domingo, 4 de outubro de 2026

Fins (Parte 1): A História de Como Não Tinha uma Vida (2012-2014)

 1.0.

Ao longo dos últimos 23 meses, prometi-me mil vezes escrever o que tento agora. Pelo menos desde que, enfim, acabei a minha tese... em Novembro de 2024. Entretanto, passagens de ano, aniversários meus e de dias-chave, momentos de hiper-crise emocional, a própria defesa da tese, sair da casa onde morei durante 7 anos, da cidade onde vivi durante 13 anos, não conseguir emprego, ter de começar outra licenciatura (na qual estou a ser uma merda inqualificável e inédita). Mais umas tantas iterações de não me voltar a acontecer nada de bom e ir vivendo, centrando a escrita em poemas, contos, ensaios ou projectos deles - objectivos existenciais prementes, maneiras retorcidas de me iludir que me aproximo de nunca ter mais nada a dizer. Em adenda, uma dificuldade crescente em ser cru e diarístico, daí adiar (a conclusão d)isto (que já venho redigindo desde o início de 2026), acho. 

E - transfusão de vícios criativos - acabo sempre a obcecar na construção do texto, quando só queria mesmo desabafar. O ideal seria até ter a espontaneidade, o instinto desimportante, a vontade de ir postando pequenas coisas. Um mapa de pequenas memórias: gostos, desgostos e sensações. Isso o que este blog foi na minha adolescência e deixou de ser. Deixou-o durante imenso tempo porque, julgo, estava ocupado a viver e a partilhar... A partir de certa altura, sucede, sobretudo, que parte de mim deixou de acreditar em comunicação... 

Mas vamos lá, escrever-me uma espécie de retrospectiva, fixar (ao menos) toda uma sucessão de fins... sem fim. Ainda que eu já não seja novo o suficiente para sentir que consigo conter a vida num texto. Escrever-me, ainda que vá sentir na mesma que falta algo. Falta algo até porque esta é a história de como eu tive uma vida pela primeira vez, dos 21 aos 30, e a perdi. Alguém. Esse o princípio do fim, o principal... Porque se eu retentar algures no futuro as ditas linhas sobre filme, álbum ou videojogo x, será sempre diferente. Dar-se-á a novidade nostálgica de querer narrar e guardar o que de mais precioso me aconteceu, fundido a outro ser humano: fotos, sítios, piadas internas, momentos, os meus anos de ouro. Isso, agora que a minha existência envelheceu ao ponto de ser toda sobre olhar para trás, e aceitá-la enquanto tal. Só gostava de um dia chegar o dia em que me avassalasse um ímpeto de silêncio, de quem já não tem absolutamente nada a exteriorizar, corporizar. Nunca mais. Poder sair deste vazio largo de mais para se abraçar (sufocá-lo).  Enfim, à falta de melhor, retrocedamos então até ao já longínquo 2012...

 

  1.1.  

...E lembro-me de como - quando estava no 12.º - comecei a devanear jantares de grupo, sorrisos e conforto neles. Sentir-me "eu", uno, expressivo neles. Quase uma sensação de embalar por Coimbra fora - quando comecei a pensar que ia para lá estudar... E já no Verão, sobretudo, esta a imagem estranha que me ditava a imaginação, sem eu saber bem porquê. O meu sempiterno desejo de conexão no fundo, claro, mas não sei porque tomava essa configuração concreta. Talvez algo escorrido do meu inconsciente mediático; restos de séries, filmes e canções que me encheram a adolescência perante o vazio de relações humanas presenciais. Ou, se calhava havê-las, cedo acabavam...

