domingo, 14 de abril de 2013

A Tripla Lógica Em Adaptation.

(Daqui...)


Partindo dos conceitos de remediação, imediacia e hipermediacia apresentados por Jay David Bolter e Richard Grusin (Remediation: Understanding New Media; 1999), a fita cinematográfica Adaptation. (realização de Spike Jonze; estreada em 2002) pode, pelas suas idiossincrasias, ser objecto de uma análise exemplificativa da teoria sugerida pelos dois autores.

É no inusitado argumento de Charlie Kaufman que reside o ponto de atracção do filme enquanto amostra prática das ideias mencionadas. A obra consiste numa adaptação do livro não ficcional The Orchid Thief (Susan Orlean; 1998), porém Adaptation. subverte as expectativas e assume um registo satírico.

A premissa é a seguinte: Charlie Kaufman (interpretado por Nicolas Cage) encontra-se em estúdio, na filmagem do seu primeiro filme (Being John Malkovich) e é contratado para adaptar a obra de Susan Orlean (Meryl Streep). Adaptation. centra-se nas dificuldades de um autodepreciativo, deprimido e sociofóbico Charlie para tecer o argumento. Vítima de um bloqueio criativo e convencido de que o livro é inadaptável à sétima arte, o auxílio provém do irmão gémeo Donald (Nicolas Cage) com o qual partilha a habitação. Na realidade, existe a curiosidade desse ente inventado (alter ego) ter sido co-creditado com a escrita do argumento e de se ter tornado a primeira pessoa fictícia a ser nomeada para um Academy Award.

Charlie pretende uma adaptação fiel que evite cair nos clichés amorosos/sexuais ou de acção/violência com o intuito de conferir emoção e espectacularidade, apesar da falta de conteúdo dramático em The Orchid Thief. Em simultâneo, o seu irmão decide seguir as suas pisadas e escreve um thriller psicológico. Apesar de aderir às convenções e previsibilidades do género, vende o argumento por números elevados. Num alçapão de angústia e insegurança, Charlie inicia, quase acidentalmente, a escrita de um argumento semi-autobiográfico, repleto de auto-referências.

Num outro fio de narrativa, ao qual acedemos de forma descontínua, captamos em analepses ou em paralelo (com a contenda de Charlie) o cerne de The Orchid Thief. Uma jornalista do The New Yorker - Susan Orlean - investiga a história verídica de John Laroche (Chris Cooper), um coleccionador obcecado por orquídeas raras existentes na Florida, com a finalidade de escrever um livro sobre o assunto. No transcurso de Adaptation., as duas linhas acabarão por colidir numa cadeia de causa-efeito.

Em parte, é devido à originalidade e estranhamento do argumento que o filme pende para a hipermediacia, no entanto não deixa de haver uma relação dialéctica e tensa de imediacia. Ademais, o seu teor pós-moderno torna a experiência da obra numa construção do espectador (neste caso seguimos uma edificação de uma outra, diga-se) e fomenta o seu interesse no contexto da teoria de Bolter e Grusin. Pegando em trechos de Adaptation., é possível distinguir exemplos claros da tripla lógica.

As primeiras imagens do filme (metalinguísticas) são do set de Being John Malkovich e aí observamos o próprio John Malkovich como actor que faz de si mesmo. Desde logo, o resultado é uma obliteração da quarta parede. Algo idêntico sucede quando Charlie Kaufman (encarnado por Nicolas Cage), à mesa num restaurante, fala do seu argumento no trabalho acima designado (referência hipertextual). Ainda nessa cena, vemos o livro The Orchid Thief, ou seja, a fonte de adaptação tem presença física no filme que a ela se dedica.

A irónica narrativa em estilhaços temporais (que passam inclusive pela Califórnia de há 4 mil milhões de anos atrás), espaciais, de personagens e entre ficção e realidade tende a frustrar, a impedir o investimento emocional de quem acompanha Adaptation.. Todos estes aspectos beneficiam a hipermediacia, a opacidade e revelação do meio.

