domingo, 6 de fevereiro de 2022

Da Necessidade De Uma Auto-Etnografia Académica...

... ou como os poucos com uma réstia de decência num antro de sociopatas egomaníacos e falocêntricos disfarçados de "bem-comum", "colectivo", "progresso" e "inovação" admitem alguma coisa. Admitem para logo recuar... mas admitem: publicamente, para fora dos seus gabinetes e salas onde concretizam o seu projecto existencial de açambarcar áreas de estudo, trabalho e vidas. 

O excerto inicial do texto do David Graeber que transcrevo abaixo vai muito brevemente nesse sentido - intitula-se "Anarchism, academia, and the avant-garde". De resto acaba por se dedicar à harmonia entre "marxistas"/vanguardismos e uma instituição em que a nata desta sociedade digladia por posições de liderança. O mesmo é dizer, dentro dos quase todos que o fazem, quem consegue colocar mais abusos sexuais, assédios morais, promessas, esperanças, cunhas, gratidão, planos partilhados de ascensão social ou dependências fictícias com pessoas "legalizadas" inferiores dentro de uma caixa negra e fazer o sistema correr como se nada disso se passasse? Hoje mais do que nunca a lógica é a do soft power, a praga dos que "lideram sem autoridade", qual idílico rizoma dentro do superado Leviathan. Por norma são os piores, por detrás dos que já estão tão confortáveis e que se dão ao luxo de nem sofisticar o seu "brutamontes interno" (mas ainda assim precisando de ocultar assédios sexuais em série numa silva qualquer ou cairia a figura mitográfica dos génios individuais de feitio complicado), ficam os "bons"... que protegem os anteriores... Progressistas, simpáticos, preocupados, pós-humanistas, uma voz terna e calma... Libertários, estetas, poliperspectivistas que entendem todas as posições num debate e sabem gerir o que dizer e (não) fazer consoante o indivíduo ou colectivo à frente.

E depois a mínima ameaça de um qualquer merdoso enganado, manipulado e chantageado firma-se o fim do mundo em cuecas para os "bons" (que afinal são como os anteriores) a tremer pelas varas. Mais mais e mais: manipulação e chantagem... Tenho de ficar por aqui. Enfim, retomando o texto do Graeber, o problema está na conformação com o aburguesamento. E há uma distância entre "suicídio académico" e forçar a corda, uma diferença ética em não querer expor a ruína íntima do próprio assédio sofrido e calar-me ou compactuar perante a tentativa de denúncia de alguém ao lado. 

Mais até, se uma carreira universitária é essa monstruosa "situation of power", fazer parte dela aceitando um papel reprodutivo de exclusão, chantagem e absorção (decidir bolsas, empregos, artigos, comunicações alheias, lucrar com a centralização do trabalho dos outros...) é ser e incorporar esse monstro institucional. Entre ter de ser explorado e um suposto ter de ser que se firma antes num poder ser explorador, não há dúvidas. A coisa já está cheia dos diferentes que vão mudar as coisas por dentro, inclusive daqueles cujo corpo-mártir vem representar um golpe à negação de poder e um compensar da exploração histórica de um qualquer traço identitário em que se inserem. A instituição e o cargo firmam-se a segunda pele, a necessidade fisiológica de autopreservação e legado. Não há mudar dentro, fora ou os interstícios do meio do limbo sem abdicação e/ou sabotagem.

De certo modo, o massivo movimento dos 99% do qual o Graeber foi um elemento - não obstante a importância da prefiguração organizativa horizontal e de acções grupais conforme bloquear a hipoteca de casas  - "prefigura" também o problema. "Riqueza" não se circunscreve à brutal desigualdade financeira nacional/global encabeçada por magnatas ou uma micro-elite político/burocrática conivente. Implica aqueles que detêm os meios, as propriedades e as instituições sob a forma de proprietários ou proprietários temporários a que chamamos representantes. Os júris daquilo, os empregadores de acolá, os intermediários de tudo e mais alguma coisa que decidem e legitimam a subjugação dos demais, os seus empregos subalternos, a sua roupa de acordo com que marca y quer projectar, a sua livre-expressão  esmagada pelo temor da difamação e do ir de vela, o seu baixo salário consoante as impossibilidades micro- ou macro- económicas que não se aplicam à própria "classe média-alta". Isto tudo sobretudo se considerarmos o "prestígio" (palavra cancerígena) atribuído a certas carreiras. São o sustento desta bosta toda (da esquerda à direita): os grandes professores universitários, grandes juízes, grandes advogados, grandes médicos... que, obviamente, desembocam nos grandes políticos (que já eles mesmos incorporam nos cargos de gestão dos seus "pequenos" burgos)... mas esses ainda são os únicos com o mínimo de escrutínio e responsabilização extracorporativistas. 

