quinta-feira, 24 de julho de 2014

Update Pessoal #Sempiterno

Sou a puta de um génio... quando é para queimar pontes e ficar a arder. Afogado.

É um sinal do meu estado ter pouca motivação para escrever este post e saber o que nele expressar. Ainda assim, constato essa necessidade - de leveza via letras. Estou ok, estou ok em estar ko em tudo o que não me faz sentir bem estar ko.

Os lamentos de sempre evaporaram-se em smog e passaram para o ar que respiro. Tal como eu desapareci do mapa e me tornei um fantasma à procura de espelhos. Oh, a ironia... Como se me pudessem ver, quanto mais perceber e, acima de tudo, querer saber. Não há validação externa, como poderia haver interna quando preciso de alguém que não eu, mas como eu... Profundamente. Intimamente. Desde sempre.

O que me magoa passou para pano de fundo, um background omnipresente contaminante de todas as áreas da minha existência com idiossincrasias doentias. Se os tais lamentos já eram, salvo excepções, interiores na minha adolescência, agora são interiores ao meu interior. Quero, mas não quero exteriorizá-los, por isso fechei-os num cofre com uma password seleccionada no inconsciente. Exausto de me sentir magoado por seres humanos, isolo-me mais. Mais e mais. A falta de acção fixou-se como vontade involuntária. Pondero contactar os responsáveis pelos Guinness, talvez seja o ouriço com os maiores espinhos do planeta - mas nem sei se no meu há livros de recordes.

E podia continuar horas e horas a deambular entre metáforas, lugares-comuns meus, OVNIs teus... Quanto mais quero deixar claro o âmago, menos consigo. Desvio-me de ti, sempre, de tudo. Não posso ser humano se sou alien para todos os outros. Não na minha concepção do que o é ser.

Vou por pontos. Única forma de não me espalhar tanto. De qualquer modo não vou conseguir dizer tudo o que pretendo. Já não dá porque são demasiados aspectos com demasiados estratos. Ademais, sou uma aranha na teia, só sei circular na falta de soluções, tecendo uma perífrase monumental há meia década.

1. Dessincronia. Tenho a cognição adequada à minha idade presa num ego com 14 anos de inteligência e experiência sociais.

2. Sinto-me patético ao pé de criaturas da minha idade, que partilham os mesmos contextos. Basta ver proximidade, ouvi-los falar de tal, perceber que quase só eu não a tenho para me sentir mal, desajustado. Estabelecer relações interpessoais é o que mais quero e tem sido assim desde os 14 ou 15 anos. Paradoxalmente (estou a abarrotar de paradoxos), estar com outros acentua a minha solidão. Se bem que isto só dói a sério se considerar ser humano x interessante, se me identificar com ele a nível de interesses, opiniões, se tiver com ele uma relação de conhecidos...

Interlúdio A: O lead single do próximo álbum (a expectativa é que esteja no meu top 10 de 2014) dos The Gaslight Anthem é inusitadamente lento e uma das melhores canções da banda até à data. Chega a êxtases de emoção como "Handwritten" ou "The '59 Sound". A letra de Brian Fallon, como é norma, evidencia o o seu dom com palavras. Relaciono-me com o refrão sarcástico: "I came to get hurt, might as well do your worst to me".



3. O que mais me magoa: quando uma pessoa passa tempo comigo com regularidade (conversando sobre diversos assuntos) e entra em contacto, por sua iniciativa, para lá de um contexto partilhado (por exemplo, somos colegas de turma e decide falar comigo pela net ou convidar-me para algo de forma recorrente), sendo que no entanto não se pretende aproximar de mim, estabelecer uma relação verdadeiramente humana. Consequências: frustração transcendente, repulsa, humilhação interior, incompreensão. Deixam-me me criar expectativas, afeiçoar-me para nada. Sinto-me usado, gozado... Sei que não é essa a intenção, é somente o efeito de me tomarem como indiferente quando as suas atitudes não apontavam para tal. (Conto uns 5 casos destes na minha vida até agora.)

Insensibilidade e indiferença! Do pior que existe... Ninguém tem de gostar de ninguém, mas é simplesmente nojento para mim que estejam/falem, se aproximem só para preencher espaço, porque não suportam estar sozinhos, quando, verdade seja dita, se estão a lixar para o interlocutor... Como disse, dão-me a entender que sou um ser humano prioritário nas suas existências sem que o seja de facto. Não suporto ser secundário, figurante quando o seu comportamento indica para que não o seja e quando eu, recíproco, já deixei claro que os tomo como importantes. Estou numa posição frágil, visto que é fácil alguém se tornar um peso pesado na minha microscópica existência - enquanto eu sou uma pluma na deles que têm contacto humano regular.

Isto não ocorre muitas vezes, até porque nunca me aproximei de muitas pessoas, porém quando acontece destrói-me emocionalmente. Perco motivação para ter qualquer iniciativa ou correspondência em me aproximar de alguém, pois até quando não tomo o primeiro passo isto se passa. Quase sempre.

4. Eu entendo que a minha postura, a minha expressão facial são pouco convidativas a diálogos. O meu exterior tende sempre para a apatia e compreendo que seja o que os outros captam. Contudo, se para uns ou em certas coisas imponho demasiado respeito, também sinto que para outros ou noutras o facto de ser solitário é repelente, motivo de desprezo e de me inferiorizarem. Podem considerar-me porreiro, boa pessoa, no entanto ninguém quer mesmo proximidade comigo. 

5. Estar só focado em mim e isolado torna-me pior pessoa. Sou egocêntrico em níveis exagerados, porque não tenho impacto positivo na vida de ninguém. Não me consigo preocupar com o que quase não existe no meu interior: pessoas próximas. 

Interlúdio B: Damon Lindelof, a principal mente criativa de Lost (aka obra-prima das obra-primas), regressou à televisão na fiável HBO (com a adaptação de uma obra literária). Como esperava, estou a adorar.

Quatro episódios in The Leftovers é um tour de force sobre a angústia, a confusão, a anomia de viver após um evento inexplicável: 2% da população mundial desaparece subitamente. A série não se funda na busca de uma resposta e, muito por isso, excepcionando um prólogo e fogachos de flashbacks, o que acompanhamos são as existências quebradas dos que ficaram, três anos depois do sucedido. Justin Theroux (Six Feet UnderMulholland Dr.) dá corpo ao protagonista Kevin Garvey. É um chefe da polícia inseguro e alcoólico (vários paralelos com o Jack de Lost) que tenta manter a normalidade numa sociedade (e numa família) fragmentada, agressiva, envolta em novos cultos ou perspectivas.