No espectro oposto, nos primeiros minutos, a atenção é focada em Charlie Kaufman de modo a apresentar os seus objectivos e os respectivos obstáculos. Esta abordagem facilita uma aproximação à personagem, assemelha-a a um avatar. Somos capazes de sentir e pensar com ela, é a nossa projecção num corpo estrangeiro. A azáfama e o turbilhão mental de Charlie passam para a estrutura do filme e para a nossa compreensão, o que de certa forma atenua o favorecimento da hipermediacia por consequência dos assíduos saltos multifacetados.

Na cena de perseguição rodoviária (que surge como sátira a Hollywood), as performances, o som, a iluminação e a aceleração da trama são orientadas para criar suspense. Tal procedimento promove a transparência e invisibilidade do meio, mergulhando-nos nele. O espectador espera este tipo de clímax, é uma abordagem que se automatizou e se naturalizou dada a sua constante recorrência. Daí que seja pouco provável ponderarmos de imediato nos stunts por detrás do trabalho final, por exemplo. Estamos embrenhados nos acontecimentos provenientes do ecrã. Todavia, as intermitências do enredo de Adaptation. afastam-nos do impacto emocional que o recurso à violência, sexo ou uso de drogas poderia significar se estivéssemos diante de uma obra mais convencional. O estranhamento repulsa uma comoção duradoura.

Em Fight Club (realizado por David Fincher; 1999) - adaptação homónima da novela (Chuck Palahniuk; 1996) - a abordagem é feita no sentido de ser relativamente leal à história, aos cenários e personagens da sua fonte. Mais do que isso, não há dentro do filme (se excluirmos os créditos) qualquer menção ao facto de ser uma adaptação. É um mero modelo de remediação entre tantos outros que visam manter a ilusão de imediacia. Em Adaptation. a opção é por um rumo raro: um revelar da fonte e um acentuar das diferenças. Não só o conteúdo é copiado, mas também o próprio meio original é apropriado e citado, rompendo com a imersão. Além disso, várias ocorrências são criadas face ao livro - o ataque de um jacaré que serve de deus ex machina é uma delas. Reagindo ao filme, o meio anterior foi transformado (ecologia dos média). As edições mais recentes de The Orchid Thief contêm na capa uma sinalização para o facto de ter inspirado Adaptation..

No fundo, o filme é uma adaptação de si mesmo. Os clichés a que Charlie alude e pretende evitar vão ser um mote autoconsciente para dissolver a heterogeneidade da narrativa, “hollywoodizar” os acontecimentos e transmitir uma sensação de fechamento. Esses lugares-comuns culminam incorporados na vida do autor e no argumento que escreve, em concomitância com uma realidade e uma ficção que se interseccionam numa só frase, num híbrido definitivo.

Adaptação é a tendência dos organismos para se transmutarem tendo em vista a sua vantagem biológica. Tal como o ser humano, o seu comportamento e as suas perspectivas. Tal como a história dos média. Um devir incessante, um futuro que não anula o passado. Uma apropriação.

segunda-feira, 18 de março de 2013

O Som Como Retrovisor Mental E Emocional



Uma porta abre outras mil. O fonógrafo, instrumento introduzido em 1877 por Thomas Edison, veio permitir a gravação e reprodução de som, o que por sua vez viria a despoletar um caleidoscópio de modificações sociais. À semelhança de outros dispositivos de registo e inscrição automática seus contemporâneos, representou o encontro com uma estrada que lográmos abordar por estarem reunidos certos pré-requisitos de conhecimento. Nela a humanidade conduz com os faróis ligados perante um pano de fundo de nevoeiro e somente assim o horizonte, as possibilidades aumentam, instigadas pelo deslocamento na incerteza, na curiosidade e sede de progresso. Nesses parâmetros, podemos pensar a era digital, o “agora” como a simples consequência de uma viagem iniciada, uma nova via que construímos em movimento e para onde pudemos cortar.

Em termos de reacção inicial à invenção do fonógrafo (a uma voz desprovida de corpo), é de crer que tenha sido pautada pela surpresa, tendo em conta a relativa lentidão do século XIX, onde (deduzo) o desenvolvimento tecnológico seria considerado um acontecimento mais do que uma inevitabilidade trivial.

