quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Miosótis e Dentes de Leite

Um dia caiu-me um dente de leite numa miosótis. Não te esqueças.

Ainda me ressoa estranho passar a ter tantos "no meu tempo" dentro e fora de mim, ser o lado velho de tantos termos de comparação. Vinte. Nove. Anos! É "engraçado" como as grandes mudanças só se impõem na psicosfera bem e muito depois dos grandes marcos. Mais surpreendente, porquanto fui uma criança prodígio no que toca a uma nostalgia antecipatória: lembro-me perfeitamente de pregar aos meus colegas que aquele seria o nosso último dia de sempre na escola primária, lembro vagamente o instante preciso de ultrapassar as grades, o portão. Lembro melhor que tudo um certo dramatismo afectado durante o recreio desse último dia: eu dava, sozinho lasso ao sol, a volta à escola como se soubesse em 2003 que 19 anos depois ia estar aqui, agora, a (d)escrever isto. 

Aconteceu mais vezes mais tarde... Por exemplo, o último dia de aulas em Belmonte em 2009, mesmo que o grosso desse período do 5.º ao secundário me ressurja menos porque mais mundano, tédio e cru, entalado perante a surpresa de ser de uma hiper-flexibilidade infantil e o gume passional/auto-gnóstico da adolescência. Afinal foi aí que conheci muitas das pessoas mais importantes e constantes para mim, de toda a minha vida diurna. De quase ninguém fui mais que um figurante, mas vários daqueles humanos são tanto o capital espiritual dos meus bons momentos e recalcamentos, e dane-se se não sonho mais com eles e com os tempos de escola do que com outra coisa qualquer, misturados nas aflições presentes doutra coisa qualquer. À parte a T. e o J. noutra estratosfera e uma ou outra pessoa do secundário, não conheci mais ninguém, mais ninguém me conheceu. Sentia-me visto, visível, as pessoas conheciam-me, uma espécie de pico de anão da minha popularidade. A justa popularidade à medida de ser 1, específico no mundo. Confortabilidade... E no entanto eu sei, só assim o é à distância de conseguir destilar daí as mágoas, a violência, o bullying do 9.º ano que me estragou qualquer vestígio já escasso de iniciativa interpessoal. Toda. A gente. Via. E não intervinha a minha agência humana morreu aí para ressuscitar nos braços acolhedores de um robô. Abraçava qualquer chão onde pudesse dissipar-me, desvanecer-me: eu e os fones (Inserir *Tornar-me a ausência que toda a gente foi para mim*). Só eu e os fones. Querer explodir vida, mas contê-la no chicote mental: não fales primeiro, não dês atenção, não te magoes. Desaparece!

Se houvesse paraíso - e eu contentava-me com a nostalgia terapêutica de uma simulação tecnológica assim à "San Junipero", como em Black Mirror -, essas pessoas iam estar lá, junto com as miosótis de todos os meus momentos preferidos. Flores onde deviam estar caras, caras onde deviam estar flores, não quero saber é tudo igual para mim. Uma grande unificação no corredor da escola, no campo de futebol, mas cabe tudo no meu velho quarto de crescer em casa dos meus pais. Não nos íamos beijar, não nos íamos abraçar; sem pretensões de amizades que nunca o foram, tão só bom dia ou um olhar cúmplice e silente de reconhecimento: vivemos na casa do mesmo tempo do mesmo espaço ao mesmo tempo. Não estou sozinho. Nunca estive sozinho. Pequeno e todo. Parabéns! Parabéns a todas as crianças, suspira a retrovisão a devolver o bolo. Até que não reste nenhuma: mania das grandezas. Não há universidade não há emprego, não há hierarquia não há salvadores; só este texto cabe tudo lá dentro. Apareço! 

Quero quero quero! Quero ser pequeno posição fetal. E sou. Afloro molares caídos e dentes de leite aqui. Com a irregularidade torta e proeminente dos dois da frente, só para comer as saudades da imagem que tinha das coisas: sem regra e esquadro, com fadas em frascos em fontes. Como no Zelda, o som mole da restauração e ganhar corações. E falir em sono profundo no escuro da minha gata de infância, por isso nunca paro. De cair em câmara lenta na almofada que tudo é. O brilho que tudo é. Suficiente. Surpreendente. Os meus olhos vêem-se ao espelho de trincar miosótis e... e logo... um bosque de heras onde a minha silhueta devia estar. Num esquisso em que já não destrinço, os dentes do leite com bolachas de uma manta polar de chocolate. Assim lassa a glória do mundo. E de repente todos me vendam a ideia que as coisas não foram como me venderam que iam ser... Para que a inocência em segunda chance seja melhor do que era suposto ser. Como uma faca em reverso a deixar de doer, eu como mesmo! Como o oxímoro do conceito dela e aprendo a saber perder-me na fragilidade dum universo situado dentro da faca. À medida que a lâmina se refracta em cada e todo o lado, é verdade! O meu ADN desintegra-se na distância quebrada entre a mente e o meio! Pois o que chamar ao sangue que tudo é? 

Finalmente despojamos os exosqueletos de histórias, impérios e egos, finalmente feridas expostas. Posso bem viver aqui. Podia bem morrer aqui. Falar, mas nem preciso, porque sou... o miúdo protagonista de um JRPG dos anos 90. Todas as noites a minha mãe volta a acordar-me de manhã como se eu fosse uma aventura em 16bits e o fotorrealismo independesse do mundo. Ela abre-me as cortinas em invasões sonoras de éter e melancolia, eu levanto-me deitado em 2D. Cenário expressionista tecnologia da imagem em que nasci, deus estou tão acabado com o progresso. E perspectiva de cima para baixo, as coisas não param de me regressar. Estrada água ferrovia metro ou céu, o fotorrealismo do meu coração emendado. Vai dar bem ao ponto, em que a bagagem ainda não era tanta ao ponto. De desistir pela incomunicabilidade... das grades da escolha depois das grades da escola.

Pois afinal para quê argumentos?, se mais um leviatã conta a opressão como ontologia da representação humana. Mas fotorrealismo do espírito! E eu tão resisto a tentação! De desaparecer. Apareço! Apareço! Apareço! Com miosótis e dentes de leite na mochila, vou do mundo para a terra pequena. Agora cheia! De novo cheia! Com flúor no hábito, sem cesura do 1999 com que cresci. Onde a casa de infância era o tempo de ser um anjo na neve de magnólia no esplendor da relva do quintal. Quando a árvore à entrada ainda era pequena, desalfabeto e um milénio de possibilidades por vir. Parecia um T. T de tudo. Ficava mais à entrada e a minha família não tinha mortos nos sonhos dos que ficaram por cá.

Fico triste eu detesto a minha consciência de mim não consigo sair! Tarde demais. A dor vem em ondas até um dia vir sempre. Numa cama de hospital. Melodrama, lol... Mas não há melodrama nas espirais de raiva angústia que ficam fora da linguagem. E eu tão gostava que não tivesse aprendido, essa mesma linguagem que me deu o fora dela só para ficar mais dentro ventre dentro de mim. Verme. Este não sou eu este não sou eu este não sou eu este não sou. Eu este não sou proclamo, do alto da minha desintegração, que o texto tenta-me acontecer... mas não consegue, falta corda. Desapar...

