T., a raiz soluçada dos dias
À porta da sala errada,
quando toda a gente sabia que não era ali,
como se
o chão tivesse dado um passo de lado
para onde vive a infinitude
Só para os deixar tropeçar
num instante que já sabia o nome deles, quando
Começaram a falar,
Primeiro do tempo,
(e havia nisso uma previsão)
Depois dos contratempos...
(dele.)
E continuaram...
a cair pelos corredores da universidade de pedra,
estatuados, tateados até
saírem para a noite de velas derretendo na água
e ele oferecer um peluche, panda à beira-rio
Porque esse foi justamente o momento em que ela
Soube que ninguém mais ia chegar -
Com olhos extáticos, flutuantes, reflexos
Debaixo de liquidâmbares enquanto
Caminhavam o feitiço para casa.
Só que era uma vez, demasiadas
Um rapaz que dizia que lhe doía onde existia
“Aqui”...
cada chá, mimo, chocolate quente
Desfeito sobre mim mim mim
E foi aí que tiveste a ideia de me contar
que tinhas estudado magia por simpatia,
especialidade em xaropologia, eu só
precisava de um pouco de
crença em suspensão da descrença,
tu só precisavas de
uma caneta, quando estávamos no quarto
e pegaste no panda a pintar com as patas dele
um círculo na parede – abriste um portal!
Preto no branco teimoso como se por
Aliteração (a tua mão trémula...),
abrisses os cortinados
para a doce aparição de um quarto copiado
mas sem o som da tranca nas portas,
sem o atraso, sem o medo do depois.
Porque esse foi justamente o momento em que eu
Soube que ninguém mais ia chegar...
... aos teus pés, não hesitaste em atravessar
aquele batente com brilho à fogo-fátuo
Onde a realidade não podia entrar e
Entrelaçaste-me com dois dedos (suados...)
para perto, para longe: ali
sentíamo-nos incríveis, aorta da ala certa.
Como se invadíssemos:
parques, cinemas, hipermercados
Pontes praias florestas montanhas,
Centros comerciais bibliotecas restaurantes -
tudo o que me davas para o jantar.
Mas dias, uns poucos, e eu já me queixava:
da minha mão a arder sem motivo
que tu sem demora
curaste com o penso lento das tuas palavras -
enquanto beijavas a testa do panda
para as boas-noites no sofá onde ele vivia (e
tossiste...).
E logo seguíamos, refluíamos,
Como se assaltássemos a cidade pela janela
Entre beijos e harpejos,
Dizíamos “para sempre” num guardanapo
De papel-avião, porque tu tu tu defenestravas
Cada fresta de horário errado
Pra barricar a fantasia pra que fosse ela a realidade
(enquanto tremias mais um pouco da garganta, as
mãos...) minhas que nunca chegavam pra te abarcar
Porque tudo o que fazias era salvar-me a vida
Todas as vezes em que eu começava cada vez mais
A falar:
Dos textos obcecados a que não conseguia dar corpo;
Tu tocavas-me com nuvens de palavras de algodão. (trocavas-te amiúde)
Da coluna que curvava as horas sobre mim;
Tu levantavas cada vértebra de uma cama de bambu. (caía-te cabelo...)
Do estômago que ardia labirintos sem saída;
Tu cozinhavas gomas de (c)urso, prescrição perfeita. (perdias o apetite...)
E algures na minha estupidez absorta, eu meio
intuía que anos depois algo, a tua sombra diferente,
difusa, minguada:
“olha, as orelhas, pareces um lulu da pomerânia”.
Gracejaste “tonto” com a ternura de quem sabia...
bem o que refazer, sempre que lá estava eu a fal(h)ar:
Dos cargos que pesavam mais que pessoas;
Tu inventavas cantorias ridículas em clave de leveza. (adormecias demais...)
Dos corredores onde cada passo tinha dono;
Tu regavas o mapa para fora da planta. (caminhavas lentificada...)
Do (des)emprego que drenava mais do que dava;
Tu enchias-me de mantas e mantras no sofá. (mal dormias...)
Do mundo que por natureza me excluía;
Tu curavas este portal onde só cabíamos nós. (sorrias em esforço...)
e...