Uma jovem não-sábia disse-me uma vez que o homo academicus pode sempre bem com disputas de poder entre "catedrismos", a verdadeira ameaça está em quem não o quer disputar mas amputar. É isso que falta fazer... Transcrevo finalmente o referido texto:

Initially, I was to write a critical auto-ethnography of my life in the academy. But I quickly realized that writing critically about the academy is almost impossible. During the 1980s, we all became used to the idea of reflexive anthropology, the effort to probe behind the apparent authority of ethnographic texts to reveal the complex relations of power and domination that went into making them. The result was an outpouring of ethnographic meditations on the politics of fieldwork. But even as a graduate student, it always seemed to me there was something oddly missing here. Ethnographic texts, after all, are not actually written in the field. They are written at universities. Reflexive anthropology, however, almost never had anything to say about the power relations under which these texts were actually composed.

In retrospect, the reason seems simple enough: when one is in the field, all the power is on one side – or at least, could easily be imagined as being so. To meditate on one’s own power is not going to offend anyone (in fact, it’s something of a classic upper-middle-class preoccupation), and even if it does, there’s likely nothing those who are offended can do about it. The moment one returns from the field and begins writing, however, the power relations are reversed. While one is writing his or her dissertation, one is, typically, a penniless graduate student, whose entire career could very possibly be destroyed by one impolitic interaction with a committee member. While one is transforming the dissertation into a book, one is typically an adjunct or untenured Assistant Professor, desperately trying not to step on any powerful toes and land a real permanent job. Any anthropologist in such a situation will, in fact, mostly likely spend many hours developing complex, nuanced, and extremely detailed ethnographic analyses of the power relations this entails, but that critique can never, by defi nition, be published, because anyone who did so would be committing academic suicide.

One can only imagine the fate of, say, a female graduate student who wrote an essay documenting the sexual politics of her department, let alone the sexual overtures of her committee members, or, say, one of working-class background who published a description of the practices of Marxist professors who regularly cite Pierre Bourdieu’s (1993) analyses of the reproduction of class privilege in academic settings, and then in their actual lives act as if Bourdieu had been writing a how-to book instead of a critique. By the time one is a senior faculty member, and thus secure in their position, one might be able to get away with publishing such an analysis. But by then – unless one is reminiscing – one’s very situation of power guarantees the object can no longer be perceived.

On the one hand, my thoughts lead me to the conclusion that it would be safer to admit to being an anarchist than to write an honest auto-ethnography of the academy. On the other hand, I am an anarchist. And it strikes me that the dilemmas that come out of this reality provide an interesting commentary on the academy and its modus operandi, which I present in this chapter. [...]

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Pluralismo Leviatitânico

Quando serendipidamente volto ou por força de trabalhos tenho de regressar ao que escrevi há uns anos sobre opressões sociais e angústias existenciais, tenho pena de mim mesmo. Gostava que essa autocomiseração fosse tão-só um "oh, o quanto eu era ingénuo", o paternalismo experiente doutrem injectado em mim. Há algo disso sim, mas pela parte maior, sempre fui um cínico com esperança desde a adolescência; um molho de contradições repugnantes, discriminatórias e hierárquicas na pele absurda e surda de quem pouco as sentiu. Dentro ficavam os ossos quebrados de um anarquista triste que não tinha palavras para o saber ser: a escola tirou-mas, a educação partiu-mos na indistinção entre a pancadaria gratuita no recreio com acessos gritados de liderança e grandes contos cautelares sobre a monstruosidade de um individualismo circunscrito a ser o meu corpo no mundo.

