o chão crescente
Num uno de dígitos em que nascemos a era dourada.  

A tua persistência à minha resistência, comissura
Onde os avanços recuam a línguas estrangeiras.
Não perguntes, não digas, a defesa à mistura,
O meu senso incomum de socializar barreiras.
Mas até aí, souvenir de fundo ao fitar pela costura…

Para lá de ficar a pedra que (as fragilidades) me atiraram,
Mais que segundas chances e remorsos exagerados
Permanece o ar rarefeito e a quintessencial inquietude;
Mais que aulas de anatomia e aniversários decorados
Desaparece o rancor dramático e a demencial atitude.

Se a recordação é esse ser que nos vive em escalas
Posso alegar-lhe o discurso apologético do teu bem,
Fazer de um gramofone o aeroporto para falsas falas,
Um clássico apropriado para sobreviver ao meu desdém
A gratidão distante de te perenizar uma passagem doce:
“Querido motivo maior, vamos sempre ter os catorze.”

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Quimono Circunflexo


Quimono Circunflexo

Podia ver-te na roupa de um álbum preferido,
A estética Inventada antes de te conhecer.
Eras nua e cabelo negro por brotar corrido.
Metade minha, a tua silhueta à flor da porta,
Em vão, quando nasces secundária no eu te querer.
És oriente corpóreo onde o real nem te nota.

Chapéus fora pela rapariga que esperava
Ela esperava por eles, ela esperava por nós.
Por mim! Em devaneios meus abancados de voz.
Eram chances e innuendos em tudo o que não falava.

“Não ter de lutar por uma força maior
Porquanto ela mesmo lutará por ti.”
Disso lema, e fazer de invectiva o fluxo da cena
No enquanto insustentável de acentuar o pormenor
Conjugo leveza, e acontece se valer a pena.

Um brinde à rapariga que desesperava
Eu desesperava por eles, eu desesperava por mim.
Por ela! Num serão adolescente sem tacto no fim.
Eras multidão a solo que no escuro ateava.

Ao sopro e viciado na emoção mais rente,
Outra pluma lançada num sempiterno retorno.
Sakuras circunstanciais e livre-arbítrio embotado,
Todas enlevos efémeros num homem moderno.
És a doença evidente na absência que curas.

Uma vénia à rapariga que convidava
Ela convidava-os a eles, eu convidava-me a mim.
Por vida! Num torpor conivente que assentia com sim.
Era o anuário de liceu que o auge passional cessava.

Vertigens cruzadas, e "bom dia" em vez de tanto
Por extrair das pernas em escrutínio sentadas.
Eles eram o eco constante a subtrair-me do pranto,
“Nós” era adorno em que te perseguia o semblante.
Fosse tu naqueles fúteis sussurros, sibilar-me-ia:

"Apupos para o rapaz que expectava
Ele expectava por si na expectativa do mundo.
Por medo! Só num banco com o ego no fundo.
Era um estranho com nome que nem atentava:"

"O que é o idealismo senão a pena que perpetuo,
A falta de amor-próprio projectada no próximo...
Objecto criado de uma existência a que excluo
A liberdade de não me ser um peso sinónimo?"