Cheguei cansado para ser sincero. Dorido, ressentido por mais um episódio da minha sina existencial de então - sempre que criava laços com alguém, e digo inclusive sendo a iniciativa de aproximação e priorização alheia, sentia-me deitado fora tão cedo terminasse o contexto comum que os propiciou (a escola, neste caso). Abominava que alguém estivesse comigo só para não estar sozinho pelo que preferia estar sozinho a estar com alguém que só estivesse comigo para não estar só... Assomava-se-me esta autoimagem de ser patético, de dar peso e centralidade a pessoas para quem, afinal, eu não passava de um passatempo, uma pluma. Esse foi o grande dilema e problema de toda a minha adolescência e início da idade adulta. Acrescenta-se - indo ainda mais atrás, 2008 - uma boa dose de bullying perante a indiferença de toda a gente à face do recreio: não de estranhos, mas dos colegas. Dos que me conheciam. Dos que passavam os dias comigo. Isso dos meus 14 mudou-me para sempre. Acrescentam-se - durante todo o secundário - problemas de autoimagem corporal  e BOOM! Isso dos 16 aos 19 não ficou, sentia-me já bem na minha pele quando saí de casa dos meus pais, mas...

Sim, cheguei cansado, cansado, cansado a Coimbra em Setembro de 2012. O que devaneara de jantares de grupos, sorrisos e conforto era cada vez mais o que sempre fora. Um devaneio e um minguante. As notas tinham dado para tudo; tomara à última hora a decisão de ir para fora. O curso, ao cercar-me de história e estética, análise e crítica artísticas, era a minha cara. Qualquer coisa como passar para além do meu quarto tudo o que durante a adolescência me dera oxigénio nele: canções, filmes, séries ou poemas. Simulações de gente porque não a havia. Silhuetas vicárias, e às vezes parecia mesmo que me podiam salvar. De toda a alienação, toda a solidão e incompreensão de como "as pessoas" (passe a generalização) se comportam, se usam e se deitam fora. Mais outras tantas convenções, comportamentos adequados a idade x em que alguém não se rever constitui motivo de espanto. Logo, as minhas próteses de tudo... Não havia volta a dar, outra opção que fizesse o mínimo sentido naquele período. 

Ir para a licenciatura em Estudos Artísticos não se tratava só de um curso, antes tornar-me naquilo que me fui tornando, aprender a fazer aquilo de que era feito. Algo profundamente existencial, porque a vida, as circunstâncias, a minha personalidade afunilaram-me nesse sentido, nesse trilho. O de me perder em e mesclar com textos sobre objectos e experiências artísticas - escrevê-los. Um eu alienação. Pensar e escrever enquanto uma forma de compensação. Como se toda a amputação dos sentidos que quase sempre sentia e sinto no mundo exterior encontrasse uma redoma onde conseguia e consigo existir, comunicar (isto acho mesmo que já não). Por experimentar ambiências, cores, sensações, as idiossincrasias de cada universo estético e a existência paralela de milhentos deles, multiversos. Por criar eu pontes e respostas a esses universos. Antídoto possível para a alienação? Tornar-me eu a alienação, o acto e o espaço da escrita.
 
 
  1.2.
 
Que a minha alternativa de antanho - aliás, a minha ideia mais ou menos definida antes de descobrir Estudos Artísticos e inerente plano curricular - fosse seguir Ciências da Comunicação cedo se voltou quase cómico. Quer dizer, olhe-se para o meu perfil? O desencaixe? Total. E se o futuro se encarregou de me demonstrar que na minha área (e nas outras todas) acontece o mesmo por via de subterfúgios, ali debater-me ia com o seguinte em cada sufocante passo: a hegemonia da exigência da balela da objectividade; a comemoração e exigência estupidificante de mais visualizações, mais público como critério qualitativo; o imperativo de uma carinha fofa, com todos os clichés da dita "boa educação", formalidades e "bons dias" (e adstrita necessidade constante de comunicação oral).   