É uma série meditativa (com espasmos de violência extrema), repleta de simbolismos, opressivamente sombria e com um foco total no conflito interno de personagens que estão tão perdidas como as de Lost ou Six Feet Under. De certo modo, The Leftovers vem preencher o vazio televisivo de obras que colocam o existencialismo em primeiro plano. Distingue-se por uma atmosfera gélida e por uma estrutura narrativa incerta, deambulante – aspectos que também caracterizam os habitantes de Mapleton (Nova Iorque) retratados. Ver The Leftovers é trazer ao pensamento aqueles arrepios do ego derivados da migalha cósmica que é ser humano. Porque a nossa certeza é só uma: um dia vamos todos morrer.



6. Cresci, principalmente na adolescência, de uma forma invulgar. O isolamento deu origem a e aprofundou idiossincrasias. Acham-me estranho, inadequado, entediante e, do mesmo modo, eu acho muitas das convenções sociais desinteressantes, altamente aborrecidas. Festas, actividades, cerimónias, conversa fiada em que não há contacto humano, só um passatempo. Deve-se fazer tudo de determinada maneira e ao que parece ainda bem que é assim. Só consigo encontrar interesse em certas coisas se for para estar com pessoas de que goste, com amigos... Como só existe uma pessoa que possa considerar amiga e estou com ela fisicamente umas três vezes por ano, essa hipótese de interesse mal se coloca hoje em dia. Sou um permanente choque cultural andante.

7. Adoro conversar sobre ideias, pensamentos e sentimentos, mesmo que não sejam os meus. Gostava de falar nisso no dia-a-dia. Era algo muito fixe que tive a certo ponto no secundário... O que oiço e aquilo em que me é possibilitado participar são quase sempre conversas de treta sobre eventos, actividades, rumores, pessoas... (Nada contra não fosse o seu domínio absoluto.)

8. Não gosto que seja bom ocultar defeitos, fraquezas e que, em contrapartida, seja positivo alguém se gabar perante os outros. Contudo, vejo-me quase obrigado à parte de ocultação, porque todos o fazem e ao que parece é melhor ter sorrisos forçados na cara, ser muito alegre do que ser-se sincero, mostrar-se tristeza e emoções feias (como raiva) quando elas existem. Eu escondo o negativo com cara de quem não quer saber de nada... Na minha utopia mesmo o que está mal é exprimido, de forma consciente e sensível.

9. Só as poucas pessoas isoladas, invisíveis (mesmo que por outros motivos) me poderão aceitar, compreender e só elas me poderão vir a considerar importante na vida delas. Não aceito, nem tenho qualquer iniciativa com pessoas que eu perceba terem uma rede social extensa, pois convenci-me que também não me irão aceitar. Se já têm muitos seres humanos na sua vida, eu não vou servir para nada, vou ser uma formiga. São preconceitos que não consigo evitar, encontro fundamentos para os ter: experiências passadas.

10. Mais uma vez vou ter de adiar tudo. Até ao final da licenciatura já não posso fazer nada. Necessito de partir do zero com pessoas diferentes (o problema é que dificilmente encontrarei pessoas que estejam também num estado zero).

Interlúdio C: Há artistas musicais que vagueiam no teu radar durante anos. Porque o primeiro contacto não te instigou a aprofundares-te neles, acabas por ignorá-los. Os Silverchair contextualizam-se aí para mim. Pelo meu histórico de gosto estético, se tivesse ouvido "Miss You Love" há 2 ou 3 anos atrás, adorá-la-ia desde então. É sobre depressão e incapacidade de sentir. Belo vídeo! A ideia de visionar um filme romântico sozinho no cinema é ultra melancólica. A dicotomia estabelecida entre o escuro do lugar do espectador e a claridade da tela, o visionamento a solo em contraste com os demais ladeados por "gente querida", entre outros aspectos, cativa-me imenso. Cria-se uma micro-cidade, mas o escuro e o escapismo da arte potenciam uma tristeza feliz, sonhadora. É algo no qual quero pensar e sentir para então conceptualizar. Tenho a minha experiência com o Her, logo numa altura em que andava desolado e hipersensível, para ajudar.



11. Há tantas histórias, tantos exemplos de pessoas que se sentem mal, isoladas, em fase casulo no secundário e que depois, nos tempos de faculdade, superam isso... Parece ser assim com quase todas. Comigo não só não foi, como as coisas pioraram (apesar de sentir que cresci, melhorei, etc.). Os últimos dois anos correspondem ao período de maior solidão da minha vida. Nunca senti a mesma angústia, impotência que já senti durante este período em determinados momentos. Antes, bem no fundo, acreditava que era provável as coisas mudarem.

Muitas pessoas têm sempre aqueles sonhos/objectivos de dificílima realização. Para mim, algo tão simples, normal, natural como ser próximo, importante, permanente para outros seres humanos tornou-se, tristemente, num desses sonhos...

Quando se chega ao ensino superior praticamente a zeros em relações, estes tempos tornam-se quase uma questão definitiva de "ganhar ou perder". No meu caso em específico, existiu no início a hipótese de criar algo com pessoas sem vida estabelecida na cidade para onde fui estudar. Não aconteceu, independentemente das razões... Essa hipótese esgotou-se. Aproximei-me um pouco de 4 pessoas, mas só havia à-vontade e não conexão. Além de que já estavam enquadradas no lugar em causa, sem disponibilidade/interesse em outras. E duas delas tiveram comportamentos incorrectos comigo, sobretudo...

12. O "caso especial". Nunca gostei tanto de alguém a nível amoroso, logo quando menos esperava que pudesse sentir cenas tão giras. Avancei (nunca tive iniciativa antes; sempre tive medo de rejeições; raras vezes as minhas paixões passaram de projecções de ideais em mentes e corpos desconhecidos, também por isso a norma era ficar em silêncio) com muita cautela durante cerca de três meses, sem grandes esperanças, cada vez a gostar mais. Iam-se formando laços de conhecidos a pender para algo mais humano, a comunicação no dia-a-dia aumentava/naturalizava-se e os meus flirts não eram mal recebidos (só se fosse ultra estúpido é que insistia após negas)... Depois, num intervalo lectivo, a situação tem óptimos desenvolvimentos, conversas longas, de vertente pessoal, feedback inesperado, etc. Até concluir que...

