terça-feira, 8 de maio de 2018

Horror Ao Vazio

Horror Ao Vazio 

In medias res, acordamos assim do nocturno inconsciente 
Todos quimeras pubescentes e antes o que fomos?
Sós em parques de estacionamento sem sombra do que somos
Acordamos aí, acidentes cardeais num subterrâneo crescente
Asas estateladas sem carro que nos leve de volta daqui.


Como um contorno de giz sem lugar onde significar
Levantei-me daí, um dédalo do cimento prá cidade lunar
A da pantera combustada no tigre altivo em abismo
P’las bermas iluminadas em que miúdos nos fazemos à rua
Como estrelas de filmes num tapete laranja e adoro
Eu qual Halloween nirvânico de subir o ego à grua
P’la boleia de fones postos em oxigénio sonoro
Maníaco aguentado nos braços de letras relacionáveis
Porque “dói menos se rirmos”, a angústia nos bolsos citáveis
Brand New, American Football e melhores amigos infindáveis
Até o fim da canção... numa limousine me devolver o vácuo.


Estilhaço de novo breu, tatuei um pisco no asfalto de sábado
E de peito ruivo, cambaleei as pe(r)nas de um dia acabar a sangrar:
“Dane-se como eles voaram, os anos de estarmos demasiado
Massivos à beira de algo na grande noite do desejo gorado”.
À vista disso, operei-me ao coração num trago de bar
Para soltar as aves que enjaulamos no fundo do tórax
E vulnerável fiz-me p’lo passeio ao topo dum morro (ou não?)
Onde as alimentei de expectativa aberto à cítrica superstição
De preencher o vazio por que lancei num auspício os pássaros oh céu!
“Desastre, desastre!”, gritava-me o seu sentido em oposição 
Ao grimório lido com o capuz do hoodie a neg(r)ar-me um mausoléu. 

Ressaca tropeçante, caí corvo obscuro nas ripas d’alameda urbana
E como um patético crucifixo no chão, ri-me (e doeu mais) de mim:
“A insignificância encarnada no cone de trânsito a rezar por ti”.
Ou por um alguém algures onde não há ninguém só obras sim
No fodido banco espelho meu de fogo posto ao tempo...
Sentei-me aí, enviando pombos electrónicos ao bando do liceu
Depois da meia-noite, antes que venham, enquanto o Outono plana
Socorreu sobre os meus olhos só cinza quando é para ver o céu
A nicotina no ar e um bordo vermelho acendendo uma vela romana
Ninhei-me aí, do cigarro estóico prós ramos da epicidade dos dias
Mas logo nos intervalos das folhas, A Panca, um beijo e adeus apogeu 
                                                                                   das hipóteses fugidias 
                                                                                   tudo ardeu
                                                                                   rasto das minhas covardias
                                                                                   e eu não teu
                                                                                   só mediocridade dos dias 

Invisível ciúme universal, estremeci a violência d’A rapariga da escola
E senti-me dióspiro decadente na cena gráfica q’um pneu me deixou
Ao partir pra longe donde quer que a explodir autópsias estou
Como um abutre de lanterna e navalha que a si mesmo se desola.
Mas enfim na alameda desértica, a sirene dos três do bando
A nossa margem à margem num súbito e sincrónico respirar incrível
Expirando apertura, inspirando abertura, falei do desastre voando
Culpei de tudo o seu sentido em oposição, e achámos o plano invencível
De escalar a cidade num sonho barroco e tornar o sentido em aprovação
Para preencher o vazio por que lancei num auspício os pássaros oh céu!
Mas logo o nicho desfeito entre pubs, Pancas vistas e cada um por um

Falso fleuma na face - face a tudo - gazeei-me dos sentidos diferentes
Suportei de vidros fumados a rampa rumo ao terraço do prédio
Mais alto, com o meu esterno apocalíptico entre o sexo e o suicídio
A viver com a garganta à procura de corda onde atar o grande remédio
De caixas escadas mais coisas reféns de tocar então o tecto erradio
E, droga!, daquele panorama tive febre passional e artéria inflamada
Titânico tive raptos e reptos a imolarem-me a gasolina p’las veias!
Antena hiperbólica tive laivos de não estar sozinho à procura de estrada!
Com Rimbaud no colo tive futuros de estar contigo que o abismo recheias!
Deus m(eu) planeta teu, fui um alguém algures na rua absoluta do cosmos!
Na tua senda, fui massivo à beira de algo num transplante de asas!
Fui transmissão televisiva dum wrestling com o tempo de Chronos!
Fui a sépia de amanhã agora mas a meteorologia deu fantasmas!
Napalm Nagasaki não! Eu vou até tirar a terra das órbitas!
Falir frágil não! Eu vôo até acabar com cruzes nos olhos!
Chão chuva não! Eu venho-me até ser um anjo a foder com as nuvens!
Mas invencibilidade, sempre... a sabotagem do momento por acontecer
Fosse eu boxeur ou escapista quanto ao sábado escuro de crescer
Sempre o nada a afectar-me todo e um paraíso intangível castigo
Nas arritmias dos corredores da escola onde nunca irei perceber
Os Setembros caídos em Junhos como os pássaros caídos comigo
Sem Sentido.