Adiante, sem que alguma vez tivesse projectado ou sequer desejado uma vida de abundância material, sabia (erradamente) que tinha de me aplicar se queria (e queria) passar a minha adultez inteira a fazer e a ser a única coisa que me fazia sentido. Abstraindo as advertências de "curso da treta" ou "para que é que isso serve?", a sociedade sempre vendeu a excelência como porta de entrada. A sociedade - para não ficar com a desresponsabilização desse tudo que é nada - leia-se os adultos, os professores, as figuras de poder, os coordenadores, os directores, os presidentes, os pivots, os comentadores e as vedetas daqui e dacolá. (Retiro os pais e afins da equação dada a sua variabilidade profissional/lugar material e porquanto, se te calharem uns decentes, só estão genuinamente a tentar ajudar quando te instigam a importância de estudar. Só estão a reproduzir o que o sistema jura aos quatro ventos quando te vendem a excelência como solução.) 

Elites e superiores hierárquicos dentro de cada meio, os tipos que - um dia percebes - definem quem tem emprego, possibilidade de expressão e chama a isso mérito. Um mérito de decidir que, claro, se justifica pelo seu próprio mérito... Os tipos que - um dia engoles - se abstraem da desigualdade e da opressão enquanto masturbam a sua superioridade moral com os grandes dramas sociais do momento. Os tipos que, no máximo, se masturbam com algum reconhecimento retórico de serem privilegiados só para consolidarem ainda mais esse privilégio. Vendem e vendam-se com o mito da excelência que os sustenta e distingue e, por norma, não irão além de lamentar uma desigualdade de condições de acesso (étnicas, de género, capacitistas, etc.) à norma que eles próprios são. São sãos, a sanidade em pessoa cujo limite da discussão são slogans à la tax the rich (que têm todo o direito a sê-lo desde que cumpram a lei... e contribuam mais para os pobrezinhos) ou a ameaça dos extremismos à democracia (essa fantástica burla representativa que te permite escolher quem escolhe por ti, ganha por ti, vive por ti...).

Sem que a minha versão de 2012, chegada a Coimbra, pudesse ter apreendido mais que uma suspeita deste sociopático sistema de legitimação de heróis, esse trabalho para a "excelência" vinha bem inculcado em mim. Tão formatado pelos anos escolares afirmava-se já um instinto, uma questão de brio interior. Isto tanto ou mais que um superego a ecoar-me que os meus pais estavam a pagar para tudo aquilo... Nem precisava como já não precisava no secundário, tamanha  a pressão comigo próprio, ao ver nas notas uma maneira de entender e definir o meu valor. E, no entretanto, já pouco interrogava o que era exactamente a "excelência", muito menos o que significava ela existir, o porquê e como era manietada. A mensagem estava entregue no fundo do meu espírito. Assim foi, conquanto jamais tenha tido por meta escalar uma qualquer seita de senioridade burocrática, deter poder e controlo sobre alguém - a minha ambição esgotava-se em condições de subsistência, publicação e um vago "acharem que o que eu fazia era excelente". 

 

   1.3.  

Mas a licenciatura (2012-2015) não foi o período de incubação da desilusão, de uma triste realização. Entre enjôos com momentos de avaliação e um ou outro professor incompetente, eu ainda cria, as aulas e os temas cativavam-me (para quem vinha da escola, que bom e inédito na altura, por exemplo, ter cadeiras de cinema...); ia sentindo as minhas capacidades analíticas e teóricas a florescerem. Destacava-me imenso, as notas? Nada menos que... excelentes. Consistentemente isso.

Posto isto, houve uma outra grande razão para ir para Coimbra e não ficar pela Covilhã - como quase sempre projectara ao longo do secundário. Contra as minhas próprias tendências de panda crónico, rato doméstico, sentia um ímpeto de sair do conforto, ganhar autonomia, aprender a viver sozinho. Um agora ou nunca, um não poder adiar viver. Este ar inicial de grande aventura e descoberta, e bolas, como me invade esta súbita nostalgia das primeiras viagens. De carro e autocarro, mais os meus fones e bandas sonoras motivadoras a fitar pelas vidraças fora. Um anseio que, rápido, se esbateu (pela minha ansiedade social e não só) e com ele aquele ar épico de de repente estar ali, aberto ao mundo, às possibilidades.