Fui objectificado para vaidade e aumento do ego numa lógica de "Estou-me a cagar para ti, não pretendo sequer ser tua amiga e gosto de outra pessoa há imenso tempo (nota: dito pela própria no fim). Todavia, enquanto não se concretizar nada com ela, vou dar-te atenção, falar contigo via online (ou seja, procurar-te na tua ausência) por iniciativa minha (2/3 das vezes) quase todos os dias durante mais de uma semana, retribuir elogios aqui e acolá e fazer-me de surpreendida quando falares bem de mim. Tudo porque gosto da atenção que me dás. Que te possa magoar não me interessa, nem é algo que me passe pela cabeça... Quando a relação que eu quero se iniciar, faço-te saber disso e sirvo-me dela para te mandar ir dar uma volta com uma indirecta, porque já não me dás jeito". (A ironia de eu me colocar no lugar do "caso especial" deste modo é que eu nem a uma frase devo ter tido direito na consciência dele.)

Poderiam ser suposições minhas, deixam de o ser a partir do momento em que de um dia para o outro essa pessoa muda de "só muito recentemente percebi que gostas de mim" para "já tinha percebido há bastante tempo que gostas de mim". ORA FODA-SE!!! Mas deste-me bola... Não consigo, não consigo compreender certas atitudes de gente adulta, ainda para mais quando essa pessoa salientava o quanto gostava de estar sozinha e o quão ocupada era a sua vida. Aceitava que só me visse como potencial amigo e, a seguir ao que ocorreu, deixei mesmo bem claro que desejava que pudéssemos sê-lo (reagiu com indiferença e desprezo).

Aliás, sendo honesto, mais do que qualquer não correspondência amorosa (que ultrapassei e que podia estar em sintonia com atitudes que ela foi tomando), o que me "matou" foi mesmo perceber depois que nem era ao menos uma questão de amizade (o que consolidou a minha versão como mais que uma suposição; a sua atitude seria bem menos ranhosa nesse eventual contexto no fim de contas falso). É que, ainda por cima, numa conversa comigo, tinha-me incluído estranhamente num grupo de meia dúzia de pessoas que afirmou serem aquelas com que melhor se deu em toda a vida no que a colegas de turma diz respeito. Passado tudo isto, não se dignou sequer a uma justificação ou a um lamento sincero e empático pelo que fez... 

Lá segui eu, simpático até de mais, a pedir desculpa por coisas de que não tinha culpa (agora sinto-me embaraçado por ter sido subserviente e não lhe ter dito o que merecia ter ouvido), enquanto estava destroçado por dentro. A indiferença de que fui alvo não ultrapassei, reanimou outras ocorrências. Junte-se o facto de me ter tornado susceptível a ficar afectado com tudo, ainda mais hipersensível do que já sou durante uns meses. Hoje estou a escrever acerca do assunto - provavelmente não o faria se já não sentisse mágoa.

Enfim... Espero um dia "conseguir" gostar de alguém assim ou até mais... E que nessa altura seja alvo de outra consideração, tratado como um ser vivo. Um dado adquirido é que não me volto a expor tanto...

Interlúdio D: Em Abril/Maio aproximei-me de um subgénero musical que até aí só conhecia de nome: slowcore/sadcore (auge nos anos 90). Letras sombrias, tempos muito lentos e melodias sorumbáticas. Sintomático do meu estado de humor de então... American Music Club, Ida, Carissa's Wierd foram bandas com que me conectei. Dito isso, a grande descoberta foram os Red House Painters, a minha revelação musical de 2014. "Have You Forgotten" até é menos depressiva que boa parte da discografia em que encaixa ("24" é perfeita para chafurdar na lama). Trata-se de um olhar nostálgico, contemplativo sobre a infância, a adolescência, a grandeza das pequenas coisas. "The smell of grass in Spring / And October leaves cover everything." <3 



13. Realisticamente, não tenho outro lugar onde conhecer pessoas senão as aulas, não fossem elas e estaria sempre sozinho como acontece no Verão em que só estou com outros (sem contar com os meus pais) um par de vezes por semana para jogar futebol. E tenho interesses tão reduzidos, concretos, individuais... Agrada-me estar sozinho, mas a minha introversão tem limites, detesto sentir-me encarcerado (óbvio).

Neste momento visualizo uma só brecha nesta situação. Os 2 anos que tenho de mestrado (ainda não sei onde nem no quê)... Talvez aí possa conhecer alguém... A probabilidade sobe um pouco visto que em princípio não vou fazer mestrado no meu curso (logo vou estar com outras pessoas)... Ainda assim comigo é sempre mais provável não ocorrer do que ocorrer... Nem chego a conhecer indivíduos suficientes para me deparar com identificação mútua. Para além de que estou muito céptico de que haja grande interesse dos outros em formar relações com colegas de turma nesta fase tardia...

Depois disso, tudo leva a crer que o mercado de trabalho seja uma espécie de faculdade ao quadrado em termos de criar relações. Isto no sentido em que aquele factor de dificuldade de as pessoas já terem um círculo de pessoas próximas se acentua e de passarem a ser mais nessa situação. O tempo livre é menor, o ambiente é mais de profissionalismo e menos de convívio, informal... Isto contando que irei assegurar emprego na minha área de estudos. Não sendo assim, é ainda mais improvável existirem interesses semelhantes que possam promover uma conexão. 

As perspectivas de em Julho de 2017 eu ainda andar a ansiar por 2 ou 3 vínculos humanos são bastante boas (também sei ser positivo).

Não sei, não sei mesmo como vou encarar décadas de insignificância que hoje, fruto da idade e de ainda ser estudante, vou disfarçando de mim próprio com gotas de motivação derivadas de uma réstia de esperança no horizonte.

Interlúdio E: O trailer é fraquinho e a quantidade de palavras nele contidas vai contra a natureza do filme. 3-Iron é um romance progressivamente surrealista em que os planos de mood - característicos do cinema asiático - são aplicados com excelência. Os protagonistas não dialogam. Expressões faciais, gestos, posturas e atitudes dizem o que há para dizer. É um trabalho que lida com o conservadorismo, a misoginia e o anseio de libertação, quer corporal quer espiritual. Ou até mais com a confiança, a fusão de hábitos/personalidades e com a impermanência - o filme não é japonês, ainda assim transpira uma visão wabi-sabi do mundo. Vejo-me obrigado a destacar as camadas de significado conferidas a uma bola de golfe. Admirável. A Ásia fascina-me...