Mas twist afinal isto ainda não acabou! Reúno os cabos fios eléctricos das minhas consolas, abro um espaço na memória do meu braço esquerdo partido e... Injecto média nas veias! Reapareço! Sinto-me representado! Sento-me representado na minha própria escrita e agarro o comando nas mãos. A televisão está ligada, num filme um rapaz adolescente regressa a casa da escola. A pé. Fitamo-lo lateralmente. Em dupla exposição, consegue-se entrever um prisma triangular permanente no fundo do ecrã; refracta a luz em arco-íris até à saída direita da cena. A certa altura, ao deparar-se confusa com um cruzamento, a personagem que caminha nessa direcção pára. Há duas placas para casa. Cima direita. Ou um videojogo? Pára até que deslizo os analógicos do comando. Cima "estude para um dia fazer o seu próprio filme" lê-se no subtítulo da placa "casa". Direita "estuque para um dia fazer o seu próprio filme" lê-se no subtítulo da placa "casa". Cima senhores com hábito talar anunciam-se porteiros. Direita senhores com hábito de falar anunciam-se parceiros.

Um hálito exalam simpatia e algo me soa terrivelmente errado. Saco da imaginação uma máscara de gás. O cenário está demasiado verde na estrada da minha ingenuidade perdida. Têm grandes gráficos podia ser como eles. Fotorrealista. Dizem-me cima e direita. Positividade tóxica. Por todo o lado nas bermas, casas geminadas atravessam um bosque de magnólias do meu tamanho de adulto. A silhueta dos telhados forma-lhes com o céu uma dentada perfeita, branca e geométrica como a neve a cair do paradoxo celeste azul. Sorriso perfeito tarde de verão flocos de neve. Açúcar um gelado com a nata da sociedade se alguma vez o houve, está aqui! Na banda-som, pássaros campestres pontilham o bom gosto da Nona Sinfonia! Urbanidade! Cima e direita, sem passadismo até os cravos nas lapelas tocam e democratizam o coro num êxtase de igualdade de oportunidades.

Papéis de condições de entrada. "Destituição da inveja". "Penhorar o corpo, precisa de desaparecer para aparecer". Só preciso e sou preciso... "Todos contamos". "Saídas profissionais: Grande Unificação; Voltar a Casa". Uh?  Que raio de tretas, tetris e ESTAS CASAS SÃO FEITAS DE CORPOS!!! Merda, eu esqueço-me que estou a escrever um texto dentro de um filme e exclamo para fora da representação. Todos ouviram. O que vi. O negativo das promessas, o erro 404 de falar do Leviatã no meio da sala. Na praça pública devassa da via vida privada!

Cima e direita. Os porteiros e os parceiros aproximam-se. Mas de facto afinal um videojogo. E retrocedo. Na esquerda donde viera proibido passar uma rede súbita não estava lá exclama "propriedade pública". Reabro o espaço na memória do meu braço esquerdo partido, primeiro trauma, primeira dor e compreendo. Como tenho uma faca em reverso a deixar de doer, eu comi-a mesmo! As memórias e os média saltam-me a rede súbita para trás. O passeio de barco e o leopardo macio que os meus pais me compraram no jardim zoológico. Eu a confundir couves com alfaces e a minha avó a rir-se. Os resultados do Benfica no teletexto espreitados pelo empolgamento intervalar de olhos tapados com os dedos. Lanchar leite com bolachas e chocolate só para retomar o afogamento diário em canais de desenhos animados: Canal Panda e Disney Channel. Estar adoentado no quarto, tinha uns 7 anos, véspera de feriado ou fim de semana e o meu irmão chamar-me para o ver jogar e jogar The Sims no computador; tirar as escadas da piscina e dizimar famílias hahaha; não consigo ouvir o piano da faixa "Building Mode 1" sem ficar em frangalhos emocionais. 

O prisma bate - sístole/diástole - como um coração. 

Voltar a casa numa tarde livre do 9.º ano e aplacar-me à porta de entrada, sorrir porque isto está mesmo a acontecer, ela também gosta de mim. As noites de Verão no polidesportivo de Caria, jogar futebol com as pessoas de sempre e voltar a casa mole, leve numa reta de 200 metros onde podia pairar para sempre. Jogar, jogar e jogar Flatout 2 numas férias da Páscoa, no quarto e pc que costumavam ser do meu irmão entretanto universitário; a banda sonora com algumas das minhas bandas preferidas, Yellowcard (a "Breathing"!), Rise Against... A minha crise desistencial à beira do 12.º, projectar morte e decadência em qualquer acção; expurgar-me a escrever um poema; e quase desmanchar-me a chorar sem ninguém saber depois de marcar um golo pela UDB... por me sentir carne, importante. Estar com o J. no último dia de aulas do secundário, "falhámos a vida", sentados num banco a ver miúdos mais novos, pensar que para nós acabou e será que podíamos repetir para ser tudo melhor? 2014, tentar curar-me de uma rejeição amorosa na universidade, de volta a Caria e ver filmes pela pen na tv deitado no chão da sala; nocturno adentro, embalar-me em duplos empáticos e ficar lá a dormir até de manhã. Essa foi a última vez em que voltei a casa quando ela ainda não era... um espaço-tempo intermédio de um grande fantasma ampliador entre o passado e o presente. E eu detesto detesto detesto a mudança, o envelhecimento de tudo e todos, habitar uma bola de destruição interna quando (não) volto lá.

O prisma bate - sístole/diástole - como um coração. Os de cima e da direita perseguem-me! Saltam a rede e à medida que eu recuo e me movimento em reverso numa perspectiva em rolagem lateral, a cena assume-se completamente enquanto jogo de plataformas. Conforme aí, tenho que saltar para evitar que me atinjam com bóias de salvação... bem apertadinhas. Merda, reforços provêm até da esquerda. Anunciam-se porreiros, verdadeiro partido do progresso. Reanunciam-se Senhor@s muito letrad@s com o hábito de talhar a dizer que é para o meu próprio bem comum. Levo com uma bóia nos cornos, mas resisto. Vêm curar-me do hábito de falhar. Porque não sei nadar sem fazer ondas. Levo com uma segunda bóia nos cornos, o prisma racha e estremeço. Mas persisto. Fico frágil por isso "era bem melhor que nos deixasse repor a propriedade pública", sair daqui para que liderem o combate à lógica da dominação... sem a minha devassa da vida privada. Uh, e então o que me é o prisma?