Foi é sempre esse o plano, aproveitar o desconto da infância, a fatalidade biológica de teres formigueiros no cérebro. A luz de alguém ou findas: fome, violado, um bife bem passado na estrada do lado. Um capuchinho vermelho. Pois que alguém lidere (a falta de sangue). Professores pais, família e pólis. A dupla injunção (des)atávica: "sê como o pai mas não sejas como o pai". E então aprendes, a apertar os atacadores. Os teus, de um amigo colega cooperação até que um dia faças antes sapatos na fábrica de um grande amigo Deus... emprega-te. Porque isso.

Respeita-o sê democrático somos todos iguais. E acho mesmo que vem daí, a escola compactuar com uma certa dose de bullying - entre estudantes -, só suficiente para ser invisível na TV. O bullying está-lhe no exangue da inevitabilidade hierárquica, dos professores fatalizados a desformigarem-te o cérebro onde acordas desabituado do mundo... vindo de um ventre qualquer. Estou a especular. No espelho de te mostrarem monstrarem como se faz... e faz-se comendo. "Vês como precisas da nossa superioridade para travar agressores", disseram todos os directores hipotéticos. (Que dispunham de todos os meios hipotéticos que não pudeste usar para travar agressores). E um esbofateou-me, o outro humilhou-me com o holofote expropriado da minha própria voz. Nunca se soube nunca houve. Mais, fosse esse o caso... "Temos de confiar no Estado de Direito, a justiça não se faz na praça pública", disse toda a injustiça no gabinete. Enfim, reconheço, não sei bem. Talvez haja um fundo de inevitabilidade e faça falta um líder fraco para pôr ordem na caça. Algo minimalista mesmo em adultos há adultos trastes. Mas cada merda de revolução degenera regenera na instituição da necessidade alargada. "Do meu salário a definir o teu", disseram todos os índices estatísticos de todos os que dizem: "O nosso corpo, as minhas regras".

Mas que génio quem se lembrou primeiro ser plural é ser "O teu trabalho à minha mangueira, a tua expressão à minha maneira". Icónico visionário humanista progressista. Era esse o plano, tirei-lhe o pano. E fui a tribunal por reclamar no meio. Da sala dele. Merda merda merda era esse o plano. Quando eu era novo. A escola nunca a "imolação progressiva da autoridade", sempre a "normalização progressiva da superioridade". Sem pancadaria gratuita no recreio sem acessos gritados de liderança, civilizar a coisa no salvífico de um individualismo possessivo que se circunscreve a ser o nosso corpo no mundo. Chamar-lhe comunitário chamar-lhe o homem que soube colocar-se no sapato dos outros. 

E de alguma maneira, voltaste. Voltaste a um ventre qualquer podes mudar daqui a 4 anos. A tua carne de cão domesticado para o ventre do lado. Era esse o plano. Foder o lobo durante o processo. Foder o lobo durante o processo. Até ao osso. O homem fode o lobo porque o homem é lobo do homem. O homem fode o lobo porque o homem é lobo do homem. Esta é a natureza humana: inventar uma para justificar a sua contradição. Hoje não te esqueças. Ser plural é soprar as velas ao corpo que te apaga a luz. Não pagaste. Se não gostares podes sempre. Crescer um ventre ou ser um bife bem passado na estrada do lado. Adultos representação podemos voltar lá, e vale a pena sonhar. Se num brilhante carro leviatitânico a olhar para mim sem me ver. Porque agora o Estado das coisas está em todo o lado. Nenhum. E e e ... Eu estou sinceramente finito de escolher entre a perda e a pedra numa urna que medra a neotenia conceptual do meu querido corpo de endosso.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Como Um Estranho A Olhar Para Mim Sem Me Ver #2