14. Em jeito de conclusão... Não quero amizade e amor por pressão social (claro que ela está impregnada em mim como em todos, só que neste aspecto é secundária). Durante a adolescência, descobri/experienciei durante alguns meses (em retrospectiva são só fogachos de paraíso) o que é ter amigos - o conforto, o humor, a diversão, a pertença, a confiança - e o que é estar com alguém de que se gosta - a intimidade a dois, a paz, o bem-estar como cenário mental mais habitado, fazer feliz a pessoa que mais se quer fazer feliz, uma vida que parece ir um pouco mais além dos limites corporais, de consciência e a energia expansiva inerente... Deduzo que toda a minha audiência imaginária saiba melhor dessas coisas "engraçadas" do que eu...

Eu anseio por conexão porque nada se lhe compara. É um clímax existencial. Estar sozinho é o dobro da dor e metade do prazer. Porque não há partilha do positivo e do negativo. Tudo perde sentido, tudo é insignificante. Como eu tenho sido quase sempre...

Só ser excepcionalmente bom em algo (hipérbole, bastava ser relevante a uma escala regional, sempre bastou...) poderia atenuar a angústia da solidão, mas sou apenas acima da média num par de actividades e isso não chega para ter impacto positivo noutras vidas ou num colectivo. Quanto mais só fico, mais crescem perfeccionismos, materialismos/quantificações psicológicas e digitais, obsessões compulsivas, de organização, que me levam a procrastinar e a fazer pouco de relevante no dia-a-dia.

Não sou um desígnio divino, nem tenho estrutura mental ou talento para me aproximar de um. Sou dolorosamente mediano (ou perto disso), sem que me seja concedido ser humano como quase todos são...

quinta-feira, 13 de março de 2014

Empatia / Simpatia

Daqui. Um dos meus sites favoritos e este artigo é excelente...

"A verdade é, raramente pode uma resposta tornar algo melhor - o que torna algo melhor é conexão". Como concordo com isto... Fantástico quando conseguimos estar com alguém em silêncio, quando falamos sem ter de falar, quando em vez de julgarmos compreendemos e aceitamos... É como uma ponte entre consciências... E acho que poderia ser um fenómeno um pouco mais presente, se a maior parte das pessoas não preferissem conversas banais a conversas sobre ideias, pensamentos, sentimentos (ou então a explicação advém da tal deprimente construção social de que falar sobre essas coisas é uma demonstração de fraqueza). Na minha experiência, são, quase sempre, essas conversas que possibilitam a tal conexão no silêncio, porque partilhámo-nos com determinado ser humano de antemão.

O vídeo a seguir foca-se na diferença entre simpatia e empatia. Em relação a isso, só queria expressar que considero a simpatia sobrevalorizada. É, muitas vezes, superficial e enganadora. Quantas vezes não passa de uma atitude conforme as regras de etiqueta, de gentilezas, de tentar ocultar defeitos (que num mundo melhor seriam assumidos e exteriorizados) e de passar a ideia que está tudo perfeito... Também já me aconteceu aproximar-me de pessoas altamente simpáticas para vir a perceber que num registo mais íntimo estas são frias, indiferentes e sem qualquer preocupação em não magoar interlocutor x, sem empatia... Com pessoas não exageradamente simpáticas, este problema não se coloca, pois não permitem que se construam expectativas e por tenderem a ser mais honestas (parto da minha experiência).

Na simpatia há apenas um reconhecimento do estado da outra pessoa. Não há disponibilidade para encontrar dentro de nós a emoção, a dor, a alegria dela. Aí há empatia, é um pouco como identificarmo-nos com a personagem de um filme, por exemplo. Claro, a intenção de se ser simpático pode até ser boa (será assim na maior parte dos casos). Só que no fundo revela distanciamento e quando a emoção dessa outra pessoa é negativa, a tendência é apenas para a tentar negar e não para a compreender...

De destacar isto, por último: "A vulnerabilidade não é boa nem má. Não é uma emoção sombria, nem é sempre uma experiência positiva, luminosa. A vulnerabilidade é o núcleo de todas as emoções e sentimentos. Sentir é ser vulnerável. Acreditar que a vulnerabilidade é uma fraqueza é acreditar que sentir é uma fraqueza."


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Her

Her é um filme situado num futuro próximo que reflecte a contemporaneidade em espaços urbanos de países desenvolvidos. Nessa senda, se por um lado acompanha o retrato citadino moderno de Lost In Translation com uma fotografia polida e saturada, há por outro quase uma oposição na exploração dos mesmos temas de vazio existencial e ânsia de conexão. O início do século XXI de Tokyo em que as relações interpessoais aleatórias eram ainda uma possibilidade forte transforma-se na L.A. do futuro próximo de Spike Jonze em que o mundo digital, completamente impregnado nos diversos ramos da sociedade, as limita a um carácter secundário, de chances frágeis. Não o afirma em julgamento, mas sim em contemplação.



A noção de solidão em conjunto é explorada, tanto no caso específico de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) como nos sucessivos planos de indíviduos em contacto, via auricular, com os seus sistemas operativos, em espaços públicos lotados. Porém, ao remeter para a era da singularidade, o conceito do que é uma relação verdadeira é problematizado. Samantha (voz de Scarlett Johansson) é um de múltiplos exemplares de tecnologia artificial, é moldada a partir do seu portador Theodore, mas a verdade é que acaba por se assumir em definitivo como uma consciência, por ganhar uma voz livre. Não será a relação entre os dois mais real, honesta per se do que no momento em que Samantha propõe anular a sua descorporização através de um avatar humano?  

O filme nunca se toma a si mesmo num registo de total dramatismo e isso contribui para a transmissão de melancolia. Essa alegria de estar triste está no humor relativo às cenas dos videojogos, no minimalismo da banda sonora dos Arcade Fire ou mesmo no conforto, no apelo que a predominância de vermelhos gera.


