Primeiro as praxes, tentá-las por mera questão de poder conhecer pessoas, e o meu aborrecimento fatal com algo que sentia absurdamente forçado, falso, formulaico - mais do que por fortes divergências com a sua lógica hierárquica, na altura. Somente estúpido e, depois, para alguém introvertido até um certo sufoco de abordagem social senti durante as primeiras semanas. Desde solicitações para "cafezinhos" a chats em redes sociais, a maior parte das vezes os convites colapsando em encontros de dezenas ou centenas nas quais eu me diluía invisível. Sim, o quanto eu detestava quando alguém me convidava só para me ignorar chegando lá (como se me estivesse a fazer um favor...). Culminava figura de corpo presente de uma barafunda qualquer.

Da minha parte, todas as poucas vezes em que tentei abrir uma fresta às minhas tendências esquivas hardcore... falhei. Descobria a partilha de um mesmo curso como irrelevante: ora havia quem estivesse ali como poderia estar noutra coisa qualquer, ora quem vivia o gosto artístico de uma maneira diferente, ou mais expressiva, ou mais "prática". Sempre o mesmo, diferenças de personalidade e mundividência inconciliáveis sobrepunham-se. Em adição, chegadas a esta fase universitária e ao fim da adolescência, imensas pessoas contavam já com um certo círculo íntimo definido, gente querida basilar. Na minha cabeça fazia-se óbvio: "porque raio alguém nessas circunstâncias me daria valor?". Ou pior: "porque raio alguém que não espelhasse as minhas circunstâncias me daria valor?". Mais o eco paralisante, claro, de que, então, eu também não lhes deveria dar valor. 

Fiquei mais, mais e mais sozinho. Encaracolado na regra interna que a adolescência criou para mim: "não fales a não ser que falem primeiro". Confesso que hoje mal consigo destrinçar essa regra, tão naturalizada, do próprio surgimento da minha auto-consciência. Certo que eventos traumáticos a aprofundaram, mas quando não fui isto? Quando não fui eu, apenas o autómato emocional de uma criança indisciplinada. Ou, posto doutro ângulo, só não fui eu essa regra enquanto fui realmente eu, sem violência social a disciplinar-me os beiços em apatia. Se eu não eu ia ser eu, sobrava e sobrou a versão dita "educada" mínima para sobreviver. Sem falsas simpatias, as quais escarro por dentro, somente a versão de uma anulação em pessoa. 

Mas retomando 2012/2013, eis eu, portanto; sem investidas e de pé atrás. Continuava a imagem perfeita dos zero leitores deste texto que me (des)conheceram durante os tempos de escola, o secundário sobretudo. Isto é, uma espécie de alienígena sentado num banco, sentado no chão. Com os joelhos rumo ao peito. Dobrado e auto-abraçado perante um mundo hostil. Minguante. À espera da próxima aula num corredor, num canto só para poder voltar, fugir para casa. E fechar-me no quarto. Ou ir para a rua expurgar-me a correr ou com uma bola nos pés.

Raras vezes e dificilmente essa mencionada regra interna se quebrou. Ficava à distância de ganhar confiança quotidiana com alguém. Em Coimbra, no ensino superior, deparei-me ainda com a ambivalência de um mundo sem grandes. As mesmas propriedades que me possibilitavam encurtar intervalos, evitar corredores ou comer em casa também favoreciam que tudo fosse ao cubo um cada um por um... Vidas próprias e apartadas. Noutro espectro, tanto me apavoravam as burocracias (a um nível patológico de evitar autocarros urbanos, por exemplo) quanto apreciava a liberdade de poder fazer as minhas compras, a minha comida, ter os meus horários. Contas feitas, o meu dia-a-dia até era menos penoso do que na escola, reuniam-se algumas condições para ser o melhor período da minha existência, mas depois esta alienação intransponível...