É possível que ninguém/poucos se tenha(m) apercebido do seu imenso potencial de versatilidade e dos modos em que poderia incidir na psique humana, aquando do seu surgimento. Enquanto mecanismo duplo (gravação e audição) alcançou uma dimensão de humanização e criou uma ideia personificada de interactividade. Viabilizámos a estranheza de ouvir a nossa voz fora de nós mesmos, conforme um emissor forasteiro. O registo sonoro desvinculou-se das noções de tempo e espaço e até a morte se tornou passível de transgressão. Etnograficamente, alguns costumes e idiossincrasias de povos isolados sobreviveram devido ao seu registo, havendo então um contributo não só para o multiculturalismo, mas também para mesclas, assimilações e conexão das diferenças e particularidades (salad bowl).

A utilização do fonógrafo, por ser um poderoso meio de comunicação, incluiu ainda fins políticos, publicitários, profissionais, educativos, informativos ou de entretenimento. Desempenhou o seu papel parcelar no erguer de uma sociedade de consumo e movida pelo pagamento a crédito. Pense-se inclusive na obsolescência do dispositivo, pois de forma constante surgiram outros, descendentes, em que a fidelidade do som era superior e a portabilidade acentuada.

A música foi alvo de uma autêntica revolução, ganhando tracção uma ideia de indústria. Tal como o fonógrafo se assumiu uma ferramenta de presença quotidiana, o mesmo se passou a verificar com essa prática artística. Deixou de se resumir a uma experiência in loco de salas de concerto ou cerimónias religiosas, democratizou-se o acesso. No conforto da habitação, no local de trabalho ou num meio de transporte, estar à disposição converte-se numa escolha. Já não era em exclusivo um hábito social, possibilita-se a audição solitária. Desvanece a ditadura corporal do aqui e agora.

Nesse contexto de ”escrita do som”, emerge um aspecto muito específico e relevante da música: o crescente carácter intimista. Imortal, transcendente ao momento e estando à disposição para reproduções repetidas, infiltra-se dentro de nós. Talvez por ser tão abstracta, tem a capacidade de nos afectar com intensidade, já que estimula a imaginação dos sentidos e a reconhecemos no inconsciente como criação humana, representante da nossa condição. Seguindo essa lógica, aquela canção algo adormecida (quanto mais estiver, maior será o efeito) que tantas vezes escutámos na infância, na adolescência ou num período concreto delas, ao ser reanimada na memória por nova audição, irá catalisar o contacto com filmes mentais de memórias autobiográficas e da ambiência envolvente. Por experiência própria, a hipótese que coloco é que apenas uma fragrância é comparável no que diz respeito a implicações nostálgicas com tamanho peso.

Quase todos estamos condenados a uma existência funcional, fatigante e de rotinas, das nove às cinco, dia após dia, ano após ano, vida após vida… Escasseia o tempo (e a energia) para processar os episódios. Perpetuada, a música oferece um contraponto: a constituição de bandas sonoras pessoais. Em reminiscência, associamos canções com seres humanos, lugares e sentimentos de outrora e fazemo-lo num grau expansivo. Distanciados e com este impulsionador analéptico, somos convidados a interpretações múltiplas e omnipotentes de ocorrências passadas, a compreender o porquê de as termos percepcionado de determinado ângulo em detrimento de um distinto. Do topo da montanha sofremos, num estado de calafrios, os terramotos existenciais numa magnitude mais elevada.

Se é verdade que o facto de sentirmos com violência vale intrinsecamente, também o é que a reprodutibilidade ínfima da música tem por encadeamento uma catarse de escala universal. Sendo seres de esconderijos internos e só partilhando os recônditos com uma exclusividade de indivíduos, a música, a expressão do outro é um telescópio para a sua essência e, em reflexo, para a do eu, para a da humanidade.

Qual o valor do (suposto) saber histórico (e qual a sua verosimilhança) se não for além de um mero conjunto de dados e fecharmos a razão à chave num edifício gélido (o mundo exterior da sociedade) ao qual não é permitido o ingresso do seu único descodificador, a emoção? Como equiparar os erros a um método de aprendizagem se cometemos de antemão e em insistência o equívoco primário de querer resumir o indivíduo à racionalidade? Não será, aliás, a memória emocional o máximo recurso incendiário de nos lembrarmos de não esquecer os lapsos?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Um Singular Autómato Colectivo


Um Singular Autómato Colectivo

Discorrer sobre a mediação digital será sempre reflectir sobre uma dualidade yin-yang. Creio que o lado sombrio predomina quando consideramos as relações humanas como mais que um meio para um fim ou uma mera ferramenta utilitária. Essa sombra alonga-se à medida que perdemos o controlo e distancia-nos de nós próprios.