                                           ***

Oh mundo crescente, tu, os teus (d)anos e a radiação subsequente
Não há volta a dar, ficámos mitos hipoglicémicos insaciáveis
De sobras de Babel rasgada a caves da noite aos vinte e nada
De faces familiares apartadas por bolas de demolição inalcançáveis
A adultas cidades estrangeiras em T0s sobejamente incomunicáveis
Estávamos estamos: um à procura de tudo e todos à procura de um
Sentido à janela que não reflectisse para fora: o lado distorcido
Mas sim realismo cru, não há fénix que nos leve para cima daqui.

terça-feira, 14 de março de 2017

Super-Pouco (Dêem-me Um Pouco De Atenção, Por Favor, Se Faz Favor)

Super-Pouco (Dêem-me Um Pouco De Atenção, Por Favor, Se Faz Favor)

Sou sou, sou a puta de um génio capado
Quando é para queimar pontes e ficar a arder
Afogado nos cadernos do meu subterrâneo
Nada sem capa dura a esgotar d’escrever
O vosso herói já ok num ko de espontâneo

Chamas chamas, abram valas para o rapaz metáfora
Lástima andante com pernas de fazer de conta que o são
Qual crise desistencial, o meu querer querer em diáfora
Tão meta por cruzar a paixão por ter neste gelo diário
Ao me convencer delírio de desígnio divino em catáfora...

Porque ser não sei se sou, a hipocondria ou o visionário  
Nesta cidade de burros boémios mais burros do que eu
Quando bêbado na varanda que cai e o nariz mobiliário
Merda Parkinson merda, o Doutor Internet em apogeu
Sim setenta só se p'las costas, o dom a Geração deserda

Estereótipos pra sanidade, Lois Lane, a minha onde?
(Porra, o gás não sei se ligado na cozinha que explode)
Universo indiferente, concede-me a heroína defronte
(Melhor correr a casa ou a prisão negligente me fode
Mas dá-me a donzela em perigo do apartamento em redor)
Como juro, à espera só de um -herói e o meu super- eclode.

No bueno ser smoking vazio do amanhecer obrigatório
Desertar ao supersuperego na próxima cabine telefónica
Onde rasgo o fato e, BOLAS, estou com elas no observatório
De todos vidrados (Socorro!) na minha micro nudez cónica 
Bela bosta trancado e ninguém atende as chamadas que queria fazer
Se tivesse mãos para salvar o dia e reféns mijados para crescer...

A minha senhora pila medida à grandeza de depois libertar
O meu estado civil: patético no vosso suplicante couro inferior    
(Porque Francisco já sabes, a inveja temporal e a tua obra a voar
Pela Unicórniolândia, e olha tira-me deste poema, oh ESCRITOR!)
Desculpem retomando juro até... que bom senso já tentei
Apontar uma arma à cabeça donde nunca paladino sairei.

Tau tau...tologia e as veias correm-me no tédio do cu acima
Espancado em verborreia e quantos anos passam-me no prédio
Abaixo onde ruo cave que já não sai à rua daninha que rima
Comigo quanto mais velho mais como este mundo intermédio
De quem não sente a cinza metálica de sermos só o braille dos ricos
Porque ser escuso-me ser, alheio mérito nepotista de ultraje vestido.

Mafarricos dane-se, tenho os pulsos a saltar à corda no pescoço
Possuído por traças carcomendo-me o fígado pelo respiradouro
Da mansarda em que ficheiro secreto podia ser o ogre almoço
Vomitado só de me verem a acne dióptrica neste muito suadouro
A que chamo rosto putativo de tudo ao nem monologar vexado:
Coimbra, monstra-me até aos ossos inexistentes do meu ego quebrado!