Theodore é um paradigma estranho da sociedade em que se insere. Tem como emprego a escrita de cartas para a relação de outras pessoas e fá-lo com competência, contudo também ele é entorpecido, revela semelhante incapacidade de expressão, provavelmente decorrente do hábito de que a tecnologia aja em nome do indivíduo. As suas constantes hesitações ao falar são disso sintomáticas. A insistência em grandes planos e no íntimo do apartamento do protagonista facilitam a empatia. 



















Her poderia estar sujeito à crítica de ser o exercício de um fetiche machista de um homem apático, auto-indulgente e deprimido. Essa crítica seria apenas um juízo moral e nunca qualitativo, a meu ver, no entanto o desenvolvimento narrativo elimina essa hipótese. Theodore reconhece a sua objectificação da ex-mulher Catherine (Rooney Mara), face à qual, com o tempo, passou a amar mais a ideia de estar casado do que a própria pessoa. É a transcendência em liberdade de Samantha que o consciencializa dos permanentes idealismos, que o torna capaz de transpor para o seu próprio relacionamento com Catherine a habilidade para a escrita de sentimentos, de reconhecer erros e elevar a gratidão por um passado em que cresceram juntos.

Os últimos momentos da obra são poderosos, culminando com um plano em que a amiga Amy (Amy Adams) pousa a cabeça no ombro de Theodore perante a paisagem urbana nocturna a partir do topo de um prédio. É um gesto de conexão, de dois seres humanos esfolados, cuja cabeça faz escala em situações existenciais simétricas e que evoca a mesma melancolia sublime de Wong Kar-Wai ou Sofia Coppola.

















Um aparte: entrou no meu top 10 de todos os tempos e motivou-me uma ideia interessante que conceptualizo como simbiose estética.

Já tinha falado de Her antes, de quanto expectava este trabalho pelos temas analisados e pela estética adoptada. Agora, em avaliação, confirma-se aquilo de que estava à espera: adorei, achei soberbo.

Cada vez me identifico mais com esta união temático-estética (semelhante à de Chungking Express e Lost In Translation, por exemplo). Deduzo que existiram, em primeiro lugar, elementos nestes filmes em que me revi e, em simultâneo, rever-me neles tornou-me num ser mais próximo (ficaram tatuados nos meus sentidos). Moldaram-me os ideais, os valores, a noção de beleza e romance (entre outras) e, por conseguinte, a minha predisposição é cada vez mais para me apaixonar por obras assim... São versões artísticas do ser que sou (e elas criam muito desse "sou"), são um espelho que me confere validação externa, conexão humana. Apresentam-me o máximo a que posso - sendo realista - almejar na minha existência...

Update Pessoal #3

1. A menos que algo forte que motive expressão ocorra, vou entrar em blackout do "eu" (de posts deste tipo) nos próximos tempos. Estou cansado, exausto de mim, dos meus festivais de egocentrismo. Claro que eles acontecem por ter poucas pessoas com que me preocupar e por elas não estarem presentes fisicamente. Nada me daria mais prazer que poder focar-me, atentar em alguém que não eu. Acredito com convicção que tenho algo a oferecer a colegas de espécie. Frustra-me que males invisíveis, obstáculos interiores sejam a minha cruz a suportar, que nunca me faça ver...  

2. O que é que uma rejeição que foi, face aos desenvolvimentos recentes, inesperada significou para além da dor imediata e aguda que acarretou (ainda bem que esqueço estas coisas com facilidade)? Primeiro, a perda da expectativa foi uma artéria perfurada, um maremoto do subconsciente para o consciente de uma hemorragia interna que estava estanque. Essa hemorragia é o meu isolamento opressivo... É fodido. Tento sempre construir-me à volta de outras pessoas e nunca gostei de alguém assim... Neste caso, depois da desilusão inicial, custou mais compreender que ser humano x se está a lixar para mim a todos os níveis... 

Mas houve uma segunda consequência, uma luz. Falta encontrar o túnel que me leva a ela... Sofri uma injecção de niilismo, estou mais solto. Em relações, pior do que me aconteceu é improvável. Também reflecti a fundo sobre todas as vezes em que fui incorrecto ou não me expressei como devia com outros. Estou a fazer certas pessoas saber... Sinto que me tenho tornado melhor nos últimos meses. Mais flexível, empático, tolerante. Isto veio acentuar essa evolução. Noutro plano, se quiser ser positivo, há um número substancial de atitudes/acções/iniciativas tomadas nos últimos tempos (desde Dezembro e ainda mais depois do que aconteceu...) a que sempre fugi no passado. Só receio que aos 20 seja um pouco tarde...

Interlúdio: Isto x1000!!!

"I'm not saying that I'm giving up
I'm just trying not to think as much as I used to
Cause "never" is a lonely little messed up word
Maybe I'll get it right some day
For the first time in a long time I can say
That I want to try
I feel helpless for the most part
But I'm learning to open my eyes
And the sad truth of the matter is
I'll never get over it
But I'm gonna try
To get better and overcome each moment
In my own way"




3. Devia-me ter "vestido de palhaço" em permanência (não só de vez em quando) no início do ano lectivo transacto e devia ter anuído "sim" a mais coisas. Nunca me foi muito difícil actuar e era por aí que ia criar possibilidades. As pessoas simpatizam com quem baixa as defesas, demonstra as imperfeições e é activo, empático, cómico... Deixa de ser um concurso de ocultação de defeitos... Tive as minhas razões (para lá de transtornos psicológicos), mas nem as vou enunciar, pois eram erradas... Infelizmente, segui o meu retrato de adolescência: um tipo só sentado num banco. À espera. À espera de nada como se isso pudesse num tiro de sorte levar a tudo... Agora é complicado. É complicadíssimo fugir a ideias que se cimentam sobre algo ou alguém. E não visualizo nenhuma actividade ou lugar em que me possa recriar. Sempre isto...

4. Um amigo propôs-me uma determinada ideia e não podia concordar mais. Espero, portanto, que o que vou afirmar seja um pouco menos absurdo (para lá da parte de ser uma generalização). Se por um lado a interacção profunda com pessoal somente hedonista, que não tem anseios de instrução, é quase impossível (desde logo porque estes a desprezam), por outro há nos mais academizados, nos intelectuais algo que me é incrivelmente repulsivo: a colocação da razão num pedestal e, em alteridade, o julgamento de que a sensibilidade, a emoção é algo inferior, rasca... Aplaudo sempre esta citação: "O miserável receio de ser sentimental é o mais vil de todos os receios modernos." Eu estou a meio caminho dessas duas generalizações, o que é chato... Quero aprender, mas quero sentir com violência...

