quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Ruptura Adolescente

Ruptura Adolescente
 
Sentimentos que passam à velocidade da luz
Na berma de uma estrada armadilhada por lobos solitários.
É a certeza da vivência num lugar errado
Para a incerteza da existência de um lugar correcto...

Confidências que oiço de cada vítima rendida à carruagem mais curta
Na borda de um precipício que força a sua própria queda.
É fitar as estrelas numa melancólica noite de Verão
Para saber que o seu significado puro fugiu com a infância...

Fluxos de cartas agorafóbicas que se esquecem do destinatário
Numa aresta baloiçante em que as letras sucumbem perante a multidão.
É suster a respiração por qualquer cavalo branco galopante
Para acreditar que o ar do oceano se converterá colorido...

Réplicas de sismos que prometi a mim mesmo olvidar
Numa cidade de um só homem em que o herói é derrotado pela sombra.
É querer viver por um motivo maior do que eu
Para encontrar um paraíso terreno de realização!

Murmúrios de um Outono que embala segundas oportunidades
Numa fortuita folha dourada a quem o vento dá asas.
É a ânsia de fechar os olhos e perder a memória de todas as páginas
Para ganhar a visão libertadora de um recém-nascido!

domingo, 8 de maio de 2011

Ecrã

Ecrã
  
Sou uma pilha de vidros quebrados e espalhados por todos os locais em que vagueei. Em cada um deles está um reflexo que me pertence. Sei de cor o ponto em que descansa cada um dos fragmentos e tenho esta estranha obsessão de lhes passar por cima e dispersá-los ainda mais.

Às vezes, a chuva corre-me na face e solidifica com um qualquer sopro frio, já depois de ter escorrido pelo meu corpo, fixando-se mesmo debaixo dos meus pés. Permaneço aí, num desespero congelado de querer (sem poder) fugir. Outras vezes, uma fortuita borboleta faz incidir em mim o seu calor através de raios de fogo oblíquos e eu posso-me mover enfim. No entanto, de livre iniciativa, viciado na efémera febre da borboleta e facilmente persuadido pela nostalgia que adoça a chuva passada, decido-me pela estadia. O frio volta e o calor sucede-o, o escultor retorna e o calafrio vem de novo. Outra vez, outra vez e outra vez…

Aí eu percebo que sou a arte da não locomoção. Todo o vidro que estilhaço está em mim sob a forma de cicatrizes. Tenho-me pisado há estações sem conta e o meu reflexo é um gémeo omnipresente, por muito que distorcido e vago de mais para me ser captável. Vivo tempos sem bússola, guia-me a procura de uma. O passado, um meio que se torna fim, quando nele busco um presente com futuro.

Como um aspirante a cosmonauta, a maturidade autoproclamada com que observo o recinto em que me habito é um quase nada num todo que ignoro e imagino inocente e ingénuo. Tudo o que sei é o solo que piso no momento. Sem a tímida leveza de consciência de correr em círculos, quando tudo o que gira é a minha cabeça e os meus pés estão bem enterrados no velho planeta pessoal do costume.

Duas forças: temporal e espacial. Escapam-me ao controlo pelo intervalo entre os dedos de uma mão que até está fechada e logo surge um pânico adjacente. O tempo acelera-me, o espaço trava-me, o tempo engole-me como água, o espaço mastiga-me como pastilha elástica.

Cruzamento e encontro? Ambos me aniquilam em arritmias existenciais e fico um vaivém hesitante perante um par de dimensões em batida dessincronizada. Jogam-me a um claustrofóbico gato e rato mesclado num quem é quem. Desorientação óbvia… Pista única: os dois tropeçam em vidros negros ou rosas. É esse o invariável clímax das sucessivas histórias narradas.

Deitado na mesma cama de sempre, todas as noites fecho os olhos: pelo pára-brisas de um carro, avisto um enorme retrovisor do tamanho de uma vida e um amontoado de recordações nascidas num diminuto lugar, o lugar habitual. Esse vidro em particular não existe. É este ego cristalino imune ao que não é a visão do ontem no horizonte, cego à ínfima periferia do túnel solitário em que arquitectou a destruição... Os verdadeiros vidros, esses, juntos, são apenas a soma das partes de um espelho a preto e branco da idade de quem o criou. São as melodias compostas e as letras escritas que há muito quero para trás das costas. Posso viver com elas, só não quero viver delas.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Hipnose Da Apoteose

Hipnose Da Apoteose
  
Mesas estendidas de rumor
E líquidos instigantes de furor.
O início tilintante assentes desta vez,
Brindado à hecatombe que evitas,
Cresces auras para fora do que vês.
Até que no cubo de gelo culminas…


Todavia antiga ao fundo, habita a louca lua cheia,
Cabine onde provaste a nudez de julgamento:
És um penso rápido alheio ao sangue derramado no seio
E bailas mil vozes com língua no mesmo esquecimento.