 

 1.4.  

Recordo sempre o meu primeiro período de exames em Janeiro de 2013 quando, bem nos antípodas daquele sufoco de abordagem social ao iniciar a licenciatura, o estudo se começou a intervalar com acessos de choro. Na cama, cercado de paredes brancas, era um choro diferente do que conhecera até aí, munido de uma sensação opressiva de uma solidão já definitiva. Ao longo do meu primeiro ano, a coisa estabilizou numa toada mais seca dessa sensação, com gumes de ansiedade, angústia existencial em que parecia que estava à beira de me passar... Um à beira de me passar sem qualquer concretude e consequência, pois a minha autoconsciência insana sempre me resgatava até de mais... 

Tampouco se tratou de qualquer questão de saber equilibrar tempo para "estudar" com tempo para "brincar". Fora as semanas intensivas de entregas de trabalhos, frequências ou exames, nunca foi por aí. Anyway, o contacto social regular gorou-se em futeboladas com colegas de curso mais ou menos semanalmente. Trazia-me leveza, ou não tivesse jogado federado dos 12 aos 18 durante a escola. Perder isso na altura, recordo bem, representou uma amputação considerável da minha identidade. Bem mais do que transpareço neste texto, porque o futebol me fora uma constante no dia-a-dia desde a primária, nem que usando garrafas de iogurte líquido quando não existia alternativa. E, em competição, formara juntamente com as notas uma métrica através da qual eu aferia a minha valia, o progresso da minha vida. E quando ambas correspondiam aos objectivos, eu aguentava-me um bocado melhor. 

Nota, entretanto, para a parte irónica em que comecei a apreciar jantares de curso. Qual último reduto que eu instrumentalizava para provar a mim mesmo que se procurasse socialização ainda me sentiria pior... E sentia, com tamanha solidão em conjunto, com dezenas de possibilidades impossíveis, com tantas pessoas a que não me conseguia conectar. Sempre que ousava duvidar, lá estavam eles... Após esses check-ups e bebedeiras esporádicas que me tornavam pelo menos meio expressivo, voltava a casa aliviado, vivia um tipo de ressaca convalescente que continha algo de docemente melancólico no fundo do copo. Claro que, no fundo, isto era pateticamente triste. Onde iam já os "jantares de grupo, sorrisos e conforto neles" com que devaneara Coimbra nas férias de Verão de 2012? Para lá de Plutão?

 

 1.5.  

O começo de 2013/2014, o segundo ano, trouxe uns pós positivos ao meu bem-estar. Nada que fugisse à norma do meu ser, dado que tendo a despontar um bocadinho com a habituação a um dado contexto. Mantidos os acessos de angústia existencial e incomunicacional, comecei a aventurar-me mais a pé pela cidade, a correr regularmente, a cozinhar e a alimentar-me melhor. Consigo hoje ter nostalgia desse período, o que já é alguma coisa: o regressar a casa nocturno e minimamente aliviador após sessões de psicologia, o sabor de uma certa papa láctea que ia buscar na volta, o vento chato a encher-me os olhos de cabelos na Ponte Santa Clara, o tempo cronometrado em torno do estádio universitário. Essas fatias de vida propagavam-se para melhores sensações dentro do meu quarto, a ver filmes, séries, escrever poemas, ouvir música, acompanhar o Benfica via streams merdosos... Felizmente não foi só vazio, há-me um ambiente palpável desse antanho.

Nas aulas em si, tudo continuava igual. Ganhara inclusive algum à-vontade com 3 ou 4 colegas, à boleia de trabalhos de grupo. E depois, boom, algures a meio do primeiro semestre, atingiu-me uma panca amorosa por alguém. Uma panca cuja iniciativa regular do outro lado em estabelecer contacto - inclusive pela net, sem a inevitabilidade do contexto físico partilhado - marcava no mínimo uma pretensão de amizade. E eu ficaria sempre já contentado com isso. Porque, evidente, ninguém tem de gostar de ninguém; e eu próprio sempre me desliguei e desinteressei por alguém que não gostasse de mim em retorno. Afinal, se eu tinha e tenho aquela regra interna que atrás expus, como poderia não abominar relações falsas ou forçadas? Foram elas que me inculcaram tal regra... 

