Não foram estádios cheios nem
alguém a quem perguntas "estás acordada"
quando morres a cair num sonho
e agora nada
por um azul de hora errada
a cobrir paredes, lençóis, a cama
donde especas em tectos não familiares,
hélices que voltam inelutáveis…
quantas vezes?
33, o osso da idade sem a madeira do fim
e as tuas unhas extraviadas neste
azul nem lobo nem cão, só a trela
do ar e o luar em que te vais transformar
no transtorno de mais um
beijo na testa que só ia
"até logo" mas foi
o lado da cama que nunca mais aqueceu
a minha gentrificação do espírito
pelo lenitivo d'ela estar acordada
a ver-me dormir, não olhar para o tecto
onde agora, verme, sou quantos?
Anos que pensei que tudo estaria
resolvido no ano que vem, aos 16, 23,
alguma forma de vida sem este
azul sem frestas ou arestas a espraiar-se por tudo
como um lodo que só a mim não pega
desde que fiquei
os estragos dos dias que já foram meus
e estou do lado de fora e
não sei onde pôr as mãos e
o esterno não sabe onde se pôr em mim
quando nem faço sombra à cruz
do caixilho da janela aos 33...
Pensas num número entre o universo e o dois,
e não há conta que feche esse intervalo
dela, um buraco na Terra,
última coisa à face da qual a minha
corda da humanidade inda não afrouxava
no gélido azul baço desta casa quieta
quando já não sinto nada aqui, mas o tempo
dura no corpo como cumpre
o peso ali: o helicóptero de betão
a girar sem sair do lugar onde fiz
33 e o... último dia de Verão nunca
foi tão velho, mas eu ainda nem
acinzento como este azul surdo azul sem
pulso azul inerte, e há anos que não
suporto as notícias, mente espatifada em
infoxicação, quando tenho este
sudário na boca a
desistir-me da conversação, ou da
maneira como vivi demais que
cada um retorce a palavra
até dobrá-la no que precisa dela,
enquanto secretamente nos esmagamos
uns aos outros, com a boca cheia de
coisas ditas a bem como "até logo"...
Aos 33, "feliz aniversário!";
"não estás consumado", só estou
numa "simulação que deu errado"
e ao terceiro dia, veio o quarto
onde durmo dentro da máquina
azul até à náusea
das pás que cortam sempre
o mesmo círculo pela mesma ventoinha
a respirar o teu nome, mais
moléculas de ti nos escrúpulos
e nunca vais voltar como um pássaro
à última vez em que fui exactamente
o que fomos
novos e brilhantes até a vida ser
a natureza do dolo,
todo o esmero afinal
um eterno non sequitur...
Com enredo acabado aos 33,
pós-descréditos em diminuendo
na tela azul da sorte,
decúbito, estou pregado à
redenção de gesso
cartonado para o rapaz final
dum género que não existe
a menos que ela me estivesse a ver
antes de eu ter chegado
ao fim de querer.
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
33
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