Com a intensificação decursiva desde há vinte anos para cá, corremos o risco de nos metamorfosearmos no apêndice que transportamos, de adoptar o papel de objecto. O sujeito é o dispositivo que encarna a nossa ausência.

Nesse contexto há que ter em conta um conceito de literacia digital que peca por se limitar ao domínio da linguagem informática. O lapso reside no desvalorizar da consciência. Por conseguinte, usamos muitas vezes o universo virtual como um mecanismo de escapismo, de obstrução dos sentidos, visando desligar o interruptor crítico do espírito. Num mundo moderno acelerado pela tecnologia, a visão turva e a atitude de reflexo é fugir a um exacerbado temor da solidão. Assim, cada um ludibria a fachada do "eu" face a esse tormento. Na verdade, estamos somente a fomentar o seu âmago. Não só o medo é procrastinado, mas também uma conduta activa e de manejo das rédeas da vida perante questões maiores. Evitar o elefante no quarto é uma forma alternativa de carpe diem e evadimo-nos tanto diante do presente como do futuro.

Em oposição ao que apregoam, as redes sociais online, por exemplo, desconectam indivíduos. Plataformas como o Facebook fabricam uma determinada representação de uma pessoa e, como ente único, esta é coagida a adaptar-se. Contribuem também para uma progressiva banalização e deturpação do termo “amizade”, de tal modo que é precisamente o espaço cibernético quem mais se aproxima da sua acepção fidedigna: por lhe concedermos o título de prioridade, pela permanência ao longo do tempo e pela não dependência de um contexto semelhante para sobreviver (devido à sua ubiquidade). Se permitirmos que os média digitais regulem a nossa teia de contactos, se forem eles o souvenir da existência de pessoa x, o que seremos senão um espelho partido?

Daí irrompem duas alienações de aparência paradoxal: a ilusória das excepções que recusam a subjugação por teclados e uma outra, real, que afecta massivamente a sociedade e se disfarça pelo facto de ser partilhada por multidões. Na mesma senda de concebermos necessidades que não o são através da mecanização, é comum os primeiros acreditarem que a sua minoria é sinónimo de estarem errados e, então, resvalam num avassalador buraco negro. No fim, ninguém é ninguém e essa insanidade encara-se com normalidade.

As relações à distância não devem tomar o trono das presenciais. Tal será entrar numa espiral de erros comunicativos e cair no poço superficial da despersonalização. O tacto, os gestos, a permuta de palavras e a troca de olhares sem paredes são sustentáculos a que tendemos a renunciar no ponto final da infância. É da conectividade mental motivada pelo acto físico que se desenvolve a qualidade etérea das ligações interpessoais.

Claro, a era digital, inclusive no íntimo, não é um vilão absoluto. Somos nós a escrever o guião! Cabe à humanidade despertar, aprender a retorquir “não” à pressão social, resistir aos (enérgicos, porém breves) sintomas de privação e restringir o carácter anestesiante da tecnologia. Ela possui o potencial imenso de divulgar, integrar e até criar novas práticas artísticas. Pode ser arte! Inquietar e expandir horizontes! Originar introspecção e autoconhecimento! Um aperfeiçoamento individual como linha de partida para uma melhoria global cuja amplificação estará, em parte, a cargo dos novos média.

Lâmpada: é o pólo positivo do mal que leva à génese de uma antagonista ideia de bem. Se queremos voar mais alto, apenas temos de cavar mais fundo!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Bah. Bela Merda

Frustrante passar os dias a anos-luz mentais das pessoas com quem partilho um determinado contexto fisicamente. Mais quando não há qualquer perspectiva de mudança no horizonte. Se no início do secundário, havia o escape ilusório do "na universidade tudo melhora", agora o meu diabo de ombro começa a conquistar-me com o slogan "tarde demais".