E então chegamos a isto, sem chegar pra slogan de gente triste
Eu quando abominável homem do gelo já vítima de vida prolongada
A sonhar com clorofórmio pra dormir esta noite s'empatia em riste
Eu qual atropelamento duma ova pela ambulância não chamada,
Chacha teorética pra velhinha hipotética a definhar na sarjeta da estrada
Logo ao largo onde a importância me ergueu uma estátua de borracha.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Adoração

Adoração

Porque tu tinhas bilhetes, eram dois à cintura da vila
Perguntas-me se sexta vou, responde-te o rubor que estou
Cintila até à noite camaleão dos teus motivos e do meu futuro
Porque escuridão era a cor d’Agosto em fim chegar inseguro
À tua porta, deus, eras moldura e o mundano brotou...

Diferente com os pomares do teu vestido a desesperarem
Por abertos serem no tacto da máquina inversa de to fiar
Por colhidos serem na brisa demiurga da via em frente
Enquanto hesitavas as mãos dadas p’ra feira popular
E as tuas sabrinas me caminhavam nos olhos lentamente.
 
Oh forma das coisas por vir, não sabia díspar o nosso silêncio
Eu do caos ao cosmos entre as hortas dum bairro moderno
Tu do cosmos ao caos em tua mente algures fora de campo
Inverno nocturno estavas, vida do interior sem verde grampo 
Nos ramos dos pintores de casas vermelhas onde eu crescia externo.
 
Sorrias pouco na recta plana de m’encenares o centro do mundo
Só periferia tua nesse prado longo a desligar luzes escuras
Porque technicolor era o tom das tuas lojas de canela ao fundo 
Como grainhas por desvelar eram as sardas pedintes de partituras 
P’ra te tocar na face iluminada, ancas em requebro de violino fecundo.
 
Porque atracção já não eu, Ícaro do tamanho do lugar onde estás
Escapavas-te na terra menos pequena deste parque de diversões
E o teu abandono acho que fraco numa mera lágrima incapaz
D’existir fora nas órbitas sem monstros rotativos de estações
Polvos e carrosséis que espelhassem a cidade onde viverás
 
Catedral loira doutrem, escolhias-me as palavras da roda gigante
Proximidade eminente nas cabines verdes de arabescos beges 
A nossa achava eu quando as pernas se chegavam no alto instante 
De doce dizeres: “Desculpa, isto mudou, é daquilo que não reges...” 
Caía-me tudo adolescente pelo transe mais baixo mas flamante...
 
Porque segundos bastaram p’ro romance arder no firmamento
Vermelho fatiado, místico acesso de frutose me oferecias tu 
Como mercúrio para o inferno, havia explosões no céu do momento
Nosso deslindava eu, os pontos negros encantados do fim em baú
Aberto como sementes estelares do nosso Egipto em desvanecimento
 
Porque autopsiavas os adorados gumes nessa polpa do miradouro
Descascado túmulo nosso, vejo-te no restaurante de melancia aérea 
Para sempre quando voltar aqui, nós rei e rainha da idade d’ouro
Subterrânea como o sangue biográfico da tua silente Veneza venérea 
Porque eu jorrava e não falava, a cena preferida do Verão vindouro.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

(Turquesa '98)

(Turquesa '98)

(Diante do canal d’água e iço à TV a vela
Matinal como a minha vida de dinossauro
Marinho entre ilhas lácteas de mel e canela)
Restauro era demanda, meu império do fim-de-semana
Quando os dias epopeicos se ancoravam na tigela

(Aqui voo eu, papel alado deste barco de noz
Em minhas mãos invisíveis pelo oceano a sós
Serei o último da espécie n’azul margem dali?)
Salvador, memória nenhuma nessa pura aragem
Quando o mapa era território sem relógio feroz

(Para meteoros futuros, o meu capacete-panela
Tiro o curso descobridor numa caixa de cereais
E telecomando aventuras com olhos-aguarela)
Turquesa perfeita do porvir, tal me era a cor do cais
Quando o pequeno-almoço não ficava sono e represa

(Banheira até ao infinito e sempre nunca aquém
Porque remo a colher ao sofá pastel de carreira
Sim sou capitão mim a consolar a sala ocarina)
Do tempo perdido à frente do que ficou pra trás
Quando ganhava aos versus o emprego da retina

(Oh mãe, estou bela aborrecida, “há mundo lá fora”)
Quando o tédio da tarde descansava o não me extinguir
FORMIGA, mas funeral lotado pelo que criei outrora
(Hmm, nada para fazer, ruas lhes azulo no enquanto)
Quando dEUscobridor diluviava os insectos que é agora
E a Expo era dourada por (eu) não o saber distinguir

(Oh mãe, o escuro quer ir para a cama comigo
Quero a tua voz xilofone e a hortelã de presença
Claro escolho-te a ti, olha a bruxa no postigo)
Quando monstros só roupa nua na noite imensa
Tu varrias as vassouras em (sempiterno) amparo

(Amanheço Neptuno à vista e mudo o canal
Sou navio ouvi dizer há safira sempre a norte
Tenho bolachas e coragem para lá do meu quintal
Oh ninguém, desemboco na ideia chamada) MORTE
(Repentes raios catódicos trovejam-me o engenho
E o meu bote náufrago a perder afogado o sinal!)