Eu não sei, só estou a lutar o futuro. Esquerda, direita e cima fazem-me um cordão insanitário “porque não sou especial”. Culpam-me de ser um indivíduo. A rolagem automática e lateral do nível progride na sua própria volição, e eu tão espero chegar a casa. Já nem sei onde, mas cada vez mais perto. Espero que sim… e “Esperemos que se encontre bem, com saúde”. Quando o prisma dói eu também doo, mas bolas “É importante ver as coisas doutro prisma”. Pelo que a gramática me corrige gentilmente e capiche? Que só consigo conjugar o que sinto se me estiver a doar. “Não somos nós, nada pessoal contra si”. Salto e escapo. “É uma questão de qualidade”. E à medida que recuo em reverso, apenas perfeito o horizonte é só um manto de doce de abóbora. Da campânula do meu quarto a lanterna da minha cabeça vê-lhe VHSs de apofenia no céu. Iluminação, apenas perfeito, tinha cara de universo! “Tem de tridimensionalizar o carácter”. Não! Iluminação, estou a decrescer desta vez. Porque iluminação, estou a crescer outra vez! Doce ou desmesura, tratado de tudologia. Assim bem como o Schulz dizia: “amadurecer infância adentro”.

Mas tudo aquilo miragem, vidragem só. Não estou em casa “os especialistas recomendam, os especialistas aconselham”. Terceira vez, atingem a personagem, “não se preocupe tem armadura de enredo”. O prisma ressente um terramoto no espírito. O prisma quebra e eu colapso. *Aqui duas linhas já curadas*. Sem Melodrama, ser humilde, ok não vou falar de um buraco negro supermassivo não ter tacto nem tecto. Sei que o nada acredita em mim, mas para ser honesto, já não tenho palavras. Passam-se meses. Leva-me meses a conseguir retomar este texto. “Texto rejeitado”. Leva-me meses a chegar a esta parte do texto. Ao videojogo.

Eu lembro-me. Do som do amarelo dela a entrar no MSN. Lembro de cor. Do Lost in Translation no dia 14 de Setembro de 2011. À noite, na sala escura, o 12º ano a começar. Terminar inundado nos corais citadinos e electrónicos daquele desespero quieto. Sentei-me e senti-me lá. Alienação. Tudo no mesmo dia em que leakou o álbum Neighborhoods dos blink-182. O meu mais esperado de sempre. Acordar, descobrir e “comprar” na net. Eu religioso com os fones dentro dos lençóis. Não existir mais nada sem ser a experiência de si em si. O tema de um fantasma na pista de dança a abrir. A guitarra enérgica e condutora com um senso atmosférico a abrir: “I'll never let you down, boy, I'll never let you go”. O Mark a harmonizar com o Tom: “It's like the universe has left me without a place to go”. A sintonia com os últimos dias de então. Andava com morte na língua estragada de nem o conseguir explicar: “Without a hint of light to watch the movement glow”. Enfim, e comigo o mesmo: “At first, against my will, but God invented chills”.

Futebol futebol futebol! Um dia na escola falarem-me disto, “precisamos de pessoal na União”. O meu pai levar-me de novo a Belmonte depois das aulas. (O que se ia repetir milhentas vezes!) Já nem sei bem, algures antes de um feriado em Outubro de 2005. Tinha 12 anos. Ficar combinado treinar daí a uns dias. Depois ficar lá. 7 longos e curtos anos. Ainda hoje sinto falta de mais 7. Naquelas condições, e só ali, na UDB. Com todos os altos e baixos, das melhores coisas que fiz vivi na vida foi com muitas daquelas pessoas. Colegas, treinadores… Por mais que eu fosse mais de ficar no meu canto. Sentir que acreditavam em mim, puxarem por mim. Faces familiares. O ar de cheiro gelado no velho campo de terra batida; acordar cedo e empolgado aos sábados para esperar a carrinha de caminho para o jogo; a maneira como às vezes nos transcendíamos em jogos grandes. Os meus golos… Hoje não consigo enumerar a quantidade de sonhos em que me aparece uma bola de futebol pelo meio.

De volta aonde não sei só estou a lutar o futuro. O videojogo com prisma, rolagem e cordão insanitário. “Cuidado com o que come pode ganhar cáries”. Um penso desdobra-se em pensamento, porque estou pronto para me foderem outra vez... Não diz lá mas já “entreli”: “Estuque para todos os dias jazer na nossa própria casa”, lê-se no subtítulo da placa "filme". Daqueles que eu vi vi em demasiado. Vivi. E volto vulto. A minha boca um canteiro de dentes desvitalizados. A tentar escrever a poética da entrevista de desemprego. Uma em que me esquivo entre mais rachadelas no prisma, porque não não ficava tudo bem “se depois pudesse vender o filme a alguém”. Não não ficava tudo bem com um “hipotético pote de ouro”. Mas é assim, a Terra rota, alguma horda comemora a doutro derrota, mais um líder branqueia os dentes no x-acto de te limar as quedas. Para que possa ter penso desdobra-se em pensamento, porque estou pronto para me foderem outra vez... E eu perco, volto ao jogo mais milhentas vezes. Não é fácil, mas a tentar não cair no cliché de saber ser rejeitado crescer pela adversidade. Como um homem letrado. Bem adaptado. “Uma questão de qualidade”, “sem tema apropriado”, “este texto rejeitado”.

Dançante entre tiros de bóias mal posso expirar… mas posso tudo introjectar. Realizadores e directores vinham colaborativamente curar… um reptiliano populista infectado com vacinas 5G. Mais caem de pára-quedas, outros vêm de baixo zoopoeticamente devires-toupeiras sabem o que é estar deste lado. “Em que o seu privilégio nem está”, medem as minhas características de sujeito histórico. Vêm vêm vêm de baixo, subiram a pulso de lavar a boca com bem actuais linhas de investigação. E escarram-me em cima, sem um milímetro de saliva, com exímia correcção linguística. Como se não me escarrassem. Sismos atrás de sismos no espírito. Dane-se, estou demasiado 50 por centro eu 50 por cento trauma... à medida que me torno nas reputadas palavras premiadas de um senhor sobre mim. Mas este vive no céu sem viver no céu. E nunca escolhi nascer, mas ninguém escolheu por isso está tudo bem… Mais, para ser perfeitamento honesto, “Nunca escolhi morrer dói mais”. Ainda assim, se me for permitido, nada contra. Eu estar no banho de imersão e desacordar com uma máquina de corrente de consciência ligada. Tosta humana. Acabar isto aqui e agora. Não mais tentar recuar na estrada. Não mais tentar voltar a casa. Porque não me sai nada pela via do sacro. Nem merda sagrada. Porque introjectei drones helicópteros na consciência de ser sempre uma merda insuficiente.

Eu lembro-me. Da noite de Dezembro de 2009 quando nevou em Caria, coisa rara. Férias de Natal. Os quatro em casa. Uma enxurrada de fotografias fixes do meu irmão. E quando olho para o nocturno alaranjado daquela recta branqueada, eu ainda devaneio “Isto vai sempre ser casa”. Ou “There’s no place like home”. Concordo, mas porque já não há três cliques que bastem. Não fiz som ao sair não consigo voltar. Ao globo de neve melancólico onde me aconchegava a ouvir Straylight Run. Quando eu ainda não lutava o futuro, com febre ligeira e músculos doridos de adormecer a contar… com a minha própria versão escolar da “Existentialism On Prom Night”. E devia ser bem a substância desta memória que me estava a despontar, quando a tentar voltar projectei no videojogo: “apenas perfeito o horizonte é só um manto de doce de abóbora”. Mas tudo aquilo miragem, vidragem só. Um tiro, estilhaços de prisma ficar ainda pior. Cair para debaixo do chão. Olá a mais um daqueles momentos em que a cabeça é uma espiral de raiva sem corpo só angústia exangue. Sou EU 404. Ainda pior.