Numa cintura mundana, um universo te ascendes.
Breve exclusivo, magnificente monumento disforme,
Um cemitério da ordem, palco a contemplar baixas gentes.
Este caleidoscópio de senciência que com auroras dorme…
Deus! Quando te é táctil a sua silhueta resplandecente…


Estrelas cadentes sobem,
Palavras pendentes somem.
Dissipa-se a imunidade do desespero,
Emancipa-se a gravidade do sentido.
O abstracto a concretizar-se nos demais…
Mas enquanto a paranóia não são outros,
O eu ainda são eles quando não a têm…

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

És O Paradigma Da Ficção Mais Cruel

És O Paradigma Da Ficção Mais Cruel

És a hipocrisia do teu choro glacial,
A dissimulação dos teus em falso passos.
Uma beleza incontornável de carmim
Que esconde o veneno mais mortífero.

És o materializado doce amargo
Servido num prato de duas faces.
Um futuro adivinhado pelo passado,
Supra-presságio cego de ilusão.

És o vício toldado ao pestanejar os olhos,
Uma verdade oculta por uma íris opaca.
O deslumbre dos teus lábios politeístas,
Culto eterno expoente máximo de encanto.

És o convite enigma, perfeição paradoxal,
A sedução de um subtil e fraudulento toque.
Toda a falsidade que baila pelo mundo
Num só corpo infectante de mentira.

És a anatomia-mor da realidade.
Uma inocência fingida inventada
Por uma narrativa profetizada
De uma vitória a ti destinada...

é que eu

Sou um vampiro de filmes noir,
Um meme fatale que estava
Mesmo a pedi-las para escrevinhar
Ideias batidas de um letrado com clava.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Vida Circular, Tempo Arrasador

Vida Circular, Tempo Arrasador

No fundo de um mar de memórias
Todos os momentos se desvanecem.
Caminhos amados descruzam-se,
Flutua o peso do arrependimento.

Na escuridão e agnosia da noite
Destroem-se frios os laços criados.
Passeiam transeuntes as almas sumidas,
Podes sentir o vento a rasgar-se na face.

Trajectórias bifurcantes voltam a colidir
Mas enganos errados demais tardios.
Perecem vacilantes as flores pisadas,
Restam branqueados traços ordinários.

Rápido, o tempo voa, verte e vai-se.
Numa estrada de certeza vertiginosa,
Cada um ruma à solitária última bala,
À inevitabilidade casada ao pôr-do-sol.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sou Uma Ilha Deserta

Sou Uma Ilha Deserta

Estorvo rodeado pela vastidão do oceano
Avultam-se sussurros no ombro subconsciente.
Tudo menos sou que uma ilha deserta e por dentro...
Um ser que goteja o desespero de uma morte viva.

Dois pés funambulistas na ténue linha da sanidade
A pronto do pior, um ego que me quer fundo profundo.
A esperança sepultada, porém bípede até à eternidade
Uma face tão fácil num grito mudo e moribundo.

Acaba lúgubre o meu resquício ao beber o abismo
E faço preces por costas em que me possa apoiar,
Enquanto anseio a terra prometida depois do sismo.
Das cinzas, ares materiais, uma fénix para acreditar:

“Cerro os olhos na pluma que me conduz,
Deixando a evidência na subida da mente.
Lá no auge, um almejado farol radiante de luz!
Logo ali, um fogo que me cegue intensamente!"

terça-feira, 28 de abril de 2009

À Procura De Validade

À Procura De Validade

Ando gasto por etiquetas sem fim
À superfície do que o presente esgotou
Nas montras de um dia voltar a valer
Um corpo dentro do boneco que estou.

Vazio irónico, preenche-me a mente…
No adio de a fazer verbo do “serei” que sou.
Poso (na) saliva vidrada do valor a voltar,
Um bem fora, o mal meu para quem passou.

Usem-me mais, modernos em escadas rolantes!
Sou vosso: comércio necessário da ordem do gratuito.
De mim, solidão que venda as vossas em farsantes,
Para mim, silêncio que vos compre esse horror fortuito.

Abusem-me à náusea, líquidos em portas giratórias!
Sou vosso: ópio de entrada com pés na saída em frente.
Voltem prazos, voltem para sempre e depois do sempre!
Enquanto a promessa de eterno me paliar as memórias...