Eu tentei, tenho tentado, é provável que continue a tentar ligar (sem nunca deixar de ser quem sou) o meu fio à corrente. Pouco importa. No fundo é tudo forçado e mesmo sendo ligeiro já me custa demasiado. Estou completamente desconectado do modo de abordar o mundo que observo nos outros. É complicado ser de um grupo sanguíneo com compatibilidade a roçar o zero quando necessitas de um dador para sair de suporte de vida. Em última análise, de mãos dadas só mesmo a simetria perfeita do meu desinteresse pelos outros e o seu por mim. As investidas culminam em finais frios, fixando o "eu" num pólo e o "eles" no oposto.

Quando não há termo de comparação, estando eu sozinho e por outros lugares, a solidão até é, por norma, residual. Atinge-me ao saber que reparto um dado sub-universo com quem, na essência, nada há a repartir. Não me mata, mas desmotiva-me, obstrui-me a paixão. Torna-se uma flecha contra-produtiva logo quando mais tempo tenho para ser produtivo. Obriga-me a escrever isto...

Também estou a chegar a um ponto em que ponho em causa o valor do ensino superior para mim. Sim, estou no curso que quero e há alguma informação interessante para ser digerida. Contudo, há sempre disciplinas que me passam ao lado e desprezo com convicção a ideia de avaliação... Porque não consigo subverter certas responsabilidades morais, não o faço na prática. A minha lista de combates interiores, tijolo por tijolo, vai-se assumindo como infindável. 

Neste momento tenho 3 grandes ambições na vida. O meu trabalho para as concretizar é de louvar pela sua dormência (e pelo facto de a duplicar com um post destes). São algo distintas entre si. Em condições normais, iria especificá-las. Como estou um bocado exausto de mim mesmo, não vou escrever mais nada agora.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Os Pastores Do Arco-Íris

Encontrei esta pérola numa folha solta, rasgada, riscada... Recordo-me de escrever o texto, emocionado, durante uma aula de Geografia do 11º ano. Há alguma nostalgia atracada, por isso decidi postar (depois de algumas modificações). Sem querer ferir susceptibilidades. Para mim, humor faz-se com tudo, único cuidado a ter é o contexto em que a ele se recorre...

 Os Pastores Do Arco-Íris

Era uma vez 3 meninos / meninas (hermafroditas) que gostavam de serenidade, de fumar grandes canhões, de comer cavalos com as veias e de bailar pelos descampados repletos de flores, chovesse ou fizesse sol. Por norma, surgia um magnífico arco-íris no qual contemplavam vaginas andantes, mapas do Instituto Politécnico de Setúbal que falavam e saltavam à corda e o tapete voador do Aladdin.

Certo dia, os três presenciaram uma "sangrenta" luta num bar da sua localidade. As pessoas odiavam-se e não gostavam de paz, amor e felicidade. Os pastores, indignados e feridos pelo facto de existirem sentimentos cruéis e atitudes feias, foram repousar para um campo de mimosas numa bela tarde de sol. Alimentaram o corpo e a alma com o seu rico LSD, em quantidades mais elevadas do que era habitual, e imergiram numa realidade super fofinha e extremamente bonita. Deitaram-se em forma circular e deram as mãos,  fitando as constelações, apesar de não estarem realmente à vista, já que eram 14 horas, 7 minutos e 12 segundos. Num piscar de olhos irrompe a Nossa Senhora (Virgem) de Fátima, radiante de luz, graciosidade e com um giríssimo bigode à Salvador Dalí. E foi assim que 13 de Maio passou a ser o dia nacional do LSD. O resto da história já se sabe...


domingo, 16 de dezembro de 2012

Transcorrer

Transcorrer
 
1998. 1999. 2000. 2001. 2002. Preocupações. Fugacidade. Momentos. Eternidade. Pequenos. Gigantes. Grandes. Pigmeus. Gravidade. Não. Leviandade. Sim. Hoje. Sempre. Amanhã. Tudo. Ontem. Nada. Horizonte. Universo. Retrovisor. Vácuo. Passeio. Mãe. Estrada. Pai. Natal. Magia. Televisão. Fantasia. Sonhos. Calor. Pesadelos. Frio. Dormir. Pior. Acordar. Melhor. Escuro. Temor. Luz. Amor. Perspectivas. Ela. Mãos. Expectativas. Eu. Dadas. Inocência. Perfeição. Consciência. Ilusão. Rebeldia. Mil. Consequências. Zero. Escola. (Lentidão.) Adrenalina. Férias. (Lentidão.) Descoberta. Verão. Estrelas. Noite. Olhos. Fascínio. Inverno. Neve. Dia. Corpo. Arrepios. Fé. (11.) Sentimento. (Agosto.) Ciência. (1999.) Intuição. (Eclipse.)