Dane-se esta última memória, olho para aquela foto da estrada com holofotes de tigres convergentes e parece-me que era adeus. O plano final a correr sem os créditos finais da minha juventude perdida… para longe de mim. Faltou dinamite. Dinamite para me dizer: “isto é o fim”, mnemónica do apocalipse do teu quarto crescente. Enterrem-me lá, lençol de fantasma por debaixo da cor do chão. Só que sem cair. “Mnemónica do apocalipse”. “Mnemónica do apocalipse”. “Mnemónica do apocalipse”. Algo me diz algo aí, não sei bem. Olho para aquela foto sem a ver desde que vim para Coimbra, universidade.

De novo em jogo mais do mesmo. Prometemos melhores gráficos. Tridimensionalizar o seu hábito de falhar. Uma questão de percepção, coisas boas, foque-se nas das nossas obras. Não há maçaneta B. Nem aspas, já mal distingo o eudoeles. Em jeito de introjectar bem assim. Ninguém me fez nada eu é que sou insano ninguém me fez nada eu é que sou insano ninguém me fez nada eu é que sou insano. Insano numa trela e cordão. Mas aí vêm mais. As forças do realismo, pluridireccionais. Numa grande diversidade de roupas mantêm o hábito de talhar. Educar-me educação, para o meu próprio bem delas. Aí vem outra bala, directa ao coração da minha dívida de gratidão. Cobra-a quem me dá as coisas que me tira, e se me portar bem, porque se há porta, maçaneta e casa é à maneira do estômago de quem fica por fora. Comigo lá dentro não existo cá fora. Só tenho a minha própria consciência. De ver o mundo lavar esta merda toda. Só porque diz democracia num pin de lapela. Porque somos todos iguais consoante a dignidade do cargo… que te pesa em cima. Porque então a democracia sempre existiu chegado aqui tenho metal na boca demasiado doentio isto tem de parar! Ali na estrada, só estou a lutar o futuro, fada a flutuar na bidimensionalidade da minha qualidade gráfica. Degrado-me num sprite, e tudo melhor por isso. Finalmente! Acho que desta vez vai dar. Para voltar. 

Só estou a lutar o futuro. Porque falta-me voltar para fazer luto. Por todo o lado nas bermas, um bosque de magnólias do meu tamanho de infância germina sobre as casas geminadas. O mundo perde linhas na testa da estrada, não há lugar como um. Uma única casa (esquivo-me) ao fundo, a luz do meu quarto crescente ligada. Ainda em reverso, da sepultura à aventura as minhas sapatilhas crocantes nas folhas de Outono de mais mil Setembros adolescentes. Linda coisa frágil, porque eu tão adoro não saber o que não vai acontecer, quando saía de casa para à escola e sabia que ia vou voltar. O prisma. O prisma bate - sístole/diástole - como um coração. O prisma é a minha faca em reverso. E sinto sangue no meu tudo. Então…

Eu lembro-me. De demasiado já sem ter vontade de fabulizar a descrição para fazer de conta que não estou a escrever para mim mesmo. Factos: isto morre comigo e sem isto eu morro. 2000 ou 2001: aquela tarde em que colegas da primária me tocaram à campainha para ir brincar com eles num largo e assim fui empolgamento (sim, isto constitui um evento para uma criança eremita). Outubro/Novembro de 2006: tudo bem interneticamemte technicolor ao interessar-me por blink-182 a sério a partir da “I Miss You” na playlist de uma rapariga desconhecida no Hi5. Verão de 2008: noite e cama, com janelas abertas, num dos meus últimos espantos de aventura infantil, navegar a caneta e o barco de The Legend of Zelda: Phantom Hourglass para a Nintendo DS. Maio de 2009: descumprir os horários de sono impostos pela minha mãe, esgueirar-me do meu quarto para começar a ver Lost – a.k.a. gente quebrada encontra-se razão recíproca – no computador do quarto ao lado. Sem sentido tentar esventrar a incomunicabilidade do que só viveu e vive em mim. Um dia se ainda me apetecer vou escrever. Relatório autobiográfico, uma lista de apontamentos antes de só restar uma lista de desapontamentos. Poucas frases: um videojogo, uma série, uma canção, uma ambiência, um acontecimento, uma foto, uma pessoa. Ou junções disto. Tentar destilar a impressão essencial que é a razão de ser de dada lembrança.

Depois posso morrer… como em San Junipero. Canções pessoas filmes livros preferidos. Flores onde deviam estar flores, caras onde deviam estar caras, não quero saber é tudo diferente para mim! Quase 30 danos mas a ausência não é um. Apareço! O fim está perto a minha casa fica mesmo ali. “Do plano da representação à representação como plano”, o que a fina flor da sociedade te faz mas não diz, e algures eu lembro-me da T. dizer. A T. T de Tudo. Magnólia humana. Como precisamos do contrário. Da representação como plano ao plano da representação, e algures eu lembro-me...  “Mnemónica do apocalipse”, “mnemónica do apocalipse”, “mnemónica do apocalipse”! “Eu sou aqui”, lê-se no intertítulo dos meus olhos fechados.

Bem quando me preparo para a ajustar, a minha mochila contém a bala de uma última bóia. Sem miosótis sem dentes de leite sem mochila. Eu venho. Sem bagagem tenho de a deixar no chão percebo. Agora percebo. Sem máscara de gás a personagem abandona o cenário de uma estrada impedida. Abre abro o portão e, intermitente, às vezes nem duas dimensões. Não é sou um velho acabado antes do tempo: semi-paralítico, semi-patético. Não é estou tão farto hiato de dizer que um dia vai ser diferente. Nada sabe a tudo sabe ao desvanecimento longo de um clímax a vida à beira dos 30. Arqueóloga do banal, a personagem do videojogo entra pela portão e a magnólia. Quer ser pequena, farta de grandiosidade. Ouve-se uma canção melancólica de midwest emo anos 90. The Promise Ring – “Forget Me”, vai assim:

“Where forget-me-nots and marigolds
And other things that don't get old
Just don't get old
But between one June and September
You're all I remember
But I'm a lantern, my head a moon, I married a room
I married a room”