Nalguns dias preciso desesperado de oxigénio. Sinto-me tão feito, rarefeito, desfeito. Honestamente mal tenho palavras. E não prestam. Nunca chegam e nunca acabam a totalizar este monstro. Detesto como isto sabe no corpo: o velho nó na garganta, o peito a aproximar-se dela em fogachos de calor e ardor, o gosto seco na boca. Alguma coisa prestes a rebentar, mas nunca rebenta. A sensação de impotência, de impossibilidade, de inexorabilidade. Como quando tinha 9 anos e percebi mas percebi a sério que um dia vamos todos morrer: perder o apetite, perder a ideia que os meus pais eram super-heróis, perder o conto de fadas que o que acontece a toda a gente não te vai acontecer a ti também. Estar no banco de trás do carro de regresso a casa após compras e parecer que comprei todo o escuro da vida para todo o sempre. Absoluto niilismo. Como se fosse eu o céu nocturno que via daquela vidraça. Um escarro disforme e dissoluto e abaixo os dentes aguçados da Serra da Estrela, com raízes vindas do céu-breu. O carro inferior mil metros e meio, plano numa recta rumo a lado nenhum. Toda a gente vai lá viver. Até quem lá vive antes de lá viver. 

Eventualmente, adaptas-te, sobrevives. "Ainda és tão novo", introjectas bem. Aprendes a viver vicário em séries, filmes e videojogos de conforto. Entre bullying escolar e esquemas nojentos por popularidade de clones do que um adolescente deve ser e fazer, aprendes. Entre estudar para os testes, absorver a lógica do teste e do avaliado e reconhecer (o medo) da figura de autoridade "professor", sonhas. Entre efectivamente aprenderes sem perceber que estás efectivamente e sobretudo a ser domesticado para um dia servires e produzires a grandeza de alguém... Nem sonhas. Que nada do que saibas fazer importa enquanto contributo e expressão comunitária directa. Boa sorte em encontrar a "qualidade" e a "subsistência" fora da correspondência à intermediação institucional, vantajosa e glutónica... de um patrão, de um director, de um presidente, de um coordenador de curso e demais pestes. Um colectivo retórico. Porque melhor mesmo que "igualdade" é a ficção representativa de um "presidente da comissão para a igualdade social". E se parecer mal, anacrónico o suficiente, muda-lhe o género ou chama-lhe só mesmo "comissão para a igualdade social" dos trinta oligarcas sem líder individual. Vão lutar. Lutar por milénios fora por mais milénios da mesma merda. Reduzirem-te a isso: merda. Merda fértil taxidermia só casino dos poucos. Que existem.

Tens 16 e, verdade seja dita, não és flor que se cheire. Mas está a tua frente. Está à tua frente, como o idiota do director da tua escola secundária. Com os seus grandes discursos sobre os melhores resultados nos exames nacionais no concelho ao mesmo tempo que abafa assaltos e tentativas de assalto, violência, condições miseráveis nos balneários ou equipamentos de educação física. Só tens nojo. Só queres distância. Aquilo não é vida. Vês um pouco o mesmo filme todos os dias todas as noites todos os telejornais todos os partidos políticos. Salvar a face. Porque os pais protegem, podes esquecer; porque a escola entorpece, esqueces. Queres-te safar. Pensar em ti, pensar no futuro. Percebes essa parte, não computas as tácticas, a instrumentalização, pisar quem der para pisar até fundares as escadas privilegiadas da tua própria ascensão. Prontas a inaugurar com a fita vermelha do sangue dos outros. Corta. Corta bem. E anota bem. Mais que tudo, sonhas. Sonhas durante o dia, no duplo ideal do que podia estar a acontecer. A solidão que sentes, as raparigas de que gostas invisivelmente e os amigos que não tens. Vais vê-los e ouvi-los em todos os fones e filmes de todos os metaversos possíveis. No intervalo das aulas, na vidraça do autocarro, no teu quarto-encubadora. É. Não sou menos um clone mediático adolescente dum beijo na chuva, uma cabana na árvore, contos de terror numa fogueira circular dentro do Verão e da floresta. Brilha tudo tão claro! "Vês demasiados filmes!" Vi demasiados filmes. Mas não viste o maior deles todos, uns trastes bem pensantes em trajes a escrever a ficção da realidade diária. Enquanto escreves no diário, os cadernos do rapaz impossível. Aquele Estado ecuménico, das tuas canções preferidas e lá dentro... As tuas pessoas preferidas. Chora fácil chora frágil, a angústia passional de um miúdo numa sexta-feira à noite. No quarto comigo, o cenário é planetário. Cantamos juntos: entre os anéis de Saturno, as memórias bailam com as expectativas defronte. Enfim, sentires-te importante na tua avassaladora diminuição. És de ti mesmo.