Durante 9 anos, foi assim:
a rotina, sacarina, cada lugar teu,
a felicidade (im)possível entre intervalos crescentes
de eu ficar em pedaços e me costurares.
Do alto da tua clarividência,
estendias-te, distendias-te aérea,
desmultiplicada em esforços e reforços de vitamina T.
Tu. T de tudo enquanto eu já percebia
o que estava a (des)fazer...
Sim, eu era o grande hipócrita,
especialista em crer querer suspender a descrença
Todas as vezes em que achava estranho –
os teus sintomas, a história progressivamente mais incrível
de uma rapariga que já jurava
“voar, imune a bombas, à prova de bala” –
E tinha a decência mínima de me preocupar...
contigo, como quem te perguntava se estava mesmo
tudo bem e acreditava quando dizias que estava “tudo bem”
só para me assegurar também que podia continuar a
pôr (a dor do teu céu transfuso entre parênteses)
Sim, eu sou o semi-monstro de estimação da minha própria
cegueira, egocêntrico retrospectivo,
o cliché autocomiserativo mendicante de empatia literária,
fingindo não se duplicar em ego: assim.
Voragem com pernas, fazia as questões para as quais
sabia não ir ouvir outra coisa, senão
a tua disposição automática
para me sarares no teu peito
enquanto negavas que adoecias
por isso.
Mas mesmo ao continuar a inocular-me do que
realmente aconteceu,
eu amava-te da minha pequena maneira fodida
e depois, lembro-me.
De como enchias os dias de pequenas revoluções,
e encenavas maneiras de recusarmos seguir as regras da moda
com palavras que saíam pela diagonal na ponta da língua
para (in)gente de tronos invisíveis
sempre que o claustro daquela universidade de merda
nos ia alastrando o vazio.
A tua doce anarquia triste em que outro mundo era possível,
só distante.
Ainda hoje eu...
Porque ensinaste-me a amar, nunca a desa(r)mar.
E depois, relembro-me dos meses finais,
o modo como te chamava os olhos vagos
e demoravas horizontes a voltar a ti,
como se acordasses doutro corpo.
Desfocada, envelhecida, amorfa na mitologia em que te pus,
sem vida própria,
sentada num sofá a preto-e-branco, tossindo compulsiva:
flocos de espuma, fibra de poliéster.
Um cansaço demais para te carregares sozinha à beira-rio e
todos os “não te preocupes”, alívios cómicos ou dias difíceis
por fim assumidos “eu não estou bem”.
A incapacidade de o levar a sério até ao
acto de ver de vez que já não eras tu
só porquanto já não cuidavas de mim.
E então, só então, o meu cuidar desesperado
de querer crescer braços mais mas o que faço com eles?!
Para ir fechar as fendas celestes, na tua senda.
(A morrer por dentro), proteger o portal a todo o custo,
sem nada em troca senão
o risco de a tua cura ser a minha doença,
todo este tempo, contudo eu não passava de um
panfleto contrafeito, mascote imitativa da tua entrega genuína a
Ajoelhar-me, tranquilizar-te (pálido)
com nadas "que um chá não cure", tratamentos
certos & seguros, mentiras, mitos e xaropes,
enquanto pioravas a olhos não vistos,
porquê?! Porquê?! Porquê?!
Desaparecias encurralada adentro de uma moldura
de fogo fátuo extinto. Rumo à irrealidade das coisas,
a tua voz frágil a fantasmar-se pelo ar
com as respostas que nunca vou ter, sem ser:
“Porque fui feliz assim”.
Porque esse foi justamente o memento em que eu
soube que nunca mais ias chegar -
de comboio, avião ou asas –
à casa onde costumávamos viver.
***
Às vezes, quando cambaleio por aí,
consigo ver-te, copa solucionada das noites,
à porta da sala certa, com o sorriso automático da inocência,
acolhedora, macia aos 21.
Ninguém sabia que era ali, aqui, em todo o lado,
o teu abraço de peluche gigante, Ursa Melhor,
a filtrar o que me fere em colheres de luar
com que toma(va)s as minhas dores.
Contraluz azul brilhante, querida constante, és a minha;
passado, presente, futuro. Morro de vontade de
fazer tudo outra vez, e ouves-me - a campainha!