Abre a porta de casa. Entra. Casa, não há lugar como… Todas as banalidades, todos os momentos em que quis uma câmara interna e prometi a mim mesmo recordar-me desta precisa sensação, mas não vou, não lembro... e cada vez menos. Fora de mim. Mais dentro da terra. Velho. Estão todos lá, todas as minhas versões preferidas. O meu irmão a minha mãe o meu pai a minha gata Princesa o meu gato Tobias. A T. e o T. Ts de tudo. Tudo e todos ao mesmo tempo. Um dia não ia ser diferente. Não vai. Só pedia aquilo. Sem vida cortada em dois, ventrecasa. Sobe subo as escadas, luz ligada. 2011 há um adolescente depois da escola a descobrir e ouvir  The Promise Ring – “Forget Me” nos fones no quarto. Entro-lhe na silhueta. 2022 Já há um adulto a ver o filme My Winnipeg no quarto ao lado. Um filme sobre aqui era aquilo, ali era isto, mas também ver um mesmo edifício de há anos e ver o que já não se vê lá, esse tal pano de fundo numa foto mais importante que as pessoas nelas. Entro-lhe na silhueta. Afinal, a casa de infância é o tempo em que cada um podia ser tudo. Deixa haver sangue deixo haver sangue. Desalfabeto, eu também doo e doo bem. Desintegração, fico sem barba, só heras a unir miosótis. Tantas queridas catacreses de monstro sonâmbulo! a Princesa miou lá em baixo…

1999 Desço as escadas, há uma criança a jogar um jogo de plataformas na consola da sala. Entro-lhe na silhueta. Um dia a campainha toca, levanto-me representado e com veias e a minha mãe chegou do trabalho. Chuva torrencial. É Setembro e Junho ao mesmo tempo. Faz Sol corre corro corri para ir brincar para à rua. Um dia caiu-me um dente de leite numa miosótis. Não te esqueças. Mnemónica do apocalipse o mundo lá fora era o mundo cá dentro tinha cara de flor. Eu apenas sorri. Sorrio o sorriso do teu dente torto perdido onde deviam estar falhas. Mas, rapaz azul, só mesmo porque me esqueci. 

 


domingo, 6 de fevereiro de 2022

Da Necessidade De Uma Auto-Etnografia Académica...

... ou como os poucos com uma réstia de decência num antro de sociopatas egomaníacos e falocêntricos disfarçados de "bem-comum", "colectivo", "progresso" e "inovação" admitem alguma coisa. Admitem para logo recuar... mas admitem: publicamente, para fora dos seus gabinetes e salas onde concretizam o seu projecto existencial de açambarcar áreas de estudo, trabalho e vidas. 

O excerto inicial do texto do David Graeber que transcrevo abaixo vai muito brevemente nesse sentido - intitula-se "Anarchism, academia, and the avant-garde". De resto acaba por se dedicar à harmonia entre "marxistas"/vanguardismos e uma instituição em que a nata desta sociedade digladia por posições de liderança. O mesmo é dizer, dentro dos quase todos que o fazem, quem consegue colocar mais abusos sexuais, assédios morais, promessas, esperanças, cunhas, gratidão, planos partilhados de ascensão social ou dependências fictícias com pessoas "legalizadas" inferiores dentro de uma caixa negra e fazer o sistema correr como se nada disso se passasse? Hoje mais do que nunca a lógica é a do soft power, a praga dos que "lideram sem autoridade", qual idílico rizoma dentro do superado Leviathan. Por norma são os piores, por detrás dos que já estão tão confortáveis e que se dão ao luxo de nem sofisticar o seu "brutamontes interno" (mas ainda assim precisando de ocultar assédios sexuais em série numa silva qualquer ou cairia a figura mitográfica dos génios individuais de feitio complicado), ficam os "bons"... que protegem os anteriores... Progressistas, simpáticos, preocupados, pós-humanistas, uma voz terna e calma... Libertários, estetas, poliperspectivistas que entendem todas as posições num debate e sabem gerir o que dizer e (não) fazer consoante o indivíduo ou colectivo à frente.

E depois a mínima ameaça de um qualquer merdoso enganado, manipulado e chantageado firma-se o fim do mundo em cuecas para os "bons" (que afinal são como os anteriores) a tremer pelas varas. Mais mais e mais: manipulação e chantagem... Tenho de ficar por aqui. Enfim, retomando o texto do Graeber, o problema está na conformação com o aburguesamento. E há uma distância entre "suicídio académico" e forçar a corda, uma diferença ética em não querer expor a ruína íntima do próprio assédio sofrido e calar-me ou compactuar perante a tentativa de denúncia de alguém ao lado. 

Mais até, se uma carreira universitária é essa monstruosa "situation of power", fazer parte dela aceitando um papel reprodutivo de exclusão, chantagem e absorção (decidir bolsas, empregos, artigos, comunicações alheias, lucrar com a centralização do trabalho dos outros...) é ser e incorporar esse monstro institucional. Entre ter de ser explorado e um suposto ter de ser que se firma antes num poder ser explorador, não há dúvidas. A coisa já está cheia dos diferentes que vão mudar as coisas por dentro, inclusive daqueles cujo corpo-mártir vem representar um golpe à negação de poder e um compensar da exploração histórica de um qualquer traço identitário em que se inserem. A instituição e o cargo firmam-se a segunda pele, a necessidade fisiológica de autopreservação e legado. Não há mudar dentro, fora ou os interstícios do meio do limbo sem abdicação e/ou sabotagem.

De certo modo, o massivo movimento dos 99% do qual o Graeber foi um elemento - não obstante a importância da prefiguração organizativa horizontal e de acções grupais conforme bloquear a hipoteca de casas  - "prefigura" também o problema. "Riqueza" não se circunscreve à brutal desigualdade financeira nacional/global encabeçada por magnatas ou uma micro-elite político/burocrática conivente. Implica aqueles que detêm os meios, as propriedades e as instituições sob a forma de proprietários ou proprietários temporários a que chamamos representantes. Os júris daquilo, os empregadores de acolá, os intermediários de tudo e mais alguma coisa que decidem e legitimam a subjugação dos demais, os seus empregos subalternos, a sua roupa de acordo com que marca y quer projectar, a sua livre-expressão  esmagada pelo temor da difamação e do ir de vela, o seu baixo salário consoante as impossibilidades micro- ou macro- económicas que não se aplicam à própria "classe média-alta". Isto tudo sobretudo se considerarmos o "prestígio" (palavra cancerígena) atribuído a certas carreiras. São o sustento desta bosta toda (da esquerda à direita): os grandes professores universitários, grandes juízes, grandes advogados, grandes médicos... que, obviamente, desembocam nos grandes políticos (que já eles mesmos incorporam nos cargos de gestão dos seus "pequenos" burgos)... mas esses ainda são os únicos com o mínimo de escrutínio e responsabilização extracorporativistas. 

Uma jovem não-sábia disse-me uma vez que o homo academicus pode sempre bem com disputas de poder entre "catedrismos", a verdadeira ameaça está em quem não o quer disputar mas amputar. É isso que falta fazer... Transcrevo finalmente o referido texto:

Initially, I was to write a critical auto-ethnography of my life in the academy. But I quickly realized that writing critically about the academy is almost impossible. During the 1980s, we all became used to the idea of reflexive anthropology, the effort to probe behind the apparent authority of ethnographic texts to reveal the complex relations of power and domination that went into making them. The result was an outpouring of ethnographic meditations on the politics of fieldwork. But even as a graduate student, it always seemed to me there was something oddly missing here. Ethnographic texts, after all, are not actually written in the field. They are written at universities. Reflexive anthropology, however, almost never had anything to say about the power relations under which these texts were actually composed.