(BLOFT!)

As únicas bolhas rebentadas as que saíam dos lábios,
Respirávamos o mesmo céu às que as lançávamos...
(Quando éramos cada(um)falsos sempiternos
Dentro de uma (                               ) maior...)

(BLOFT!)

Prezada estática desses anos escumados, ainda hoje...
Cedo vamos ser a primeira visão dos nossos pais,
Quantos-queres arrastados da idade de nos verem crescer,
Trintas em fade-out por televendas adentro, já amanhã...
Mera pastilha elástica no chão escolar dos nossos filhos a ter.

Estimada bolha transatlântica de chamar aos sonhos concreto
Moradia, adeus estarei até aos noventa doutro lado do mar
Tão longe do pior ser Lavender Town que é melhor o tecto
Perto das coisas sem rugas que só nós podemos amar,
(Coberto pela safira com fundo a que o meu fóssil tendia.)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Avelãs & Libélulas

Avelãs & Libélulas

Yomi, voltava larva da escola e as tuas patas
Expectantes faziam-me confetti no chegar do quarto
Pangeia quando as duas crescíamos mundos acrobatas
No alto truísmo de subir a cama e te purpurear o harto
Céu saltado por libélulas a cartão e feltro em cascatas
De atacadores que borrifavam terra ao nosso sonho léu.

Yomi, continuava casulo da escola e as tuas patas
Vacilantes doavam-me dó na caixa fetal de abrir a porta
Para minguar o adolescer no monstro dos teus ossos restantes
E adoecer a solidão na imagem aninhada de mil memórias gratas
Enquanto a água me arrancava aos olhos que já nem te importa
O cereal preferido pelo qual me alçavas pantufas às omoplatas.

Yomi, acabavam os fins da escola e as tuas patas
“Instantes debaixo do chão, segundos verdes ao largo da casa
Para morar leve sob a copa das imensas aveleiras falantes”
Palavras pais, furtar-me filha... do adeus em fatos e gravatas.
Mas logo, a tua campa a ser todo o lugar onde passavas antes
E o tamanho da humilhação a baixar-me veloz às ditas matas.

Dezoito horas! O arrebol marrom e violeta da tarde da morte!
Perdição, já só era um bonsai disto no Julho d’ouvir miar
O tronco da aveleira nesgado numa quase ogiva templária
Entrar, já só era vontade disto nos lábios roxos de norte
Até, Yomi!, aconteceres telúrica dentro da tela diária...

De me ronronares labaredas lilás no eterno poente crescente
Rumo à enésima potência de aumentar o meu corpo no teu
E juntas amansarmos o tempo no chocolate de avelã persistente
Onde a chuva era lenta demais para saber o voar ou cair do sumo
Quando cada dia veranil de ir a ti me durava um milénio em museu

Querido crepúsculo ao colo, abrandavas-me no teu exílico anel
De Saturno plural num Vesúvio pairante de avelãs nimbadas
Com libélulas helicópteros púrpura a orbitarem-lhes o mel
Borrifando-me fotografias felinas nas árvores enganchadas
E eu saltava planetas até que as garras provassem o som...

De me contares à boca a essência do teu cosmos morfema:
“Porque todos giramos na obstinação sépia da nossa caída,
Porque fazemos festas ao lenhador por vir de qualquer dilema”
Raptavas-me os poros abertos até saber pulsar o fluir da vida
Yomi, saía borboleta para a faculdade e as tuas patas incessantes
Sempre comigo, souvenir que a minha altura é ser destemida.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Ganchos

Ganchos
 
Quebrado encontras-me sem faculdade de letras,
Eu nem cardo a olhar para o nada à espera de tudo
Durante vinte Setembros endémicos donde não estou.
Qual Plutão visto da Terra que o ar de vala devastou,
Qual recalque nauseado para sempre e depois mudo.
 