Fazer. (12.) Cama. (Julho.) Infância. (2003.) Morte. (Cinema.) Inevitável. Medo. Vida. Evitável. Medo. Paranóia. Fogo. Mudança. Água.

2004, 2005, 2006. Os muitos. Pontos finais começam. A ser poucos para. Tantas vírgulas escondidas na transição. Entre a poesia e a prosa. Destas portas decrescentes em que encerram existências.

Cedo (2007.) és (Céu.) um (2008.) teleférico (Inferno.) que deambula entre os dois extremos do purgatório (2009.) de estar vivo. Cada Setembro adolescente é um relógio de areia que separa (2010.) o (2011.) querer infinito (Sepultura.) do ser finito. (Aventura.)

19 anos de período orbital, círculo completo. Paredes apertadas, anos de ouro definidos. Um motivo, retraçar o sublime. Invadir cabines telefónicas à. Procura da voz. Que não. Ouvi. (2012.)

Viagem. Retrospectiva. Isto. Mente. Introspectiva. Isto. Constância.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Memento Mori

Memento Mori

É me o ar agreste neste travesseiro de varas moles. Sim, sei.
Fustiga-me o rosto, há navalhas mais suaves. Sei, sim.
Gélidas palavras para um EGO colossal!
Salva-se o lençol, as polainas, e este encosto.
Tudo quanto talvez tenha… e quero.
Ao termo o horizonte. Grite-se?
Estas espigas ressequidas, já as vi e conheci.
Quão tenebroso era esse meu olhar de outrora. Essa fera.
É preciso vontade para sentir saudade.
Vagueia (Corria!)… Descansa na memória de outros tempos.
Sobre mim, o céu. Sonhe-se? Essa tela de projecções? Só.
Só actos humanos imperecíveis.
Hoje esverdeia-se como um prado.
Réstias de azul. E verde? Um pouco por todo o lado.
Alguém consente e espera mais dessas vontades risíveis.
“A doce esperança que lhe acalenta o coração acompanha-o,
Qual ama da velhice – a esperança que governa,
Mais que tudo, os espíritos vacilantes dos mortais.”
Esta é já a única que ainda flui por estes campos.
Mas que outras? Porque o querer quando se tem casa?
Fontes de ódios e angústias vãs.
Sois ingénuos crentes no sentir e na bonança.
Este céu é vosso e não mais meu.


Floresta, bem-vindo abismo velado que toco em folhagens de sensação!
Corrente aberta em que cavo para mim os mundos que não inspiro!
Cada passo ruma ao exterior das rotineiras paredes brancas da função.
Fujo o regresso para os caminhos da aura em que vem e vai nosso retiro
E nas entrelinhas, o sonho bagageiro em coma na citadina monotonia
A consumir a inércia do banco traseiro a que me entrego em conformismo!


Os horizontes, ainda não avistados, oxigénio que me asfixia a agonia!
Vontade! O éter a correr-me nos pulsos expirantes de estoicismo!
Mil folhas por cair para um dobro por subir! O ar a vencer ao debaixo do mar!
Acelero para a respiração que quero capturar, instantes palpitantes no visor!
Sou o êxtase explosivo de ter o rasto mais curto que um terço da perna!
É a metade maior em que vou conhecer a que me liberta de qualquer dor!
Sou a natureza a milhões de ponteiros do cataclismo de não ser eterna!


O que em mim ainda é jovem és já só tu, memória triste.
Reavivas outros tempos num só acto de indisciplina.
Enfeitas e projectas sem que te peça ou queira.
Percebo agora que foste a única que não tratei.
Foste aquela que jamais ousei sonhar! Como te haveria eu de sonhar?
Sempre te tive e com esse engenho.
Agora, és a fonte do meu conforto. Só minha. Um presente para este EGO.
Resguardo-me em ti, nesse fluir de divinos pictogramas.
És o meu Deus nesta terra de enganos.
És me o recoste, o coberto, o calçado.
Podia bem morrer agora… Morreria feliz.