Obrigado & abrigados, saímos ambos sob o teu casaco polar,
vamos jantar hoje a 11 anos atrás, dizes numa boa:
“Anda, anda! Ciranda pelo meu crónico sim!”
Até que o nosso halo se dissolve branda lagoa
Na montra do restaurante psicológico onde existo,
a tua chuva põe legendas no vidro, e escreve FIM:
A tinta apagada, o céu fica à toa
Mas se hoje a vida de zoológico magoa
O xarope que fomos ainda fabula assim
Contigo alapada, panda sobre mim.
domingo, 16 de novembro de 2025
Xaropologia
sexta-feira, 24 de outubro de 2025
Semanada
Segunda-feira engolfa-te no cimento.
Terça já és só formiga numa fila sem fim
A ver quarta-quinta coladas numa febre pegajosa.
Os ossos deslizando com sede de óleo,
E os gestos a pedirem mais fé mecânica.
Até que a sexta chega sem The Cure
E o corpo dobra sarcasmo em movimento!
Também vais ser comércio
Vais dizer merci
No beco oh oh onde
Tudo se apaga em semanada
Quando o insecto paga ao insano
E extorque torpe sem o nada
Asas do ser aspirante a humano.
Sábado gasta-se em asma de sofá,
Domingo encolhe-se na alma penada,
As ruas lambem o cansaço das botas,
E o pulso esfarela mantras e notas.
Já segunda espreita em bocas de esgoto,
Sempre pronta a trincar o corpo de volta!
Também vais ser comércio
Vais dizer merci (mereci)
No beco oh oh onde
Tudo se apaga em semanada
Quando o insecto paga ao insano
E extorque torpe sem o nada
Asas do ser aspirante a humano.
Top top torque
A vida gira sem manada
Diz bem do chefe
Que diz que é sem manada
Ou vai para a rua
Revoltar para dentro
Que vida gira
Com a calma depenada
E...
Tudo se apaga em semanada
Quando o insecto paga ao insano
E extorque torpe sem o nada
Asas do ser aspirante a humano.
(Se o santo não bater, vende o tempo
A outro chefe, outra segunda-freira.)
quarta-feira, 10 de setembro de 2025
Letra T
No recreio caem sâmaras,
dragõezinhos a voar.
Rodam, rodam como câmaras,
quem me vem encantar?
Tatuzinhos fazem contas,
helicóptero ou dolitá,
A-B-soletram das pontas
que no chão lá livre está...
Sempre a letra T,
e desde a primária
o meu destino ficou selado
num tampo de secretária
onde ela se senta ao lado...
sem eu conseguir deixar de reparar
que mais perto que alguma vez antes.
Primeiro luz loira, comigo a corar
o polvilho floral, chau consoantes.
T, Tati, tutti.
Depois sombra morena gira, gira
até cair anemocoria no secundário.
Lépida lepidóptera na mira,
mas eu nem dela imaginário.
Cara e coroa, letra T,
bem à medida que aprendia a ler,
aquele pseudoplátano vinha ditar
o mistério indeiscente de não ter
as asas membranosas de um par...
Que começa e acaba na letra T. Mal sabia...
que posso amar, não posso amar-te
antes de nos cruzarmos neste curto herbário:
tudo preparatório e especificar-te, conjugar-te
seria distanciar-te, pôr-te em Marte.
Até que um dia, Teresa, foste tu o abecedário.
quarta-feira, 20 de agosto de 2025
Sintowave
E de chofre ela invade,
a cidade, ser novo nela,
A inexplicável noite em néons
como uma criança
de meia-idade a encharcar-se na tela
do táxi narcoléptico que passa
pelo estuplime de rosa choca com
azul fluorescente, ciano coalescente.
Mas santa saturação, o iluminismo glossa
embriagado de canções pop, um nocturno
que nunca vem só. São
mil sóis electrónicos
a derreterem o tempo nos letreiros até
pingarem cores no céu do asfalto.