Mas olha que não viste mesmo. "Uma Chapada da Realidade", um clássico cinematográfico produzido por privilegiados que te incluem discursivamente entre os privilegiados para denegar a sua agência absorcionista numa estrutura que se confunde com a sua própria pele. Aumentada. Bilhetes à venda nos lugares de trabalho habituais. Já em exibição em gabinetes perto de si.

A pior parte? A pior parte é ver a psiquiatrização da opressão surtir efeito. Quando um monstro te prostra, chantageia, censura e ameaça a tua subsistência e não podes denunciar, ele entra dentro de ti. Introjectas bem. Introjecto bem. Os actos, os estratagemas, os compinchas & compactuantes, tornas-te os comprimidos que ele te pergunta se andas a tomar. À luz do gás pensas, "então ele tem razão", "então eu sou louco". E todas as instituições vão tão adorar dizer: "é a habitual crise de doutoramento a meio do percurso"; "é comum um doutorando ter problemas de saúde mental ao desenvolver a sua tese, face à pressão envolvida na escrita da mesma".

Engole mil "todos passamos por isso", mil "misérias em conjunto"! Excita-te com isso. "Sê humilde nas tuas denúncias perante um mártir sempre impossível do alguém que sofreu mais e a sério". "Sai da tua bolha" (de comeres todos os dias a solidão e incredulidade normalizantes de hierarquias sobre as quais produzimos extraordinários raciocínios abstractos sob a forma de artigos e comunicações académicas cuja existência controlamos oligarquicamente via peer review que pode sentenciar o teu trabalho como não-trabalho). Ousa levantar a cabeça, ripostar e vê percebe todas as instâncias canais institucionais comunicativos como uma extensão de quem detém os meios. Prova desprezo, a sobremesa é silêncio. Processos de auto-avaliação com alunos escolhidos a dedo, branqueamento de assédio sexual, inflação e fraudes nas notas de seminários, usar redes internacionais de endogamia para publicar sem endogamia, mudar de opinião consoante a pessoa que se tem à frente, falsificação de identidade para te tentarem acusar de escrever um texto que não escreveste, perguntarem-te quem gostavas de ter no júri da prova, ser roubado num prémio de mérito importante para quem é esmagado de todos os ângulos, ser proibido de usar um powerpoint enquanto método de apresentação por um "grande defensor da liberdade de métodos"... Já não ter paciência para enumerar tudo. Mas vai chegar o dia. Vai. 

Como eu vou vendo bem, afinal por de trás da enorme sapiência científica em área x. Uma pessoa com a sensibilidade e a capacidade de reflexão social de um troglodita. Uma no meio de doutos doutores trogloditas afins. A ilusão de progresso. Puxa à esquerda, puxa à direita institucionais: qual barra de volume da treta do meu pc, "quanta desigualdade da qual o meu jugo se firma já inquestionável é aceitável"?. E aqui bem na academia, o melhor (para eles) de dois mundos. O prestígio, a reputação, todas essas palavras de merda dignas de uma república monárquica para os definir. Mas sem escrutínio público. Rostos desconhecidos reserva. Inquestionados e bajulados. "Não é só aqui". "É mesmo assim, o conhecimento científico deve ser abstracto, o calunioso e o anedótico não têm lugar na universidade"."É normal, diferentes concepções de verdades entram na contenda pela sua hegemonia discursiva, senda a sua só mais uma". "Não está aberto à pluralidade" monolítica que o subjuga