Tu ex machina, só que “não” dá-se mais de mãos dadas à cova,
“Mete-te na minha vida”, mas pulso pulsa fraco de diabo no ombro.
Até demasiadas melhores coincidências te alinharem supernova
E a angústia radical explodir no aleatório voltar das aulas no teu ensombro.

Sístole/diástole e cinco minutos são a epígrafe majestosa desses dias eminente.
Linda coisa frágil, a história e a estética de surgires toda à soleira da porta,
De vires comigo minimal em braços que se acercam num terceiro ente.
Andrógino fomos, corpo meio meu que a expectativa aos deuses exorta
Como num realismo mágico de moléculas desintegradas ao pôr-do-sol.
 
Outubro é quimera de seres o canto receptor de mensagens,
Mera agenda telefónica flores tuas a tocar cravo à beira-rio.
Miragens só, cabeça bonita anti-blues do meu prólogo sombrio.
Dezasseis é ensaiar Manon, última paragem de autocarro sem ti,
Mera migalha cósmica bendito bueiro que em mil minhas levou aqui...
Vi(dr)agens só, princesa defenestradora de todas as janelas fechadas.
 
Chega chega, bailado lancinante exilado no teu anzol,
O apocalipse do meu nada coreografado no escuro cinema,
A nossa valsa láctea projectada na ontologia em dilema:
“Manon, o labor aeróbico da (in)felicidade partilhada num lençol
Ou, por pusilânime blasfémia, negarmo-nos sine qua non?”
 
Nós cegos, andamos aporia pelo nocturno fora
Perante o passeio testemunha de chover confissões para ti.
Embora vai, pela empatia torrencial de plantares os astros,
O meu fantasma lacrimal feito beleza do colírio que cai.
Tão cristalino, que me cravas árvores nos poros já no banco álibi.
 
Meu limoeiro no céu, a cidade despe a alça para nos sentarmos nela
E “era (bom) uma vez” dois bustos estatuados no ombro até à foice.
Mas meu querido parsec, não há Júpiter que nos acrescente a noite,
O nosso filme é uma contagem decrescente ao som do cair das estrelas.
Sopor, vamos que jantar planetas é monumento sem sequela...
 
Tu ave gestual d’erguê-las, o jardim azul rota e pianissimo pelo parque fora.
Larga o Schopenhauer debaixo da cama e leva-me a episódicos lados nenhuns
Lá onde a Lua jaz à tua escada de distância de beijar ou eclipsar agora.
Amanhã... Porquanto o tempo jamais olvida o relógio no nosso quarto.
Dorme bem no teu berço de escolheres o the end que a sizígia implora.
 
Tu gravidade, deixas-me aéreo em qualquer chão que não pisas comigo,
Parto a humanidade ao pensar as maneiras que não existem de te tocar.
Hoje içamos um barco espaço adentro e numa limonada fica o limbo preciso:
Ursa Melhor, dou-te a mão do meu casaco pelos teus ganchos esquecidos
Inventar posso que o bolso lembra, constelações com o cheiro do teu sorriso.
Dormimos bem no colo inexorável de esculpir o futuro que nos cursa...
 
Pantologia, que alguém proclame: "acabou o mundo, começaste tu!"
Mudem a Era Comum, há antes e depois do lar retórico de nem falar
Contigo o banal burocrático do hipermercado tão silente mitologia.
Meu Wagner Total, os gatos que vamos ter na casa em que vamos dizer:
"Teleologia (tu a tornares-me sem fim), amo-te até às larvas que era antes de ti."
 
Um dia, velho na horizontal, vou ver o holograma da noite de Manon
E não supor o que poderíamos ter sido sem fitar telescópio algum.
Bonança, no alto da nossa urna sideral, fomos e somos o mesmo caco.
É tarde, veludo celeste, e sopro-te o abajur para o embalo ancestral
Descansa estrela recíproca, o mundo é os teus ganchos no meu casaco.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Killer Joe - Cão Come Cão

Recensão Crítica















Depois do idêntico e despojado remake de 12 Angry Men (1997), da claustrofobia paranóica de The Birthday Party (1968) e Bug (2006), em Killer Joe (2011), William Friedkin retoma metaforicamente a noção de unidade de espaço. Cinco anos mais tarde, colaborando pela segunda vez com o argumentista Tracy Letts, transcende a sensibilidade teatral com que a deuteragonista casa-caravana é captada: ora através de planos gerais exteriores sugestivos de solidão, ora por via do aprisionamento ao interior de automóveis, asfixia-nos um Texas rural, sujo e inescapável habitado por escarros humanos, beatas olímpicas. A desumanidade é a única geografia da diegese.