E de enxofre a manhã acorda
em duas estrelas disfuncionais
uma à procura da outra
sem saber,
em janelas, varandas de quartos de hotel
pelo vidro, onde crises existenciais se
reflectem até embaterem no corte
vertical de arranha-céus em colisão
no horizonte e
voltarem sempre ao ponto de partida
como espelhos de
vidas materialmente resolvidas, mas
o ennui, as neuroses de domingo?
Respondem-lhes
silhuetas de smog e dias nublados
num lugar desbotado onde não podem
traduzir japonês para inglês
nem inglês para alienês.
Essa a rima de duas almas, o espaço
tão só que ocupam
logo onde elas mais abundam.
Melancolias nativamente estrangeiras,
lassos à espera de laços,
desesperos quietos até que
a noite retoma a ficha
elec lec lectrificada e
tutti-frutti do acaso,
elevadores, lobbies, bares de hotel,
o mesmo
destino
de embates, encontros aleatórios.
Pouca conversa fiada,
muita versa a inebriada
água de lágrimas de vidro em explosão.
Combustão melancólica, isso basta,
para dilemas do ouriço prontamente abandonados e
seres abissais descerem para as alturas de
paraísos artificiais, passadeiras cruzadas
que dão para todo o lado, porque
ela é Shibuya, ele é sua
onde a distracção é uma obra prima
a entrar e sair em todo o alado
pelas portas da percepção,
giratórias
entre carros ou pés flanares
nos quais a rua é sempre
um lugar à janela que se pode
tocar, trocar
shoegaze por shegaze
para fitar
as estrelas, a química no ar
de semáforos incandescentes
que fazem ligaduras tipográficas
com ossos-letreiros-fontes-artérias -
remendadas sob um barroco dos danificados -
numa só corporação de conexão coral
cantando(-me a ti em mim) hipnagógica
"dorme bem"; "vemo-nos amanhã".
Fluxo refluxo, o dia branco retorna
com a sensação recíproca de que
"não posso fazer mudar o tempo para ti".
Di-lo a função de ter de a haver,
onde toda a gente quer ser encontrada
por detrás de apartamentos, aborrecimentos,
como cada janela de suíte uma
mónada a enquadrar, espelhar
miríades de janelas, o universo inteiro
à medida de prédios que reproduzem
um presente grávido de vazios.
Ninguém sozinho em estar sozinho,
sempre o mesmo, mas entre tantos,
dois seres humanos esfolados,
belos e quebrados, turistas
na Terra cuja cara faz
escala em situações mentais simétricas.
Ritmo lento, a cabeça de um
repousada no ombro do outro e...
Eis que na lonjura
(o cheiro a sintetizadores)
se começa a adivinhar
o fim do desapontamento, os desentendimentos
zero... e uns no simulacro de
cordas que tilintam quais gotas de xilofone,
arpejos pentatónicos a saltar cristalinos
entre noites de Tokyo e foge,
quando o escuro chega.
Mais com ele, o senso automático de que
"eu posso fazer mudar o tempo para ti".
Di-lo o silêncio recíproco de
écfrases reversas,
pinturas prescrições perfeitas,
para quê conversas?
"Se a beleza está nos olhos de quem te vê".
E tudo se passa como se pudessem
comprar um indulto da alienação
ao viver
um best of, montagem de cenas preferidas.
Porque vem, vai e alta voltagem!
A ignificar até
Lágrimas de vídeo em explosão!
do céu mirtilo em laranja, menta, morango,
montras, marcas, logos, slogans!
Excessos de informação comestíveis e
já nem saber como descrever que
todos os vectores vão dar a croma
ali onde ela agarra a mão dele e o guia,
correm
por casinos, arcades,
karaokes, shoppings, estações de metro
sinaptizando os pontos num
não-lugar a saber a casa.
Preenchem as lacunas com sonhos,
tiram bilhetes para Marte,
cambaleiam por escadarias em cochilos digitais:
ele, ela, elã rua fora cada vez mais adentro
do mistério e este senso premente
como estrelas atónitas a perceberem
o aqui e agora
do que só acontece uma vez na vida
o milagre fugaz desta grande escapada.
Flutuam:
espectaculares, receptaculares;
perdidos e encontrados no oceanário
urbano observatório porque, celofane,
podem ver-se através um do outro
halo blindado para o resto
em jeito de quase amantes que só
se tocam à beira de precipícios
tímidos como pontas dos pés.