In retrospect, the reason seems simple enough: when one is in the field, all the power is on one side – or at least, could easily be imagined as being so. To meditate on one’s own power is not going to offend anyone (in fact, it’s something of a classic upper-middle-class preoccupation), and even if it does, there’s likely nothing those who are offended can do about it. The moment one returns from the field and begins writing, however, the power relations are reversed. While one is writing his or her dissertation, one is, typically, a penniless graduate student, whose entire career could very possibly be destroyed by one impolitic interaction with a committee member. While one is transforming the dissertation into a book, one is typically an adjunct or untenured Assistant Professor, desperately trying not to step on any powerful toes and land a real permanent job. Any anthropologist in such a situation will, in fact, mostly likely spend many hours developing complex, nuanced, and extremely detailed ethnographic analyses of the power relations this entails, but that critique can never, by defi nition, be published, because anyone who did so would be committing academic suicide.

One can only imagine the fate of, say, a female graduate student who wrote an essay documenting the sexual politics of her department, let alone the sexual overtures of her committee members, or, say, one of working-class background who published a description of the practices of Marxist professors who regularly cite Pierre Bourdieu’s (1993) analyses of the reproduction of class privilege in academic settings, and then in their actual lives act as if Bourdieu had been writing a how-to book instead of a critique. By the time one is a senior faculty member, and thus secure in their position, one might be able to get away with publishing such an analysis. But by then – unless one is reminiscing – one’s very situation of power guarantees the object can no longer be perceived.

On the one hand, my thoughts lead me to the conclusion that it would be safer to admit to being an anarchist than to write an honest auto-ethnography of the academy. On the other hand, I am an anarchist. And it strikes me that the dilemmas that come out of this reality provide an interesting commentary on the academy and its modus operandi, which I present in this chapter. [...]

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Pluralismo Leviatitânico

Quando serendipidamente volto ou por força de trabalhos tenho de regressar ao que escrevi há uns anos sobre opressões sociais e angústias existenciais, tenho pena de mim mesmo. Gostava que essa autocomiseração fosse tão-só um "oh, o quanto eu era ingénuo", o paternalismo experiente doutrem injectado em mim. Há algo disso sim, mas pela parte maior, sempre fui um cínico com esperança desde a adolescência; um molho de contradições repugnantes, discriminatórias e hierárquicas na pele absurda e surda de quem pouco as sentiu. Dentro ficavam os ossos quebrados de um anarquista triste que não tinha palavras para o saber ser: a escola tirou-mas, a educação partiu-mos na indistinção entre a pancadaria gratuita no recreio com acessos gritados de liderança e grandes contos cautelares sobre a monstruosidade de um individualismo circunscrito a ser o meu corpo no mundo.

Foi é sempre esse o plano, aproveitar o desconto da infância, a fatalidade biológica de teres formigueiros no cérebro. A luz de alguém ou findas: fome, violado, um bife bem passado na estrada do lado. Um capuchinho vermelho. Pois que alguém lidere (a falta de sangue). Professores pais, família e pólis. A dupla injunção (des)atávica: "sê como o pai mas não sejas como o pai". E então aprendes, a apertar os atacadores. Os teus, de um amigo colega cooperação até que um dia faças antes sapatos na fábrica de um grande amigo Deus... emprega-te. Porque isso.

Respeita-o sê democrático somos todos iguais. E acho mesmo que vem daí, a escola compactuar com uma certa dose de bullying - entre estudantes -, só suficiente para ser invisível na TV. O bullying está-lhe no exangue da inevitabilidade hierárquica, dos professores fatalizados a desformigarem-te o cérebro onde acordas desabituado do mundo... vindo de um ventre qualquer. Estou a especular. No espelho de te mostrarem monstrarem como se faz... e faz-se comendo. "Vês como precisas da nossa superioridade para travar agressores", disseram todos os directores hipotéticos. (Que dispunham de todos os meios hipotéticos que não pudeste usar para travar agressores). E um esbofateou-me, o outro humilhou-me com o holofote expropriado da minha própria voz. Nunca se soube nunca houve. Mais, fosse esse o caso... "Temos de confiar no Estado de Direito, a justiça não se faz na praça pública", disse toda a injustiça no gabinete. Enfim, reconheço, não sei bem. Talvez haja um fundo de inevitabilidade e faça falta um líder fraco para pôr ordem na caça. Algo minimalista mesmo em adultos há adultos trastes. Mas cada merda de revolução degenera regenera na instituição da necessidade alargada. "Do meu salário a definir o teu", disseram todos os índices estatísticos de todos os que dizem: "O nosso corpo, as minhas regras".

Mas que génio quem se lembrou primeiro ser plural é ser "O teu trabalho à minha mangueira, a tua expressão à minha maneira". Icónico visionário humanista progressista. Era esse o plano, tirei-lhe o pano. E fui a tribunal por reclamar no meio. Da sala dele. Merda merda merda era esse o plano. Quando eu era novo. A escola nunca a "imolação progressiva da autoridade", sempre a "normalização progressiva da superioridade". Sem pancadaria gratuita no recreio sem acessos gritados de liderança, civilizar a coisa no salvífico de um individualismo possessivo que se circunscreve a ser o nosso corpo no mundo. Chamar-lhe comunitário chamar-lhe o homem que soube colocar-se no sapato dos outros. 

E de alguma maneira, voltaste. Voltaste a um ventre qualquer podes mudar daqui a 4 anos. A tua carne de cão domesticado para o ventre do lado. Era esse o plano. Foder o lobo durante o processo. Foder o lobo durante o processo. Até ao osso. O homem fode o lobo porque o homem é lobo do homem. O homem fode o lobo porque o homem é lobo do homem. Esta é a natureza humana: inventar uma para justificar a sua contradição. Hoje não te esqueças. Ser plural é soprar as velas ao corpo que te apaga a luz. Não pagaste. Se não gostares podes sempre. Crescer um ventre ou ser um bife bem passado na estrada do lado. Adultos representação podemos voltar lá, e vale a pena sonhar. Se num brilhante carro leviatitânico a olhar para mim sem me ver. Porque agora o Estado das coisas está em todo o lado. Nenhum. E e e ... Eu estou sinceramente finito de escolher entre a perda e a pedra numa urna que medra a neotenia conceptual do meu querido corpo de endosso.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Como Um Estranho A Olhar Para Mim Sem Me Ver #2

Nalguns dias preciso desesperado de oxigénio. Sinto-me tão feito, rarefeito, desfeito. Honestamente mal tenho palavras. E não prestam. Nunca chegam e nunca acabam a totalizar este monstro. Detesto como isto sabe no corpo: o velho nó na garganta, o peito a aproximar-se dela em fogachos de calor e ardor, o gosto seco na boca. Alguma coisa prestes a rebentar, mas nunca rebenta. A sensação de impotência, de impossibilidade, de inexorabilidade. Como quando tinha 9 anos e percebi mas percebi a sério que um dia vamos todos morrer: perder o apetite, perder a ideia que os meus pais eram super-heróis, perder o conto de fadas que o que acontece a toda a gente não te vai acontecer a ti também. Estar no banco de trás do carro de regresso a casa após compras e parecer que comprei todo o escuro da vida para todo o sempre. Absoluto niilismo. Como se fosse eu o céu nocturno que via daquela vidraça. Um escarro disforme e dissoluto e abaixo os dentes aguçados da Serra da Estrela, com raízes vindas do céu-breu. O carro inferior mil metros e meio, plano numa recta rumo a lado nenhum. Toda a gente vai lá viver. Até quem lá vive antes de lá viver. 