E tropeço! Desabo na megalomania de ser eu o significado absoluto!
Observo no rio o fluxo do tempo de volta à montanha-mãe.
Em dois globos de emoção, a primeira árvore a desvanecer-se em luto,
Segundos analépticos de fotografias a descer a virgindade dos ramos.
Ah, tanto sentido nas penas tombadas que me trazem de novo à Terra…
A pele macia de ascendentes desmaiada na retaguarda destes anos…
E eu, já desguarnecido do cristalino sentimento de nem pensar em tal guerra…


Ferido mas vivo, remoto mas menos, apaixonado mas mais…
Uma lágrima para semear outra torre verde de proléptica melancolia.
Ergo nela e com ela as recordações inconscientes que verei no meu cais.
Vencibilidade, aceito. Neste bosque ouvirei mais espantos imortais de melodia.
Este simples reconhecimento, logo fruindo, daguerreótipo crescente.
Num relógio decrescente, a consolação matutina de idear por um melhor dia
E a autoproclamada autodestruição de ter esperança em ser descrente.


Mais do que a morte, relembra no que te tornarás.
Relembra o erro que é querer.


Para assim esquecer e à beira do termo ser teu não ser?
À fantasia brado, cama de óbito que me chamas à tua hora!


Mas quem te julgas, con-de-na-do?
Este vento que me arrefece é mais sábio que o teu ardor.


Madrugada dos teus versos, um sismo na pedra que te fixaste!
O escudo e espada atracados na adrenalina dos meus actos!


Ilusões de cego!
Prepotência de EGO!
Lunatismo do destino!
Poço de desejo luciferino!
Vereda sem futuro!
Trapo imaturo!


Aprende, meu jovem, o fatalismo do rumo.
ARDE, premonição reduzida a cinza e fumo!


(O suspiro do derrotado é grito de guerra para quem vence.
Mas como se vence quando o inimigo somos nós?
Quando o pergaminho destruído é a nossa construção?
Como se arquitecta um porvir soterrado em carpe diem?
Nunca mais, memórias! De ontem, hoje ou amanhã… Liberdade!)


(Fran Silveira e João Fazendeiro)

domingo, 28 de outubro de 2012

Rosa Em Azul

Rosa Em Azul

Meus olhos, bem fora das linhas do meu corpo
Eles sentem na íris o meu invisível sangue claro,
A frágil e doce verdade que repousa no colo do meu escopo,
A ferida bela que derrama nos escombros do oceano,
E o que todos vêem é o ego camuflado no vidro do meu copo,
A ilusória aparência transparente do céu em primeiro plano.


Amanheço e estou azul, sempre nunca o sendo.
Só respiro a fatídica distorção de não me ter em mim,
A dissonância de ser o pôr-do-sol num meio-dia de Verão
E por isso bebo o esquecer do vinho do qual estou a fim
Na esperança de adormecer silhueta simétrica da minha emoção.


Tão longe de estar perto por estar tão próximo da tua distância
É suficiente um ténue toque para saber onde jaz a minha rosa raiz.
Trespassas-me, serena flor de pigmento vivo que me traça em ânsia
E desespero na esfera da espera da tela em que circula o teu verniz
Enquanto flamejo o bafo gélido do engano divino de nascer discordância.


Recordar uma lenda, o desencontro fatal de um lobo e de um falcão,
A aliança do dia e da noite separada por género e tom de prosa.
Como em mim, o amor entre a física e a química num só alçapão,
No escuro difuso, os “meus” dedos azuis mergulhados num coração rosa,
Sobreposto a um eclipse, o impressionismo a despir-me de Platão.


E se somos duas marionetas de paradigmas que nós próprios criámos
Deixem-me ainda assim despertar na máscara da minha natureza.
Entrelaçados, o vermelho nos lençóis brancos em que nos fundámos,
Unhas da mesma árvore, glaciares ardentes num trecho mútuo de subtileza,
Não mais opostos iguais, um espelho recíproco da tez em que nos casámos.