E no topo, por mais que anestesia biónica
e psicofónicos e hiperbólicos
eles sabem:
o tempo está a mudar,
mas porque...
a manhã vai chegar.
Diz adeus na parada da rua quieta
tanto quanto cheia,
dois corpos plantados no meio
dos passantes em Shinjuku
enevoada, desfocada e
cada um deles tornado para o outro
a multidão que não conseguem ver.
Tal como mel, encharcados de reverb,
o néon ainda
lhes escorrendo pelas caras como
maquilhagem de Deus.
Sussurram um vapor que só o ouvido conhece e
descoreografam-se.
***
Entrementes eu... tento adivinhar
a minha promessa deles:
"Puxamos o filme para trás e voltamos a ver
(VHS em streaming, um anúncio em loop)
1983 ou 2003,
o futuro conforme ele era para ser
quando tinhas 18 anos numa sexta à noite
e a cidade um santuário
onde as chances a antecipação a fé!
invencível de que tudo podia acontecer
nem que fosse...
(desfibrilhando o glitch, o granulado)
encontrar-te numa sala de cinema
em que o tempo mudara para templo
e ficamos
anacrónicos, mas crónicos".
sexta-feira, 1 de agosto de 2025
Eclipse Sem C
Pões-te no parque, a hora mágica.
À beira dela em pontão.
Aquele onde a fotografavas de costas
desfeito num réquiem para um sonho
perdido para o Verão passado e quando
a face dela prestes a voltar-se...
Desaparece.
re-volta prece
na face prata de uma folha de choupo
branco como uma branca
que cai para lá do cais e se esvai
até onde a memória se afoga,
quando
acordo sonâmbulo solar sentado aqui
Sem saber se rangem as tábuas ou ossos
grisalhos ou entalhos ou atalhos?
Porque eu estava só à procura de cura e
reaparece
Ela nos S's da ondulação preguiçosa do rio
Como o universo lançado às cinzas
sem cessar e
volto-me para transeuntes
entre delírios de se voltarem para mim e lerem
que já vi vi suficiente para merecer
O quão tão desapontante a vida
que há quem não consiga,
no fundo da sua face de belida,
deixar de acreditar:
o quão todos acreditamos na conspiração
de se importarem secretamente "comigo"
se a minha apatia tiver pose de fim do mundo
segundo
mais outro, passado, e o que resta de sol
atinge-me pela água d'ouro em flecha de V
Vê.
Todos os momentos este em que quis
uma câmara interna e prometi a mim mesmo
Recordar-me desta precisa sensação
Mas não vou
Presente eterno de tirar e
o banal que antes belo
Horror na pele,
Velho e cinzento.
cimento
líquido, saltos de consciência
quânticos, mas volto a prometer que
Vou
Lembrar, ficar, porque este banco,
a brisa a tarde o toque de luz
Arrepios na pele
Adensam-se e
Por um momento eu
vejo os meus olhos fora de mim
Como um transeunte a achar-me belo
Frágil e-terno numa face que,
entre tremores e temores,
dança com os fantasmas das coisas que
nunca foram.
À beira de lágrimas, maremotos.
Beijo-me assim,
à distância
de me ver ir embora
Porque o parque, os patos, as gerações,
As crias das crias crescidas
do Verão passado
Lembram-me de nós noutra vida -
as mãos dadas de dois miúdos transeuntes -
e o quanto
cada adulto que viveu
o suficiente para saber o quão
Desapontante a vida
te abandona tão cedo percas
o timing juvenil da próxima estrela
vicária
da hora mágica que lhe poderias dar
de novo, já não,
pois que flua a maldição.
são,
assim os círculos na água, reflexos
de filhos ondulatórios e a
lanterna de sol sobre mim que
me cega
põe-me a olhar fixo para baixo
entre a borda das ripas de madeira
e os S's dela metálicos aquáticos
até que a prata o marrom se colam
pardos, giroscópicos,
e eu descolo
com o disco de fogo a derreter-me
as amarras, estrela serrada do meu
desaparecimento, vou
coloidal, vou nistagmo porque
os olhos fogem-me tornados relógio
como ponteiros que avançam o pontão
numa pequena jangada inconsciente
um continente
como se o mundo inteiro
me deixasse à deriva
sem fazer barulho, acordo,
adormeço e reacordo:
a ler o meu diário de transbordo,
o tablado do meu monólogo
em que o que me prende à margem
não é mais firme do que água.