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Update Pessoal #2

De volta a uma determinada espécie de post... Mas é bom sinal que desta vez não tenha muito que reportar e que a sensação de fatalismo se tenha desvanecido. Sei que viver implica altos e baixos, só não quero desistir de realizações, de bem-estar emocional, de agarrar com agrado e perspectiva positiva a estrada em que estou. Tenho angústia que chegue (para impelir movimento) quando estou mais ou menos bem. Como agora...

1. Janeiro é me invariavelmente um mês tão opressivo, de desânimo avassalador, como a ressaca de uma antecipação de um clímax que não chega a acontecer e resulta em reset... Sabe bem poder emitir que em 2014 fugi à regra. As notas satisfatórias, por si só, não justificam este twist. O que mudou é que, através de tímidas iniciativas, sinto que estou a criar mecanismos que me permitem ter uma noção de possibilidade exterior (isto foi bué meta). Com isso quero dizer que parece possível desenvolver determinadas relações ou situações com outros seres humanos. Não estou num poço de alienação. Desde o final do secundário que não podia afirmar tal coisa. Tenho estado só sem ficar só, tenho alcançado solitude sem a necessidade de métodos de escapismo ou de entorpecimento como ocorre no Verão. Não posso voltar a isso, por mais que uma reacção anestesiante a que se conhece os cantos seja apetecível pelo conforto.

Interlúdio A: Estou numa fase doentia de The Cure. Adoro estas pancas que me aproximam de determinado artista musical, que me fazem escavar discografias. Já gostava bastante da banda em causa, agora esse gosto está a ascender a algo como um top 10 de todos os tempos, onde figuram bandas com que cresci, em que me moldei, melhores amigos. É ridículo que os The Cure sejam caricaturados como nada mais que uma banda gótica (numa acepção simplória) e melodramática... Disintegration é um dos melhores álbuns que alguma vez experienciei! Uma das canções que mais tenho ouvido (intitular "Untitled" um trabalho sobre incapacidade de expressão é tão inteligente):


 2. O que referi no ponto 1 tem também que ver com o facto de estar a sentir o que estou a sentir por ser humano x. Muito longe de idealismos estúpidos. Passou um milhão de anos desde que passei por um estado semelhante. É possível aliás que nunca tenha passado por isto desta forma. Não com esta certeza e prolongadamente. Quanto mais conheço, menos dúvidas tenho. Tomo-me como uma pessoa melhor ao empatizar com alguém em tamanho grau...

Além disso, não me tenho pautado pelo silêncio. Porque isto é real para mim. Tenho mostrado, tenho dito o que se passa de inúmeras maneiras sem, de verdade, o dizer... Não estou à espera... à espera de nada. Estou a iniciar, a lembrar x que eu existo, a lembrar-lhe que lembro a sua existência. Consequência: de súbito estou mais próximo do que parecia realístico há um mês atrás. As palavras saem tão leves, tão fáceis, sobre os mais diversos assuntos. Essa simples receptividade, sintonia tem me levado a segundos de melancolia transcendente, de êxtase emocional a que por norma só acedo pela arte e num nível mais ténue.

Se pessoa y demonstrasse interesse mais que "amigável" em mim sem que eu o reciprocasse, nunca permitiria qualquer aproximação. Ando a ser tão indirectamente óbvio (acho)... Porém o meu "óbvio" pode não o ser para o interlocutor e posso estar a ser visto como potencial amigo.

Esta ilusão, fundada em factos, faz-me bem, mas convém estar preparado para uma desilusão. É impossível deixar de ter expectativas quando não quero deixar de as ter... Logo se vê. Se for preciso chafurdar na lama, vou agir para que seja algo breve. Vou tentar não me oferecer, não voltar a sobrevalorizar pessoas que se estão a lixar para mim. Estou cansado de me fazerem sentir anedótico, inútil, etc.

Interlúdio B: Se em música tenho estado em mood para The Cure, em cinema tem sido o film noir a empolgar-me. Sempre simpatizei com a fotografia de alto contraste, com os cenários urbanos e nocturnos conjugados com personagens de moral ambígua, com tormentos psicológicos e com diálogo inteligente e cínico. No passado nada me encheu as medidas. Até que esta semana Out Of The Past me arrebatou. Aqui fica um trailer (ranhoso):



3. Metade da minha licenciatura está completa. Felizmente os mínimos que estabeleci no início do meu percurso no ensino superior deixaram de o ser após um único semestre. Aumentaram e mesmo assim tenho margem de manobra de cerca de 1,25 valores. Se acabasse com a média actual seria fantástico, mas não quero incutir em mim um acrescento a uma auto-pressão já exagerada. Num plano prático, para além de estar a adorar, agrada-me a sensação de estar a aprender, a melhorar, a descobrir em áreas que correspondem aos meus grandes interesses. Nomeadamente em cinema sinto-me hoje muito mais capaz de análise e portador de maior conhecimento histórico do que antes de começar o curso. Só continuo anómico face à escolha futura de um mestrado...

Poslúdio: Não acompanho Family Guy. Não sou grande fã, diga-se. De qualquer modo, esta cena é digna de um qualquer hall of fame:

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Short Term 12

Longo longo tempo se passou desde que um filme me afectou emocionalmente com tamanha intensidade. Desde já um favorito! Quando se trata de uma pérola indie, sinto-me na responsabilidade de tentar cooperar o pouco que for para a sua divulgação (se um ser humano vir a obra em causa pelo meu post já estou a contribuir para um mundo melhor). 



















Short Term 12 remete para um centro de acolhimento de adolescentes cujo staff é constituído por vários jovens nos seus vinte e tal anos, dois deles namorados (grande actuação de Brie Larson, num registo comedido em que deixa o silêncio e a angústia "falarem" por ela) e também com um passado conturbado. Em termos narrativos, o foco é na sua relação e no seu envolvimento com dois adolescentes em particular (destaque para a excelência do desabafo metafórico através do rap no caso do rapaz e do conto/narrativa no caso da rapariga).