Talvez seja uma planta de muitas lágrimas numa carne de poucas palavras,
A sensibilidade sublime que na física mente a química que deveras sente,
Ou o mero fingimento de um papel que à realidade congelada entreguei.
Vem, dilúculo supremo e faz perecer a heterocromia com que encaro o meu poente.
E no poslúdio, como musa, entrelaço os suaves fios de novelo em que me viciei
Até que vejo, sob o labirinto dos meus longos cabelos, um lago narcisista de outra cor.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Lanterna De Papel

Lanterna De Papel

Um dia morre o lento contar dos dias 
Tão rápido que é o ver passar dos anos,
Substituídos por uma nostalgia em pressa.
Pernas velozes que romantizam danos
Cujos de um rigor mortis eu fazia promessa.

O ar do costume torna-se estático demais para respirar
E os fósforos sem fôlego gastos demais para iluminar.
Permanece a luz ao fundo da noite, o passado ao cair da estrada,
Pois um lugar só dura o tempo que no vazio fazes procriar,
Até que a neve escale para cima da tinta e apague qualquer morada.

Juras, que o cenário muda e, com ele, a volúpia de conduzir para trás.
Devotado, crias, inconsciente, uma avenida de mosaicos de antologia.
Claquete, outra vez, paisagem diferente para servir um igual pathos.
Ah, minha válvula de escape de procrastinar o cumprir da cronologia!
Perco-me, eu, marasmo por não deglutir o estigma dos meus actos.
Sou um vaivém que hesita em vir e reverte a ordem da escadaria!

Na sobrelotada cidade do raciocínio, um puxar de cordas no hall de entrada.
Aí, dilema eterno: o vácuo de hoje versus o vácuo de ontem,
Porque o melhor simultâneo dos dois mundos é utopia nublada
E amar-te agora é odiar-te quando eras outro farol.
Então, (declamo que) arrisco, desistir de habitar esta terra de desperdício
E trepo heras até uma torre de marfim hóspede de um bifurcante Sol.
No cume, anseio, eu, arranha-céus que filtra estações e o errante solstício.

Um dia adiar o véu do que já foi é uma ampulheta de areia fixa
E sabes, que somente uma avalanche de desejo dinamita casas antigas
E que a paixão por Junho em Setembro é saída de emergência,
É uma Via Láctea que observas de telescópio estando parte dela em ti,
Um único planeta habitável, de nome Presente, só pedindo convivência.
Acorda alarme! Oscula os segundos no homónimo de estar aqui!

Um dia a distância não o é e sobes para lá de um edifício ambulante.
Tu, o teu próprio lar, nas tuas mãos mais que um abrir e fechar de portas.
És a vela fonte de vida e pronto-socorro do teu peito lanterna de papel!
O feixe luminoso que trava a força de atrito que fatalmente transportas.
Tu, câmara escura que aprisiona o retrovisor nas masmorras tétricas de um túnel,
Na tua batida, a harmonia de apagar incêndios, mantendo o arder da chama
E de travar inundações, garantindo o fluir do rio, tu, dínamo que gere o drama!
Descansa, conformismo, são paredes imaginárias que não destronam o teu anel...

Ouvi dizer, início do capítulo de uma geração e eu a brincar com rastos,
Um milhão de coisas e atributos para ser e, por penitência, tabula rasa!
Mas ficas, omnipotente ritual antagonista de escapismo a que dou claridade!
E ainda que pêndulo e contraditório, sei, as verdades que o instante traz na asa:
-Das mesmas perguntas, mesmas respostas, mesma identidade, mesma realidade;
-Um comboio levar-me-á ao local onde estou, se não alterar o meu curso primeiro;
-Em mim, uma síndrome de Peter Pan reside, um querer ter à inocência imortalidade;
-Em breve, ou o rapaz que abandona as origens ou o idoso que regressa, não inteiro...

“Um dia” é este e cinco dedos de doze meses o anúncio de um jogo irreversível.
Novos amigos, já velhos desconhecidos que permanecem em efeito phi!
Empatias a prazo que persistem no ruído do ruir dos antros da retina!
Fortalezas de outros reinos que fecham os portões do que com elas vivi!
E é o meu turno de escrever em giz preto num quadro negro tudo o que termina.
Escrever, só para acender em despedida o candeeiro de tudo o que jamais esqueci...