Porque tudo o que eu sou
já sempre o que nunca fui
por deixar de o ser.
E a resignação move-me,
motorista imóvel ou
sala de espera onde
nem efémeras pousam no ombro
meu de um oblívio que
não passa pelas pálpebras
porque o mundo prossegue sem
a minha fé em nada nem
ninguém a quem contar que
Narciso só queria ser Narciso
Esse o crime
de restituir o meu próprio corpo
quando mesmo a minha mente só
é minha por agora e não
consigo encontrar os meus
eus
passados para lhes chover
como é que isto aconteceu?
os olhos vagos e o facto
que não é como disseram que ia ser...
o meu mundo inteiro desperdiçado a reflectir
memórias, sonhos, fotos,
pontes partidas como
o nome, mas a cara dela?
O giz da água já não diz
a inutilidade de tentar S'salvar tudo
porque não vai parar
a maré crescente, a contagem decrescente
até dormir no leito do rio
E volto
A face para cima
com vítreos volantes amontoados no desazul
bebé, quais
(detritosistências)
anjos estragados a fugirem de mim
como células desagregadas ao microscópio
que não tenho
mais
para
esvaziar
à minha alienação
terminal
Devagar rumo a um palco vazio
onde o meu banco raia
e um cálice de transparente
bebe-me o móbil.
Flutuo pó e
nada disto vai ser cósmico
nada disto vai sequer ser cómico.
Incurável...
Um eclipse que se apagará antes de acontecer.
Um céu que esquecerá como se escurece.
Um poema com uma letra perdida.
A sombra que não conseguirá cobrir tudo.
Um círculo que nunca fechará
(
A resignação da única coisa que
nunca vou ter de responder:
"Como desaparecer completamente?"
Eu sei, eu sei
Eu cem vezes sem
Eu sem
domingo, 13 de julho de 2025
A Minha Vida Em (D)anos
É sintomático que haja pior do que uma fase de pré-consciência ("Bruma"), do qual recordo pouco ou nada. Para ser sincero, todos os anos tiveram as suas dores, mas guiei-me por uma ambiência geral ou pela progressão... Quer dizer, 2014 começou com um episódio desencadeador de tanta angústia e, depois, num lento recuperar melancólico, levou-me ao momento, ao dia, ao período mais belo de toda a minha vida.
domingo, 29 de junho de 2025
Encontra-me Em...
Eu sou o bilhete amarrotado no chão...
Eu sou o chão que ficou depois da espera
Eu sou a espera sentada durante minutos
Eu sou os minutos à beira do cedro
Eu sou o cedro e talvez o credo
Eu sou o credo antes de findar o parque
Eu sou o parque para quem entra a norte
Eu sou o norte apeado do autocarro 33
Eu sou o autocarro 33 a sonhar à janela
Eu sou a janela com o pôr-do-sol em reverso
Eu sou o reverso a subir no cruzamento
Eu sou o cruzamento ao pé da paragem
Eu sou a paragem aquecida a tabaco
Eu sou o tabaco dela a andar em segunda mão
Eu sou a mão que abriu a porta do prédio
Eu sou o prédio com cheiro a lixívia
Eu sou a lixívia entranhada no corrimão
Eu sou o corrimão gasto pelos regressos
Eu sou os regressos antecipados no tapete
Eu sou o tapete onde debaixo a chave
Eu sou a chave, o tédio, o apartamento
Eu sou o apartamento de tudo e todos
Eu sou tudo e todos metido no bolso
Eu sou o bolso onde dentro a hora
Eu sou a hora, o lugar na esperança de alguém
Eu sou alguém a escrever a quem não sou
Eu sou quem não sou e queria ser no papel
Eu sou o papel tirado da gaveta
quinta-feira, 26 de junho de 2025
Poema Sobre A Origem Do Sentido
.1
1 Nota prévia para o pós-leitura: para originar o sentido, desenhe um círculo à volta do círculo... caso seja um nome digno de uma Bianal... caso contrário, não funcionará porque não é permitido. Por favor, contente-se com o primeiro; limite-se a vê-lo por um ecrã.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025
Azul Perfeito (Mondrary Fields)
“Nem vais acreditar!”, abrias a veneziana
Acordava eu num estrépito a forno de lenha
Sorrias, o cheiro a almoço preferido a senha?