Adiante, conversas fluíam, um grande interesse partilhado (cinema) ajudava, elogios de parte a parte... Eu tentava medir cada passo e reacção, não me extravasar (muito menos dar a entender que depositara nessa pessoa toda a patética última esperança de não ficar sozinho para sempre, de resolver a minha angústia existencial/interpessoal). Até que em Fevereiro de 2014 uma resposta a um chat me presenteia, "esbofeteia" com uma clara rejeição indirecta. O meu ingénuo e imediato pedido de desculpas pela intromissão segue-se por um só há pouco tempo ter percebido o meu interesse amoroso. E o busílis da questão vem, uns dias depois, quando tento compor as ideias na minha cabeça, comunicar com base nisso e, de repente, afinal, o ser humano em causa declara contraditoriamente que há muito percebera o meu interesse amoroso. Donde se foi percebendo que eu tinha sido o passatempo egóico de uma pessoa mortinha por ser galanteada. Nada se seguiu daí excepto um desprezo cavalar... e silêncio. E isto estava eu nos primórdios e no grau micro-pessoal de apreender que ninguém, ninguém quer saber... com todas as ilusões que forjamos de que não é assim... mas era. Ninguém se escusaria (escusa) a passar-te à frente, por cima, por onde desse (dá) jeito.  

Pela primeira vez na vida, eu arriscara a este nível afectivo, tomara a iniciativa, e as consequências foram catastróficas. Quase só tivera de não ser demasiado idiota e reagir afirmativamente com a única espécie de "namorada" que me coubera até então - ainda aos 14. Antes e depois, somaram-se paixonetas secretas; um rol de coisas "infantilóides" e irritantes de recreio ao jeito de "fulana gosta de ti"; e, enfim, outras pessoas que talvez tivessem dado indícios de gostar de mim e face às quais talvez eu nutrisse algo... travando a minha não correspondência de indícios qualquer evolução. Corolário dessa primeira rejeição que as minhas expectativas e desespero construíram como "última"? Tamanha vulnerabilidade que o meu corpo explodiu em emoções, sensações inéditas: tremores e um frio incontroláveis no primeiro dia ou dois. Depois, algo que nunca experimentara ainda devido a outras pessoas: falta de apetite durante uma semana ou duas (sabia tudo a esforço insonso para engolir, com laivos de náusea). Ser colega de turma da rapariga em causa, vê-la diariamente não dava espaço para eu rarefazer a toxicidade. 

Fiquei uma mescla confusa de tentar cortar nos intervalos, nos corredores o máximo possível, afastar-me inclusive dos outros colegas com que me dava melhor, ao mesmo tempo que tentava, sem grande sucesso, meter-me em actividades extracurriculares. Mas além do desespero, da angústia e solidão maximizadas que aqui e acolá me faziam, pela primeira vez na vida, querer estar mais tempo fora de casa e, às vezes, sentir a presença alheia, eis "eu" de novo. De novo a assentar na minha configuração natural, a gastar o mínimo de energia possível para evitar o conflito, a rejeição ou o trauma, sendo o custo a falência da própria identidade. Pela altura das férias da Páscoa de 2014, o meu desinteresse existencial começava por fim a recuperar os seus traços de melancolia. Isto é, dessa tímida felicidade de estar triste que faz com que hoje também consiga sentir nostalgia desse período em que tudo descambou como nunca. Sobressaem na recordação e no ambiente a descoberta do slowcore como género musical, com os Red House Painters e a "Grace Cathedral Park" à cabeça a embalarem-me a agonia com um je ne sais quoi de ternura alaranjada/madeirenta (ao pôr-do-sol). Ou o Castle in The Sky (1986) do Miyazaki, sem que  tivesse adorado o filme, por uma vaga impressão de aventura comfy, creio. Também uma reapreciação de estar em casa dos meus pais e só sentir as luzes ligadas, o aconchego de alguma companhia distante noutra divisão. Por milagre, a minha consistência continuava imperturbável, as notas foram excelentes e ainda deu, numa das disciplinas, para me expurgar com a escrita de um argumento para uma curta sobre conexão fugaz à laia de Lost In Translation ou Before Sunrise.