 













Ritmo retraído e extremamente envolvente, câmara irrequieta e intimista. Sabe a poesia... Os acontecimentos dramáticos nunca parecem forçados ou manipuladores. Com o auxílio de um minimalismo sonoro e de performances convincentes, o equilíbrio entre tristeza e humor é pleno, genuíno. O circular final em slow motion é perfeito, capturando o ambiente etéreo proveniente das conexões interpessoais no centro de acolhimento, um lugar onde a dor não é só almofadada. Aí, essa dor aprende a ser adulta, a partilhar-se com os outros, com a dos outros. 

O rato acolhedor pariu uma montanha comovente... Os meus olhos estão em sofrimento. Entre as horas que não durmo nas vésperas de exames e beldades como esta... Conhecendo-me, de 2013 só Her me poderá causar maior impacto. 

sábado, 21 de dezembro de 2013

Álbuns De 2013: Top 20 De Favoritos























1. The 1975 - The 1975
2. Jimmy Eat World - Damage
3. The National - Trouble Will Find Me
4. Paramore - Paramore
5. Arcade Fire - Reflektor
6. The Wonder Years - The Greatest Generation
7. Phoenix - Bankrupt!
8. Kanye West - Yeezus
9. Vampire Weekend - Modern Vampires Of The City
10. AFI - Burials
11. Tegan And Sara - Heartthrob
12. Daft Punk - Random Access Memories
13. Chvrches - The Bones Of What You Believe
14. Moving Mountains - Moving Mountains
15. Alkaline Trio - My Shame Is True
16. My Bloody Valentine - m b v
17. Haim - Days Are Gone
18. Sky Ferreira - Night Time, My Time
19. Fall Out Boy - Save Rock And Roll
20. John Mayer - Paradise Valley

domingo, 1 de dezembro de 2013

Sob O Efeito De Nada

Quando se criam circunstâncias exteriores (sou um fantoche delas, tenho somente a liberdade de as hiperbolizar - e como a vontade se lhe apega após uns tempos em que a sua existência foi de todo a sua ausência...) para eu me sentir melhor, também a sombra delas se aproxima proporcionalmente de mim...

Este semestre estou mais rotinado e menos distante de uma ou outra margem. Já é norma uma ascendência psicológica no meu segundo ano com um determinado grupo de pessoas: 9º > 8º; 11º > 10º. É o que demoro a ser o que os outros são logo num par de meses... Ao mesmo tempo, essas melhorias ligeiras que eu não tomo nunca como fim, mas como um meio para algo maior, um período feliz constante, são sempre anticlimáticas. É como se os meus desejos apagassem as velas e pedissem a falta deles. Nos restos, há só ânsias goradas de um clímax existencial.

Quando - à falta de termo à altura em português - a infatuation entra em jogo (julgava-me já imune), não posso não pensar que tudo se tornou um estúpido círculo vicioso.

Sei bem a razão: a plena falta dela. De existir... Causa o irracional mais lógico... E então olá anagnose. Cada passo maldito, bendito faço (cada dia é tão escasso)... Hey, dor de cabeça! Hey, obsessivo conflito interno como um esterno! Hey, potencial razão de existir!

Mas por fim, de novo, sem escuro idealista (estou cego pela essência da luz que vejo). Que morra essa merda!!! Desta vez o objecto sou eu, só eu, da falta...

Iniciar processo de inferiorização a tudo aquilo de que não sou nada digno, iniciar processo de divinização do nada que é tudo! Hiperbolizar auto-destruição pelo irracional tomado racional em cada sinal... Teu sinal meu. Raios, na mesma a objectificar!

De qualquer modo, honestamente, o rés-do-chão é o verdadeiro subterrâneo. Prefiro forçar o gume possível: tristeza. Prefiro um futuro em que o presente me habita vivo. Porque cada vidro que me corte hoje é uma tela de cinema amanhã... 

sábado, 30 de novembro de 2013

10º Aniversário Do Álbum Que Mudou A Minha Vida

Uns fragmentos (com muita contextualização, pouco cuidados, não muito bem escritos) para comemorar o 10º aniversário do álbum homónimo dos blink-182, a obra de arte mais importante da minha existência...




















2006, os primeiros meses do meu 8º ano. Iniciava-se a minha adolescência, começava a entrar nos meandros mais pessoais da internet através do chungoso Hi5 e do saudoso MSN. Até esse ponto, a arte não figurava nos meus interesses, não estava sequer na minha esfera, era um mundo distante. No caso específico da música, podia ter um ouvido mais predisposto ao rock mainstream da viragem do milénio (nu metal) - Linkin Park, Korn, Papa Roach, etc - por influência do meu irmão mais velho (já que o que ele ouvia chegava a mim como se fosse um fumador passivo), mas era somente isso... Tudo superficial. Já conhecia um pouco dos blink-182 a partir desse fumo. Como eu engraçava com "The Rock Show" e o seu hilariante e metalinguístico teledisco enquanto criança...



É nesse contexto de miúdo a encarar o gigante chamado Internet (para lá de jogos ou sites de jornais desportivos) que começo a traçar um percurso de ouvinte musical (e o meu crescente domínio do inglês é um auxílio a relacionar-me com letra de músicas). Os blink assumem-se desde logo como o meu grupo preferido e para grande desgosto meu eram então uma banda inactiva... Os álbuns Enema Of The State (1999) e Take Off Your Pants And Jacket (2001), exemplos máximos da onda pop-punk estadunidense de 1999 a 2004 preenchiam os meus dias... Em retrospectiva, são trabalhos cuja minha apreciação decorre muito da nostalgia. Pelo âmbito reduzido, estando focados num lado mais superficial do que é ser adolescente em termos de letra e pela extrema simplicidade / convencionalidade sonora. 

blink-182 (2003) é diferente! Ainda que o álbum seja cada vez visto com melhores olhos e tomado como a magnum opus da banda pela crítica e pelos fãs, num espectro geral, infelizmente, não é a sua imagem de marca. A visão sobre os blink-182 é redutora, limitando-se ao humor de casa de banho, à imaturidade, à rebeldia... Esta obra cai no esquecimento como um membro estranho para os menos atentos, mais ainda num país periférico e insignificante no que diz respeito ao impacto dos blink (de Portugal, em sintonia, só tenho a cultura nos pés, o que é frustrante...). A minha opinião (longe de solitária) é que o 5º e auto-intitulado álbum de originais do trio justifica uma reavaliação dessa concepção.