... do nada, assaltávamos a rua na leviana
“Vem vem”, sóis sob o que um céu diáfano emana
Azul perfeito e sempre-verde alface, montanha?
Como que num filme da Ghibli que nos apanha
A descer uns alpes desde a de pedra cabana
Cheios sem comer, gestos de edelvaisse por um prado
Euforias de corredor, mas ténues respirares
Açúcar que lavava os dentes, absurdos assuntos?
E ao fundo ou acima, eis sós, um lago querenado
Os nossos reflexos telegénicos, tu explicares
este sítio mágico onde “Olha, ainda estamos juntos!”.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025
Aurora
Os dias, os dias eram ouro
Sempre que não eram agora
E volto vulto dez anos de gora
À juventude sónica,
o nosso fogo roubado.
Lembras-te?
O banco, a cidade, o miradouro
Todas as vezes brilhantes que chegavas
O lugar onde primeiro falaste da Aurora.
O luar e aqui resto eu. Agora.
Um sentar mineral no banco panorâmico...
A cidade morta, a artéria aorta
De carros a comutar lá abaixo
De casa pro trabalho, de casa pro trabalho.
Aurigos eléctricos a sangrar insignificância,
Corridas de chicotes circulares
Faíscas de faróis flavescentes
E estávamos tão acima disso, lembras-te?
Falávamos...
A Aurora,
Um dia,
quando tudo ficar bem.
Timelapse, timelapse,
Um dia estás aqui, o outro estás ali.
Em pistas de cicatrizes, motores motrizes
o peso das coisas que não dizes
Quando começámos a só dizer...
Amo-te no ruído dos carros que passam
como as promessas de nunca sermos assim.
Com a Aurora.
Sempre nunca agora.
Amanhã. Ou outrora?
Um dia quando fôssemos novos.
Na década em que me sento agora.
A decadência.
E o clichê compreensivo.
Que nada acima de tudo.
Que tudo seria voltar-te do trabalho pra casa.
E todos os dias ir buscá-la à escola.
Um dia.
A glória de ver como ela aflora.
Lá abaixo, iluminação, metido pelo trânsito que doura
À noite à espera da Aurora.
E querer clamar-te:
“Estou aqui”.
No miradouro de teres ido embora.
Especado a ver outra ERA onde era
a casa onde costumavas viver.
(Quando miúda)
Lá em baixo.
Só o tempo
Dura.
Dane-se só o tempo não é imobiliária...
Esta maldita máquina de desolação que tudo esmaga.
Lobos a “venderem sonhos” com os seus ternos e gravatas.
As presas da cidade nas nossas veias
E cada vez mais, lembras-te?
Parecia que falhávamos a Aurora.
Pra outra hora.
Timelapse, timelapse,
Um dia estás viva, outra noite...
Estou aqui.
A editar paralisado à velocidade de deus
como uma câmara a ver no suar suave dos carros encruzilhadas
que saltavas para me abraçar
e o teu sorriso em 360 graus
misturado com as estrelas no céu
uma grande unificação de
linhas luzes e as minhas lentes aquáticas
Todas as lentas mudanças imperceptíveis
Até vir a não haver a Aurora
Numa pedra a viajar pelo espaço onde ela não mora.
Aqueles,
Aqueles eram os dias, lembras-te?
Formávamos um único poro
Movíamos montanhas e entranhas
Exalávamos o mesmo ar ar ar
Tanto!
Este deslumbramento ansioso de raiarmos pela cidade
Como num videojogo de aventura
(os que me vias jogar...)
“Olha, outro brilhante sítio novo!”
Banhados ao sol...
E tudo, tudo dourado podia ficar
Quando a tua cabeça no meu colo neste banco
Falava
Da cor que o meu cabelo nela ia rimar.