A premissa narrativa assente num assassinato em família - epítome de disfuncional - atenta numa apólice de seguro e evoca o paradigmático noir Double Indemnity (1944), mas Friedkin fá-lo num atoleiro sangrento e num humor negro reminiscentes de Tarantino. As personagens, hipérboles do imaginário redneck, são estupidificadas ao ponto de motivarem tanto uma schadenfreude (riso pelo mal alheio) como uma insensibilidade perante espasmos de violência e estupro. 

Chris (Emile Hirsch), antes de se fixar enquanto pêndulo moral, desencadeia toda a acção num efeito dominó em que os cifrões e o falocentrismo são os fins de todo o meio. Só o polícia Joe Cooper (Matthew McConaughey), homicida/psicopata em part-time - o Robert Mitchum de The Night Of The Hunter (1955) com guarda-fato à Terminator -, confere uma gota de ordem no caos. Numa actuação potente, deixa o quase silêncio falar por si, expressando com frases curtas e de rosto fechado uma aura clínica, metódica e letal. Apenas desarma siderado pela falsa marioneta Dottie (Juno Temple), esse anjo que ajuda o inferno a ingeri-lo.

Nervoso e acorrentado como o cão que late na penumbra de uma tempestade nocturna, Killer Joe é a fábula perfeita para acordar antes de adormecer, um conto de imoralidade que, sem freio, conduz as personagens a lado nenhum. Nenhuma aprende senão a errar compulsivamente. 

Deste lado da tela, a obra desembala de modo pornográfico o mesmo tecido social de sempre: a hierarquia do individualismo esfomeado, a mera sobrevivência em que até uma perna de frango é feita ego.   

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Festas De Garagem - Horror Ao Vazio

Análise Do Espectáculo De 25 De Setembro De 2014

TAGV - Coimbra




















Produção: TNDM, Teatro da Garagem | Encenação: Carlos J. Pessoa | Actores: João Marques, Maria João Vicente, Maria Leite, Miguel Mendes, Nuno Nolasco, Nuno Pinheiro | Cenografia: Sérgio Loureiro | Dramaturgia: Maria João Vicente | Figurinos: Sérgio Loureiro | Música: Daniel Cervantes | Texto: Carlos J. Pessoa

Uma porta impregnada num portão e envolvida por um muro rectangular de pedra: a isso se reduziu o cenário realista e minimalista, porém caleidoscópico de Festas De Garagem. O palco à italiana foi recortado como uma mera recta enquadrada num frontispício logo atrás, criando um clima de intimidade com os espectadores. O eco decorrente de algumas falas (sobretudo quando ligado a um cromatismo azulado) evoca uma ideia de isolamento gélido na infinitude do exterior e estorva uma eventual sensação de claustrofobia. A iluminação ténue, proveniente de candeeiros no muro, aponta para um período nocturno. A luz vermelha na abertura transmite a ambiência libidinosa e hedónica de um qualquer red-light district.

Dado que o espectáculo se iniciou às 21h e 30m e que, dramaticamente, jamais se afastou desse cenário e parte do dia, é sugerida uma interpenetração do tempo representado e do tempo da representação (90 minutos). Essa fusão resulta numa percepção de tempo real e consequente verosimilhança. É um factor que pesa a favor da empatia, mas não em absoluto, dado que o autor/encenador Carlos J. Pessoa jogou num registo brechtiano de “quente-frio”, quebrando por diversas vezes o pacto de ilusão.

A peça começou em silêncio, num quase stillness corporal da personagem Virgínia Magrinha - a porteira - que contrastou com o carácter verborreico e histriónico que cedo se impôs, perdurando por toda o espectáculo. Sentada numa cadeira (adereço solista em palco) e a fumar, Virgínia depara-se com a chegada do seu sócio Victor Madeira e um cómico “a falar é que a gente não se entende” desde logo emerge, em concomitância com uma iluminação amarelada (a mais comum ao longo da peça). 

Do outro lado da porta, há a promessa de uma festa de garagem e as personagens, desfasadas, autênticos “adultos adolescentes” vão surgindo. Pretendem entrar, perante a recusa autoritária de Virgínia (e da sua mímica petulante) - passível de analogias com o Anjo do Auto Da Barca Do Inferno. Dessa porta que abre e fecha repetitivamente, emana um vento forte, um ruído industrial, volumoso e sinistro reminiscente do universo cinematográfico de Eraserhead (David Lynch). 