 

 1.6.

Todo este detalhe, suponho, tanto porque calhou escrever assim quanto porque o ano de 2014 significou, de facto, a maior reviravolta da minha existência. Cifrou-se num pico de intensidade emocional. Quando as férias de Verão chegaram, a distância da dita colega trouxe-me defesas. Entre muitos minutos de corrida durante as tardes e a jogar à bola, de noite, com velhos conhecidos no polidesportivo, fui-me vendo fortuitamente inscritos em sucessivos torneios de futsal. Passada alguma frustração inicial, senti-me, ao cabo de um mês, no pico absoluto da minha forma física: velocidade, explosão, resistência, etc. De tal modo que isso se reflectia nas minhas exibições e, por seu turno, na minha auto-estima. Mal sabia que seria também o último Verão em que as minhas aptidões não esbarrariam em limitações, decadências crónicas. 

 E... bem... num plano  distinto, julgo que terá sido também, o meu auge em termos de aparência... Quando voltei a Coimbra para o terceiro e último ano de licenciatura voltei sabendo que ia mudar de quarto. Mesma rua, mas a expectativa era de que um buraco mais arejado/avarandado e não encatrafiado no topo dum prédio se repercutisse numa angústia/isolamento um pouco menores. Engraçado, agora, que a minha primeira grande memória daquele espaço corresponde ao instante em que me instalo definitivamente lá, na véspera do recomeço das aulas, e a minha mãe está para se ir embora depois de ajudar nas mudanças. Num raríssimo assomo de abertura emocional, daqueles que nessa altura só tinha quando sozinho, sai-me da boca (e dos olhos...) o quão perturbado me estava a começar a sentir, ao regressar - pelos motivos amorosos de que ela estava vagamente a par porque já antes eu não conseguira evitar desabafá-los. Coimbra parecia intoxicada pelo senso de rejeição a sobrepor-se a qualquer gosto pelo curso, pela minha autonomia, as minhas rotinas... "Vá lá, é só mais um ano", disse ela.

Mas eis a ironia, porque começa aí a sério: a história de como eu tive uma vida pela primeira vez, dos 21 aos 30, e a viria a perder. Logo no dia 17 de Setembro de 2014, eu ia conhecer a pessoa mais importante da minha mísera existência. A sorte de um universo indiferente a isso me levaria. Por uma vez, por muitas vezes, por muitos anos, por milhões de momentos e razões e atitudes e sorrisos e dores, ela foi isso, eu fui feliz, senti-me amado. Absolutamente e incondicionalmente, pela pessoa que eu era, sou. E só ela viu ou alguma vez verá a pessoa que eu sou...  Assim, a próxima parte deste meu festival egocêntrico intitulado "Fins" debruçar-se-á sobre o alcance dessa mudança e dessa década. Sobre ela em mim. 

Hoje, hoje que sou há quase um ano um ente insignificante oficialmente eliminado da vida dela, acho que é uma questão de tentar compreender algo entre dúvidas que nunca acabam. Uma questão de ressentir, menos num sentido de mágoa do que no de conseguir chorar de alívio ao exteriorizar, sentir de novo esta história. Ou não fosse, pela devida lógica, esta também a maior perda e luto com que o azar do universo indiferente alguma vez me poderá presentear.

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