“N’Aurora. Claro... não agora”.
Antes de anos e planos e demasiados danos.
De um dia
(do nada)
Os teus olhos começarem a dizer:
“Tenho más notícias”.
Aquela maldita máquina de desolação a entrar-te no cérebro...
Anjos metálicos de cinquenta toneladas a roubar-te o cerne...
Alguém a apagar a luz contigo lá dentro.
“Desculpa, odeio tudo, este mundo esmaga tudo”.
E silêncio nocturno cá estou eu.
Vazios:
O banco, o parque, o cimento, o pneuma.
O zumbido do poste iluminador de começar a...
Postergar a Aurora
Pela vida viaduto via tudo fora.
Timelapse, timelapse,
Este lugar este tempo onde todos os temposlugares colidem
Arcos, raios, cortinas, coroas à minha frente
Cinergia estática, sobrecargas e esta
Ansiedade espiritual
Atenuada aumentada não sei
Como se
Pudesse retroceder o filme
Por entre
Faces de multidões anónimas
Caras de brancas e solidões distantes
Para antes do gore e a gora de também as sermos
E a a a ataques de actividade, me invadissem as estradas
Perdidas, mil saídas de âmbar a procurar
O dia
O momento
O ponto
Em que abandonámos a Aurora.
Para um espectáculo de sombras.
Sempre?
E agora...
Acelera acelera acelera!
Vejo
O frio, a primeira vez que entraste no meu quarto
O teu vestido florido - as nossas silhuetas magnéticas
A pen que te dei com o Lost In Translation
A caixa com chocolates que guardavas debaixo da cama
Chorarmos de rir de chorarmos de rir de...
Ser real.
Sonhos de celuloide caleidoscópios meus teus
A noite em que nos conhecemos a falar para sempre
(“Obrigado por existires”)
Como se a aurora nunca fosse chegar.
Porque como se chegássemos nós um para o outro.
Como um mundo de dois corpos só
Com cercas para o mundo que esmaga.
E esmagou-nos.
No lapso timelapse de o deixarmos entrar
Aos poucos, rapidamente.
Como um cancro de ódio petróleo p’las veias.
... e acho que
perdemos a Aurora quando
começámos a falar dela
Metonímia, salvação, instrumento, conflação
De um dia tudo (ter de) ficar bem.
E aqui restolho eu.
À espera que acabe, passe
Como quem não consegue
(Patética repetição irónica)
Deixar de esperar pela Aurora
A segunda vinda
Cá, a cair lá abaixo
Entre as obras, os carros, ziguezagues de trigo
O timelapso
Como uma franja de safira bebé
A derramar-se sobre todos os corpos, edifícios, pétalas
Com orvalho no canto dos olhos
Bocejantes após um longo sono.
E aí eu ia olhar para trás no carro
Vê-la no banco onde me costumava sentar
(quando miúdo.)
E a beleza, a graça, a transcendência!
Da vida o artigo indefinido dela.
Aurora, Aurora, agora!
Sagrada como uma tora
Arpeggios a aloirar pela velo-cidade.
E pensar
Sem pesar.
As suas paralaxes coisas qualia
A dor e o que ela adora
Querer crer e sabê-las
(onde estava a cabeça dela quando a tinha à janela?)
(onde estavam os pés dela quando devaneava na escola?)
O mistério silente de lhe darmos o espaço, o tempo (voa!)
Sermos o barro nas mãos dela.
O que fosse.
Cada vez mais Aurora.
E íamos contar-lhe a história
De como nos conhecemos durante a noite
Sem nunca esquecer que os dias
Os dias eram ouro!
E que sempre, sempre, os verões se estavam a dissipar
Pelo que nunca tivéramos de nos perguntar
Se podíamos começar outra vez agora
Before Sunrise, sem listas do que se augura e devora
Sem todas as coisas que nos desiludiram
Porque tu não ias cair com elas.
Com a Aurora.
Tão mais que só a fonética de enrolar a língua na hora de dizer...
Aurora, Aurora, Aurora...
Porque era assim que a tua mãe te ia chamar quando ainda estava aqui.
anos.png)