Porta - noção de trânsito entre dois espaços - que é mais protagonista que qualquer uma das personagens. Assume-se como heterotopia, aludindo a outras obras, tempos, lugares e dimensões. É a Alegoria Da Caverna de Platão - pelas sombras corporais no muro de pedra e pelo anseio de entrada num outro mundo -, mas é também a tentação do pecado original no Éden ou a abertura da Caixa de Pandora - espelhadas na projecção e ampliação em vídeo (mecanismo “frio”, de distanciamento crítico, por quebrar a quarta parede) dos rostos agónicos das personagens quando, por fim, entram e no tom satírico-pessimista da peça, que todavia tem flashes de esperança. Remete ainda para o absurdo, expectativa e circularidade de À Espera De Godot (Beckett) através do mencionado persistente “abre e fecha”, só interrompido perto da conclusão. Transparece na porta uma dualidade entre promessa de paraíso e temor do desconhecido (por intermédio de constantes negas da porteira e pelo som e corrente lúgubres).

Mais que tudo, metaforiza o “rectângulo Portugal” e uma crise inerente que transcende os cifrões - sub-partitura cultural que os actores partilham. As personagens são os cidadãos que habitam e não habitam um país igualmente excluído e resignado: um "não-lugar" (Marc Augé). Estão nele numa ausência interior (que se reflecte no exterior), num adolescer procrastinado e numa inércia ruminante. Daí que quase todas sejam expressionistas, “inchadas”, caricaturais. 

Virgínia Magrinha é uma artista falhada (proveniente de mais um reality show), desejosa de fama, cujo anacronismo está patente no vestuário de disco-star. Victor Madeira é um carpinteiro oportunista, brejeiro e de géstica hiperactiva que vive de expedientes (o seu fato-macaco ironiza o pouco que faz e a sua desonestidade). Zica Vaca Gorda é um arquitecto obcecado com Eusébio (elogia-o ao ponto de se tornar crítica; simboliza o apego doentio ao futebol, um vazio intelectual a que os mais escolarizados não escapam e tentam ocultar na fachada de um smoking, por exemplo). Dux Wellington é um praxista orgulhoso das suas mais de duzentas matrículas e do seu alcoolismo (ridicularização de uma memória comunitária, dos universitários que sacralizam e se reduzem a convenções ocas; torna-se sobejamente patético pelo facto de o seu nome se reportar às guerras liberais). 

Todos eles apresentam traços físicos originários de distanciamento - como a gordura excessiva, a comprida peruca e o bigode (maquilhagem) declaradamente falso de Zica. Só o adolescente João Benfeitinho não é fisicamente grotesco, funcionando como pêndulo que torna todos os outros mais credíveis. Na mesma senda, num plano mental, surge Maria Posfácio, com uma entoação eloquente, firme e segura, sendo a única fonte de lucidez e consciencialização directa (materializada na tocha que transporta; o próprio nome, em concordância com a sua entrada tardia, direcciona para o termo “explicação final”). No entanto, a sua face pintada de negro e figurino de igual cor assemelham-na à figura da morte, sugerindo que o espírito crítico pereceu ou está, no mínimo, entorpecido. Estas últimas são duas personagens de equilíbrio, que reforçam o pendor sério, o tormento vital de uma peça tragicómica em que o humor é mais explícito.  

A textualidade contemporânea, de crítica social e com paralelos ao popular teatro de revista está vincada numa tensão visibilidade/invisibilidade na representação. Os corpos em palco entram e saem do seu papel (por vezes de forma impertinente), declarando um enorme à-vontade com o código actor/personagem - deambulam entre um pacto de ilusão e uma irrisão do mesmo. Essa quebra da quarta parede/metateatralidade é concretizada quando Dux Wellington fala sobre “definir os contornos da sua personagem”, quando Zica Vaca Gorda afirma “entrei cedo demais” e se define como uma personagem prematura (correspondeu a um dos momentos mais risíveis para os espectadores), quando Maria Posfácio dirige ao público um “eu aqui, vós aí” ou quando a porteira monologa para a plateia “fazem de conta que não é nada convosco!”.

O texto tem um carácter acumulativo, prolixo e ruidoso, numa corrente de consciência sintomática dos grandes centros urbanos e da era digital; é “coisificado” pela forma não naturalista como é representado. Faz e desfaz: não reconhecemos, por isso, continuidade nas acções. O ritmo dos cinco actos é acelerado, indefinido, pontuado com interlúdios de música electrónica instrumental que começam e terminam de modo abrupto. A esses momentos associam-se coreografias velozes, espalhafatosas, contemporâneas, livres de convenções ou de gestos miméticos e reveladoras de físicos deveras plásticos e resistentes. No campo da iluminação, o vermelho de alterne impõe-se durante os referidos interlúdios.