A pior parte? A pior parte é só escrever isto aos 28 anos. Escrever como quem diz fazer sentido da repulsa institucional que já sentia aos 16. Racionalizar a percepção da injustiça. E o quanto da minha própria sempiterna ansiedade social brota da invenção das "figuras de autoridade" enquanto intimidação. Porque, "parece", não há conhecimento técnico sem o seu direito a ganhar mais e a controlar sempre: a sub-vida dos outros. Mas mas mas, o elitismo nunca foi status quo de nada e, bolas, já estou a ser anti-intelectual. Como o que diz John Rawls: "as desigualdades sociais e económicas devem estar dispostas de modo que ambas são: (a) para o maior benefício dos menos favorecidos, consistente com o princípio de economias justas e (b) atreladas a cargos e posições abertos a todos em condições de justa igualdade de oportunidades". Santa benevolência! Venha providência! Não só beneficiar com a desinteressada superioridade dos outros. Também poder sonhar ser poder! Falta só mesmo: criar o Éden da igualdade de oportunidades para poder legitimar a desigualdade daí decorrente: pela área laboral ou de estudo, pelo mérito do networking, pela nobreza dos grandes estadistas de servir a res publica.

Se uma lei da selva cai na cidade e todos estão perto para ouvir ou ver, será que a lei da selva caiu mesmo? Gostava de ter sabido antes... o bullying escolar, a hipocrisia e os concursos de popularidade adolescente... A inevitável conexão crescente entre as grades da escola e as grades do mundo laboral-institucional. A mesma sensação elevada ao cubo da impotência, impossibilidade e inexorabilidade. Detesto como isto sabe no corpo: o velho nó na garganta, o peito a aproximar-se dela em fogachos de calor e ardor, o gosto seco na boca. Alguma coisa prestes a rebentar, mas nunca rebenta. Como quando aos 9 captei que um dia vamos todos morrer. Agora uma perplexidade embebida de raiva: não tinha de ser assim!; toda a gente vê mas ninguém faz nada. Jogos nojentos de popularidade. A versão passada de clones do que um adolescente deve ser e fazer. Tal e qual um dia uns poucos da minha geração vão estar lá em peso. Não, não há diferença moral entre um "povo" e uma "elite", há correspondência perversa na mera existência de elite. Quando se está na posição em que estou na universidade e quando vejo colegas a calarem-se sistematicamente perante abusos de professores, é fácil ver a reprodução social. Entre a gratidão e a indiferença, passam progressivamente para a categoria da perversidade inerente ao cargo. 

Gostava de ter sido alertado, de ter sido educado para este status quo. Mas, pensando bem, talvez isso significasse a inexistência hegemónica e normalizante do que vivo agora. Não o estaria a viver ou, na pior das hipóteses, teria crescido, junto com muitos outros, com os leucócitos necessários, com a agressividade precisa para deitar abaixo uma lógica institucional que se auto-intitula (LOL) como garante da liberdade e da igualdade. Sem dissonância cognitiva, teria percebido aos 16 que o tal filme supostamente chamado "Uma Chapada da Realidade" se designava afinal "Chocolatinhos da Ideologia". Teria computado a narrativa dos constrangimentos do cenário macroeconómico só aplicada a quem está na merda; a lógica da manifestação ritualizada e amansada por feriados ou dias históricos; a cisão dual entre protesto pacífico e violento como se só existisse segurar um cartaz pela rua vs. agredir alguém e incendiar; a figura jurídica da difamação enquanto protectora de gente poderosa num sistema judicial reprodutor da opressão; o sufrágio universal ora anulado por cadeias de nomeações governativas e listas partidárias ora instrumentalizado para legitimar, por exemplo, a exploração laboral enquanto válida escolha social; a pilha de documentação privada e reuniões à porta fechada por parte de órgãos que se dizem representativos; as possibilidades laborais enquanto algo que um conjunto de gestores superiores permite a quem quer entrar em vez de toda a sociedade se reorganizar para os acomodar, sem porteiros para lá de um necessário período de formação reduzido no tempo; a universidade como aristocracia do século XXI.