Eventualmente, adaptas-te, sobrevives. "Ainda és tão novo", introjectas bem. Aprendes a viver vicário em séries, filmes e videojogos de conforto. Entre bullying escolar e esquemas nojentos por popularidade de clones do que um adolescente deve ser e fazer, aprendes. Entre estudar para os testes, absorver a lógica do teste e do avaliado e reconhecer (o medo) da figura de autoridade "professor", sonhas. Entre efectivamente aprenderes sem perceber que estás efectivamente e sobretudo a ser domesticado para um dia servires e produzires a grandeza de alguém... Nem sonhas. Que nada do que saibas fazer importa enquanto contributo e expressão comunitária directa. Boa sorte em encontrar a "qualidade" e a "subsistência" fora da correspondência à intermediação institucional, vantajosa e glutónica... de um patrão, de um director, de um presidente, de um coordenador de curso e demais pestes. Um colectivo retórico. Porque melhor mesmo que "igualdade" é a ficção representativa de um "presidente da comissão para a igualdade social". E se parecer mal, anacrónico o suficiente, muda-lhe o género ou chama-lhe só mesmo "comissão para a igualdade social" dos trinta oligarcas sem líder individual. Vão lutar. Lutar por milénios fora por mais milénios da mesma merda. Reduzirem-te a isso: merda. Merda fértil taxidermia só casino dos poucos. Que existem.

Tens 16 e, verdade seja dita, não és flor que se cheire. Mas está a tua frente. Está à tua frente, como o idiota do director da tua escola secundária. Com os seus grandes discursos sobre os melhores resultados nos exames nacionais no concelho ao mesmo tempo que abafa assaltos e tentativas de assalto, violência, condições miseráveis nos balneários ou equipamentos de educação física. Só tens nojo. Só queres distância. Aquilo não é vida. Vês um pouco o mesmo filme todos os dias todas as noites todos os telejornais todos os partidos políticos. Salvar a face. Porque os pais protegem, podes esquecer; porque a escola entorpece, esqueces. Queres-te safar. Pensar em ti, pensar no futuro. Percebes essa parte, não computas as tácticas, a instrumentalização, pisar quem der para pisar até fundares as escadas privilegiadas da tua própria ascensão. Prontas a inaugurar com a fita vermelha do sangue dos outros. Corta. Corta bem. E anota bem. Mais que tudo, sonhas. Sonhas durante o dia, no duplo ideal do que podia estar a acontecer. A solidão que sentes, as raparigas de que gostas invisivelmente e os amigos que não tens. Vais vê-los e ouvi-los em todos os fones e filmes de todos os metaversos possíveis. No intervalo das aulas, na vidraça do autocarro, no teu quarto-encubadora. É. Não sou menos um clone mediático adolescente dum beijo na chuva, uma cabana na árvore, contos de terror numa fogueira circular dentro do Verão e da floresta. Brilha tudo tão claro! "Vês demasiados filmes!" Vi demasiados filmes. Mas não viste o maior deles todos, uns trastes bem pensantes em trajes a escrever a ficção da realidade diária. Enquanto escreves no diário, os cadernos do rapaz impossível. Aquele Estado ecuménico, das tuas canções preferidas e lá dentro... As tuas pessoas preferidas. Chora fácil chora frágil, a angústia passional de um miúdo numa sexta-feira à noite. No quarto comigo, o cenário é planetário. Cantamos juntos: entre os anéis de Saturno, as memórias bailam com as expectativas defronte. Enfim, sentires-te importante na tua avassaladora diminuição. És de ti mesmo.

Mas olha que não viste mesmo. "Uma Chapada da Realidade", um clássico cinematográfico produzido por privilegiados que te incluem discursivamente entre os privilegiados para denegar a sua agência absorcionista numa estrutura que se confunde com a sua própria pele. Aumentada. Bilhetes à venda nos lugares de trabalho habituais. Já em exibição em gabinetes perto de si.

A pior parte? A pior parte é ver a psiquiatrização da opressão surtir efeito. Quando um monstro te prostra, chantageia, censura e ameaça a tua subsistência e não podes denunciar, ele entra dentro de ti. Introjectas bem. Introjecto bem. Os actos, os estratagemas, os compinchas & compactuantes, tornas-te os comprimidos que ele te pergunta se andas a tomar. À luz do gás pensas, "então ele tem razão", "então eu sou louco". E todas as instituições vão tão adorar dizer: "é a habitual crise de doutoramento a meio do percurso"; "é comum um doutorando ter problemas de saúde mental ao desenvolver a sua tese, face à pressão envolvida na escrita da mesma".

Engole mil "todos passamos por isso", mil "misérias em conjunto"! Excita-te com isso. "Sê humilde nas tuas denúncias perante um mártir sempre impossível do alguém que sofreu mais e a sério". "Sai da tua bolha" (de comeres todos os dias a solidão e incredulidade normalizantes de hierarquias sobre as quais produzimos extraordinários raciocínios abstractos sob a forma de artigos e comunicações académicas cuja existência controlamos oligarquicamente via peer review que pode sentenciar o teu trabalho como não-trabalho). Ousa levantar a cabeça, ripostar e vê percebe todas as instâncias canais institucionais comunicativos como uma extensão de quem detém os meios. Prova desprezo, a sobremesa é silêncio. Processos de auto-avaliação com alunos escolhidos a dedo, branqueamento de assédio sexual, inflação e fraudes nas notas de seminários, usar redes internacionais de endogamia para publicar sem endogamia, mudar de opinião consoante a pessoa que se tem à frente, falsificação de identidade para te tentarem acusar de escrever um texto que não escreveste, perguntarem-te quem gostavas de ter no júri da prova, ser roubado num prémio de mérito importante para quem é esmagado de todos os ângulos, ser proibido de usar um powerpoint enquanto método de apresentação por um "grande defensor da liberdade de métodos"... Já não ter paciência para enumerar tudo. Mas vai chegar o dia. Vai. 