Não é um Kid A, não é visionário, claro. Em relação à sua influência, talvez se possa ligar um pouco à ascendência comercial de uma vaga de artistas "emo-pop" como My Chemical Romance, Panic! At The Disco e Fall Out Boy  em meados dos anos 2000. Somente isso. 



Estranho que mesmo aos 13 considerasse este álbum o meu preferido da banda, muito menos que ao longo dos anos essa posição tenha sido reforçada. Em blink-182, Mark, Tom e Travis exploram o seu lado de fãs de The Cure (também eu sou) e o resultado é um álbum irrepreensível de rock alternativo. Soa ao que é, a uma banda de pop punk a desenvolver-se numa ambiência que mistura o post-punk / new wave dos anos 80 com o post-hardcore do princípio dos anos 90 (por exemplo Quicksand e Fugazi). No fim, há um álbum diverso, mas coesivo. Merecedor de um dos meus clichés preferidos em críticas musicais: é melhor que a soma das suas partes, cria um tom singular. Algo justificado por um processo de gravação minucioso, de experimentação, de laboratório musical. Sem dúvida que é um caso em que a audição por fones é preferível. Vários easter eggs e detalhes que tornam audições repetidas apetecíveis. 

"Feeling This" é o exemplo exímio do que a banda se tornou neste álbum. O uso de flanging adiciona textura, dimensão aquando da introdução com a bateria, esta percorre um percurso irregular (à falta de conhecimento teórico musical, fico-me por aí) e revela mais que nunca o talento e inventividade de Travis Barker, as influências de hip-hop na sonoridade dos blink. Na mesma canção, o potente final harmónico em que as vozes de Mark Hoppus e Tom Delonge "combatem" e que culmina em a cappella é influenciado por Pet Sounds dos The Beach Boys... Para além disso, é interessante o contraste dialogado entre os dois lados do sexo, o romântico e o sensual/concupiscente...

"I Miss You" é uma rara balada acústica - e uma das faixas mais a la The Cure no álbum - em que um detalhe como o piano monótono ao longo do primeiro verso aumenta e muito o poder expressivo. A letra é sombria em sintonia com a música, sendo de destacar o momento belo da referência a The Nightmare Before Christmas com "We can live Jack and Sally if we want (...) And we'll have Halloween on Christmas". De resto, um exemplo de "liricismo" mais metafórico e ornamentado do que era habitual nos blink pré-2003. Basicamente e desde sempre, a minha canção número um.

Em "Violence", o uso atmosférico de sintetizador na ponte  e as vocais faladas/sussurradas de Mark em pano de fundo sublinham o clima de obsessão que a personagem inscrita na canção sente por uma mulher num bar...



"Stockholm Syndrome" é precedido das palavras de saudade e ânsia de uma mulher a enunciar uma carta até explodir na canção mais agressiva da discografia dos blink (após uns segundos de estática)... A urgência, o desespero, a paranóia como temas. Nunca o contraste entre as vocais graves e macias de Mark e as vocais agudas, desesperadas de dor de Tom foi tão efectivo." You're cold with disappointment / While I'm drowning in the next room / The last contagious victim of this plague between us / I'm sick with apprehension / I'm crippled from exhaustion / And I dread the moment when you finally come to kill me..." Estes versos seriam impensáveis na fase pop-punk do grupo.

"Always" é uma ode à New Wave / New Romantic dos anos 80 com o uso proeminente de sintetizador. Mais uma vez destaque à voz de Mark em background, à dimensão que confere...

A transição de "Easy Target" para "All Of This" demonstra a vontade de unificar o álbum. O outro da primeira num ruído que se assemelha a uma qualquer transmissão alienígena transforma-se na frase musical de abertura, no staccato da segunda (há também uma aliança temática; em ambas encontramos a personagem Holly). "All Of This" conta com o próprio Robert Smith dos The Cure como vocalista principal. A percussão "pesada" numa melodia sorumbática aprofunda a angústia da canção.



"I'm Lost Without You" é uma faixa final ("Not Now" foi um bónus na versão UK do álbum) épica, com layers e mais layers. O primeiro minuto e meio com ambiências electrónicas é reminiscente de Pink Floyd ou Radiohead... O uso de um microfone rotativo faz com que a voz de Tom pareça surgir de debaixo de água, acentua a ambiência de transe e melancolia da canção. "Are you afraid of being alone / Cause I am, I'm lost without you / Are you afraid of leaving tonight / Cause I am, I'm lost without you" tornam-se palavras quase hipnóticas... Nos últimos 40 segundos Travis Barker viola a bateria num solo em ritmo reminiscente de marcha (há dois layers porém) e blink-182 fecha de um modo algo circular.

Articulando isso com a minha vida, acho que nunca me teria apaixonado com tamanha intensidade pelo mundo da arte sem este álbum. Foi ele que abriu as portas e, uma vez lá imerso, nunca mais me deixou sair. Ao mesmo tempo que expandia os meus horizontes musicais, era uma constante, a minha conexão com ele solidificava-se, pautando toda a minha adolescência. Por mais que seja fã de quase toda a discografia da banda, é por este trabalho que a vejo como eterna favorita. Se não me tivesse atingido, é dúbio que mais tarde entrasse no universo do cinema, das séries de TV, da literatura... Catalisador de tudo! Define-me, é um marco identitário. De modo distante foi ele que me levou a Lost e ao Lost In Translation (completam o meu pódio artístico, creio...), por exemplo...

blink-182 é um paraíso estético para mim. Dos telediscos, da capa do álbum até à música. A "catchiness" mantém-se como elemento nuclear do trio, a paisagem sonora é ampla como nunca foi. Não é um álbum só para adolescentes, mas sim algo até mais relacionável para alguém nos seus vinte (e poucos ou muitos, tanto faz). Uma ambiência urbana e moderna em que a paixão, a agressividade e a urgência dialogam com a melancolia, a angústia e a desilusão. Sem ele, eu seria outra coisa qualquer. Foi ele que me desobstruiu a sensibilidade artística, foi ele que me causou os primeiros arrepios... É um amigo e enquanto eu respirar e contar com a memória em pleno, esta obra vai sempre estar carimbada no meu interior. Sinto por ele o que gostava de poder sentir por pessoas, não fosse este mundo tão volátil para mim em relacionamentos interpessoais... Esteja deprimido ou eufórico, apaixonado ou alienado é a minha banda sonora, é um caleidoscópio e um amplificador nos sentidos!