Quando a porta é fechada, a sala é de alguém. E ser esse alguém é ser tempo, é ser espaço, é ser o corpo dentro de pessoas como eu, agora. Tenho pontos na boca, mas estou morto por falar. Com nomes e caras, com detalhes, publicamente. Cansei-me para a vida de pedir, pedinchar. Chama-se ser roubado. Acordar todos os dias, experienciar todos os dias com actos, pessoas e estruturas na cabeça, no hálito respiratório metálico e carcerário. Já passaram anos desde que tudo isto rebentou e algo se foi que não vejo como poderá um dia voltar. Detesto sentir-me desimportante para mim mesmo. Sem ser adoecer e ter os órgãos a tornarem-se simulacros da percepção da morte (ou vê-lo acontecer a alguém querido) - como quando tinha 9 anos mas agora com decadência e dor palpáveis -, não há pior. Não há pior e, contudo, tem tudo para piorar quando deixar de ter bolsa e acabar o curso. A pior parte? A pior parte é mesmo ver a psiquiatrização da opressão surtir efeito. Passar a ter nada mais que alguns dias menos maus, como se tivesses uma horrível doença crónica. É isso que são algumas pessoas, uma doença que coloniza uma existência já vexada ao sofrimento físico. 

Eu sou fraco, eu sou frágil, eu sou a fragilidade. Mas como o cão maltratado que a certa altura morde o dono, comecei a ganhar as minhas defesas ao longo do último ano. É demasiado fácil deitar-me ainda mais abaixo, tudo é uma réplica em cadeia de sincronicidade com o trauma que se vai acumulando atrás, mas até a isso acabas por te habituar. Encho-me de angústia geológica. A raiva, a repulsa e o desejo de justiça não são menores nem antitéticos à tristeza, ao vazio e ao abatimento. As coisas más continuam a suceder-se e eu continuo a piorar para de vez em quando melhorar um bocadinho. Nada mais. Às vezes repito a mim mesmo dezenas de vezes que vão pagar por tudo com a devida exposição pública - TODOS ELES. Vão ser expostos vão ser expostos vão ser expostos vão ser expostos! Nem que tenha de me arruinar ainda mais! Vou tanto comer o seu espaço e tempo quanto este impulso adjacente e demolidor pela autodestruição. Às vezes adoro-o doentiamente! Para já, tenho muito trabalho pela frente. E, agora mesmo, mais uns dias particularmente maus e não-produtivos pela frente. A escumalha deles está forte nas veias, sinto-me demasiado assim para estruturar o meu acto de haraquiri. Apenas depois, aí, poderei ter uma réstia de vislumbre de hipótese de talvez não ter este gosto metálico omnipresente no dia-a-dia.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Eu Somos, Eles É

Eu Somos, Eles É

 
Se eu fomentar
Ele vai dilatar
Se eu delatar
Ele vai deletar-me
E ele vai deleitar
Não vou lá jantar
Não vou lá juntar-me
Ninguém sem charme

Se eu não fomentar
Ele também vai dilatar
Mas se eu não delatar
Ele não vai deletar-me
E ele vai deleitar
Eu fui lá jantar
E fui lá juntar-me
Alguém com charme
Não vão detectar-me

Se ele (não) fomentar
Agora vou eu dilatar
Há que saber estar
Até o canapé ter calo
Porque se ele não delatar
Eu não vou deletá-lo
E eu vou deleitar
Ele vem cá jantar
E vou cá juntá-lo
O meu próprio vassalo

Se ninguém fomentar
Alguém vai ao ** dilatá-lo
Mas ninguém vai delatar-me
Um violador com charme
Todos vão deletá-lo
O bebé veio cá jantar
Ninguém se veio a jantá-lo
Todos queriam juntá-lo
À família do trabalho
Onde eu somos, eles é
Cada cargo no seu galho
A falta de pé a deleitar o tripé:

«“Vimo-nos por este meio isentar
Foi ninguém que decidiu cá jantar
E o assédio é um grande flagelo
Fazemos de delatar longe um apelo
Até temos um gabinete a detectá-lo
Pelo telescópio, em forma de falo
Um anti-caralho revestido de halo
Mas não se cospe no prato que dilata
Ninguém em alguém, a casa onde janta
Quem junta a possibilidade de fomentar
Bebés a saber dizer “há que saber estar”».