Como eu vou vendo bem, afinal por de trás da enorme sapiência científica em área x. Uma pessoa com a sensibilidade e a capacidade de reflexão social de um troglodita. Uma no meio de doutos doutores trogloditas afins. A ilusão de progresso. Puxa à esquerda, puxa à direita institucionais: qual barra de volume da treta do meu pc, "quanta desigualdade da qual o meu jugo se firma já inquestionável é aceitável"?. E aqui bem na academia, o melhor (para eles) de dois mundos. O prestígio, a reputação, todas essas palavras de merda dignas de uma república monárquica para os definir. Mas sem escrutínio público. Rostos desconhecidos reserva. Inquestionados e bajulados. "Não é só aqui". "É mesmo assim, o conhecimento científico deve ser abstracto, o calunioso e o anedótico não têm lugar na universidade"."É normal, diferentes concepções de verdades entram na contenda pela sua hegemonia discursiva, senda a sua só mais uma". "Não está aberto à pluralidade" monolítica que o subjuga

A pior parte? A pior parte é só escrever isto aos 28 anos. Escrever como quem diz fazer sentido da repulsa institucional que já sentia aos 16. Racionalizar a percepção da injustiça. E o quanto da minha própria sempiterna ansiedade social brota da invenção das "figuras de autoridade" enquanto intimidação. Porque, "parece", não há conhecimento técnico sem o seu direito a ganhar mais e a controlar sempre: a sub-vida dos outros. Mas mas mas, o elitismo nunca foi status quo de nada e, bolas, já estou a ser anti-intelectual. Como o que diz John Rawls: "as desigualdades sociais e económicas devem estar dispostas de modo que ambas são: (a) para o maior benefício dos menos favorecidos, consistente com o princípio de economias justas e (b) atreladas a cargos e posições abertos a todos em condições de justa igualdade de oportunidades". Santa benevolência! Venha providência! Não só beneficiar com a desinteressada superioridade dos outros. Também poder sonhar ser poder! Falta só mesmo: criar o Éden da igualdade de oportunidades para poder legitimar a desigualdade daí decorrente: pela área laboral ou de estudo, pelo mérito do networking, pela nobreza dos grandes estadistas de servir a res publica.

Se uma lei da selva cai na cidade e todos estão perto para ouvir ou ver, será que a lei da selva caiu mesmo? Gostava de ter sabido antes... o bullying escolar, a hipocrisia e os concursos de popularidade adolescente... A inevitável conexão crescente entre as grades da escola e as grades do mundo laboral-institucional. A mesma sensação elevada ao cubo da impotência, impossibilidade e inexorabilidade. Detesto como isto sabe no corpo: o velho nó na garganta, o peito a aproximar-se dela em fogachos de calor e ardor, o gosto seco na boca. Alguma coisa prestes a rebentar, mas nunca rebenta. Como quando aos 9 captei que um dia vamos todos morrer. Agora uma perplexidade embebida de raiva: não tinha de ser assim!; toda a gente vê mas ninguém faz nada. Jogos nojentos de popularidade. A versão passada de clones do que um adolescente deve ser e fazer. Tal e qual um dia uns poucos da minha geração vão estar lá em peso. Não, não há diferença moral entre um "povo" e uma "elite", há correspondência perversa na mera existência de elite. Quando se está na posição em que estou na universidade e quando vejo colegas a calarem-se sistematicamente perante abusos de professores, é fácil ver a reprodução social. Entre a gratidão e a indiferença, passam progressivamente para a categoria da perversidade inerente ao cargo. 

Gostava de ter sido alertado, de ter sido educado para este status quo. Mas, pensando bem, talvez isso significasse a inexistência hegemónica e normalizante do que vivo agora. Não o estaria a viver ou, na pior das hipóteses, teria crescido, junto com muitos outros, com os leucócitos necessários, com a agressividade precisa para deitar abaixo uma lógica institucional que se auto-intitula (LOL) como garante da liberdade e da igualdade. Sem dissonância cognitiva, teria percebido aos 16 que o tal filme supostamente chamado "Uma Chapada da Realidade" se designava afinal "Chocolatinhos da Ideologia". Teria computado a narrativa dos constrangimentos do cenário macroeconómico só aplicada a quem está na merda; a lógica da manifestação ritualizada e amansada por feriados ou dias históricos; a cisão dual entre protesto pacífico e violento como se só existisse segurar um cartaz pela rua vs. agredir alguém e incendiar; a figura jurídica da difamação enquanto protectora de gente poderosa num sistema judicial reprodutor da opressão; o sufrágio universal ora anulado por cadeias de nomeações governativas e listas partidárias ora instrumentalizado para legitimar, por exemplo, a exploração laboral enquanto válida escolha social; a pilha de documentação privada e reuniões à porta fechada por parte de órgãos que se dizem representativos; as possibilidades laborais enquanto algo que um conjunto de gestores superiores permite a quem quer entrar em vez de toda a sociedade se reorganizar para os acomodar, sem porteiros para lá de um necessário período de formação reduzido no tempo; a universidade como aristocracia do século XXI.

Quando a porta é fechada, a sala é de alguém. E ser esse alguém é ser tempo, é ser espaço, é ser o corpo dentro de pessoas como eu, agora. Tenho pontos na boca, mas estou morto por falar. Com nomes e caras, com detalhes, publicamente. Cansei-me para a vida de pedir, pedinchar. Chama-se ser roubado. Acordar todos os dias, experienciar todos os dias com actos, pessoas e estruturas na cabeça, no hálito respiratório metálico e carcerário. Já passaram anos desde que tudo isto rebentou e algo se foi que não vejo como poderá um dia voltar. Detesto sentir-me desimportante para mim mesmo. Sem ser adoecer e ter os órgãos a tornarem-se simulacros da percepção da morte (ou vê-lo acontecer a alguém querido) - como quando tinha 9 anos mas agora com decadência e dor palpáveis -, não há pior. Não há pior e, contudo, tem tudo para piorar quando deixar de ter bolsa e acabar o curso. A pior parte? A pior parte é mesmo ver a psiquiatrização da opressão surtir efeito. Passar a ter nada mais que alguns dias menos maus, como se tivesses uma horrível doença crónica. É isso que são algumas pessoas, uma doença que coloniza uma existência já vexada ao sofrimento físico. 

Eu sou fraco, eu sou frágil, eu sou a fragilidade. Mas como o cão maltratado que a certa altura morde o dono, comecei a ganhar as minhas defesas ao longo do último ano. É demasiado fácil deitar-me ainda mais abaixo, tudo é uma réplica em cadeia de sincronicidade com o trauma que se vai acumulando atrás, mas até a isso acabas por te habituar. Encho-me de angústia geológica. A raiva, a repulsa e o desejo de justiça não são menores nem antitéticos à tristeza, ao vazio e ao abatimento. As coisas más continuam a suceder-se e eu continuo a piorar para de vez em quando melhorar um bocadinho. Nada mais. Às vezes repito a mim mesmo dezenas de vezes que vão pagar por tudo com a devida exposição pública - TODOS ELES. Vão ser expostos vão ser expostos vão ser expostos vão ser expostos! Nem que tenha de me arruinar ainda mais! Vou tanto comer o seu espaço e tempo quanto este impulso adjacente e demolidor pela autodestruição. Às vezes adoro-o doentiamente! Para já, tenho muito trabalho pela frente. E, agora mesmo, mais uns dias particularmente maus e não-produtivos pela frente. A escumalha deles está forte nas veias, sinto-me demasiado assim para estruturar o meu acto de haraquiri. Apenas depois, aí, poderei ter uma réstia de vislumbre de hipótese de talvez não ter este gosto metálico omnipresente no dia-a-dia.