Os diálogos são exprimidos com paroxismo, passando por temas tão diversos como a felicidade, a emancipação feminina, guerras passadas, o aumento da idade da reforma até à velhice e outros de trivialidade plena - sucedem-se e mesclam-se esquizofrenicamente; as palavras saem como as balas de uma metralhadora. Dada a seriedade de alguns dos temas, é sintomático que inclusive Dux Wellington e Victor Madeira, as personagens mais boçais (o primeiro chega a baixar as calças), conjuguem ao jocoso um uso elaborado e diversificado da língua portuguesa, repleto de jogos de linguagem (mas também de rimas forçadas). Pela natureza farsesca do texto, muitos dos pontos de vista são amorais e disparatados. Uma frase como “falamos um bocadinho demais” explana toda a auto-consciência do autor e das personagens.

No expoente máximo da recepção cómica do público, esteve o leitmotiv/refrão “cocó e xixi, eles são dois amigos no fundo da sanita”. Momentos escatológicos que, em detrimento do escândalo, procuram mundanizar o texto. Além disso, a peça serve-se da música para reanimar a audiência de perífrases textuais - algo em que teve êxito neste espectáculo. Os criadores reconhecem-nas, visto que pospõem ao adormecimento por tédio de Victor Madeira um episódio musical.

Noutro espectro, o momento ecuménico perto do fim em que todas as personagens se juntam e cantam “oh oh oh” numa comoção conjunta (sobre uma composição instrumental de atmosfera inspiradora) corresponde a uma das ocorrências de maior poder empático. É uma cena etérea e sonhadora, substancializada no lançamento de confetti em palco, e que condensa a essência de Festas De Garagem (algo oculta pelo primeiro plano concedido à feição cómica): a angústia existencial e a busca de uma identidade para a poder atenuar. Cada personagem expressa um premente e omnipotente “sentir tudo de todas as maneiras”, um caos interno tão promissor como desolador. A adolescência é (também ela) abordada enquanto aproximação a um "não-lugar", um período formativo e de pluralidade: um processo. Por ser de identificação universal, esse instante é de elevado potencial catártico. 

A porta é, nessa perspectiva ontológica, cósmica como um buraco negro; a expectativa de um desconhecido evento de divertimento nocturno “suga” toda a atenção das personagens (é lhes um hipotético deus ex machina). Há um vazio (irónico) a preencher-lhes a mente. No clímax do “oh oh oh” colectivo, encontram esse ponto de conexão - obliteram as suas divergências e a solidão em conjunto por via de um objectivo em comum - para a intersubjectividade, tal como aí se sela a unidade conceptual de uma peça não teleológica, assente em quadros de sequência narrativa residual. Aos adolescentes e aos jovens adultos (o público alvo de Festas De Garagem) lança-se um repto de indagação, apela-se ao seu papel de alguma crença numa população tomada pela descrença. 

O espectáculo findou com um êxtase sensorial de luzes estroboscópicas acopladas com uma intensa paisagem sonora electrónica. Em simultâneo, as personagens abandonam definitivamente o seu papel, despindo-se até ficarem de roupa interior. Uma seminudez que acarreta uma ampliação do figurino, pois, numa lógica cultural e social, os corpos mais nus são os mais vestidos. À pulsão voyeurística de os ver opõe-se a dificuldade de uma perceptibilidade intermitente, num epílogo de manifestação da materialidade espectacular. É uma última convocação do senso crítico através do estranhamento.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

"Quando As Palavras Falham, A Música Fala"

Enquanto as aulas (e o trabalho adjacente), conjugadas com aborrecidas e múltiplas actividades mundanas, me continuarem a entupir o tempo, fica este post. Este post relativo a acontecimentos celestiais cujo título talvez seja erróneo por, na verdade, ser a letra da música a falar sobre mim a falar sobre ti... <3


"I never felt like this with anyone before
You only have to smile and I'm dizzy
You make the world go round
A thousand times an hour
Just touch my head and send me spinning

I never felt like this with anyone before
You show me colors and I'm crying
You hold my eyes in yours
And open up the world
I can't believe all this
I can't believe all this

I want to keep this feeling
Deep inside of me
I want you always in my heart
You are everything
You are everything

I never felt like this with anyone before
You fill my head all full of rainbows
And all the rainbows is
Is every step you take
Is to be with you forever

I want to keep this feeling
Deep inside of me
I want you always in my heart
You are everything
You are everything
You are everything"